Quem se vê na TV (20)


jmmcc,

Os autocolantes compulsivos

São sabotadores perversos. Os autocolantes compulsivos distinguem-se dos restantes grupos por nunca aparecerem na pantalha (ou, se aparecem, não se assumem), mas são os mestres da sabotagem televisiva.

Andam sempre entretidos com toda a programação, seja ela qual for, e nunca se dão por satisfeitos. Inventam, inventam sempre. Contudo, as notícias é que constituem os seus momentos verdadeiramente orgásmicos. Eu explico.

Imagine-se a assistir às notícias. No canto superior esquerdo, por exemplo, tem o logótipo do canal emissor. Por baixo, lá está o relógio com as horas. No canto superior direito, lê-se o nome do enviado especial que está a falar do exterior. Abaixo, está escrito o lugar em que se encontra o enviado especial. No canto inferior esquerdo, está escrito um grande tema (cultura, economia, desporto, política, etc.), só que o tema não tem qualquer relação com a notícia transmitida nesse momento, mas sim com o rodapé. Este rodapé ocupa a faixa inferior a quase toda a largura e tem quatro linhas: uma primeira que é temática (espécie de subtema que caracteriza o grande tema anterior), duas linhas reservadas à narrativa específica e ainda uma quarta em que passam sucessivamente flashes noticiosos, uns atrás dos outros. No canto inferior direito, é possível que esteja a passar informação sobre o tempo que faz em diversas localidades, ou sobre o trânsito na capital, ou as duas coisas, ou outras coisas quaisquer.

O modelo descrito pode sofrer variações. Os autocolantes compulsivos estão sempre a inventar. Por isso é que não dão a cara. Ficam lá atrás, entretidos a inventar novos métodos para tapar as duas linhas da tradução do que aquele árabe está a perorar sobre a próxima crise do petróleo em resultado da rede de abastecimento eléctrico de automóveis anunciada por Sócrates.

Por causa da sabotagem dos autocolantes compulsivos é que vou ter de comprar um televisor igual ao daquele café que enche pelas costuras quando há jogo num canal desportivo codificado: com tantos autocolantes no ecrã, só um aparelho gigante me permitirá sentir que tenho um televisor normal. Afinal, a gente compra um televisor para ver o que estão a mostrar ou para ficar com tudo escondido atrás dos autocolantes?

Por via das dúvidas, comprarei um daqueles televisores sem fundo que não dão para pousar uma jarra com flores de plástico, não vá saltar de lá um dos autocolantes compulsivos para lhe pôr um naperon no topo com uma ponta a cair para cima do nariz da Ana Lourenço, que é a única coisinha que ainda consigo ver…

16 comentários em “Quem se vê na TV (20)”

  1. Há os que nunca colam e os que nunca saem. Que saudades do cinema a ouvir as velhinhas a ler as legendas.

  2. Muito bem! Clap, clap , clap, clap!

    Ainda assim duas notas:
    1) Realçar a completa irritação que é não ler as legendas por causa dos “autocolantes compulsivos”. Já dei por mim a desviar a cabeça para o lado …
    2) A cena final está um vredadeiro must. O protagonista naperon portou-se à altura de um grande final.

    :)))

  3. Acabei de ver o “dr.” (ou será “eng.”?) Sócrates no Telejornal da RTP1.
    Ante tanto descaramento, desfaçatez e falta de vergonha, limitei-me a perguntar a mim mesmo: como é possível uma coisa destas?
    Pergunta que, naturalmente, dirijo às pessoas sérias e honestas que militam (ou erradamente votam) no PS. Sim, como é que pactuam com semelhante fenómeno de mentira?

  4. Vá lá, vá lá, que até nem estás muito mal, enquanto a a única coisa que ainda consegues ver é aquele ‘narizinho’ da Ana Lourenço… Olha, se a única coisa que conseguisses ver fosse um “narigão” que eu cá sei, os autocolantes compulsivos não teriam lugar no ecran, pois ele monopoliza-o logo todo! E isso é que é fundamental…

  5. Belíssimo retrato, João, das emissões televisivas de hoje em dia. É tanto o “acessório” que temos que fazer um esforço para não perdermos o “essencial” – compreendo que nos queiram manter “agarrados” mas, quanto a mim, não deveria ser por aí…;))
    Calculo que para o profissional do “meio” esse “lay out”, também não agrade. E, tratando-se de Ana Lourenço, ela merece muito mais do que só lhe apereça o nariz – por melhor que seja o “naperon”, João, não lhe faça mais essa maldade.:))
    A despropósito, ou não, há outra coisa que me irrita solenemente (acontece também na TV pública) quando passam a correr a ficha técnica dos programas e dos filmes ou, no caso dos filmes, cortam-na a meio…

    1. É isso mesmo, Maria: insuportável. Não irei permitir que me salte do ecrã um “autocolante compulsivo” de ‘naperon’ em riste para me tapar o pouco que resta.

      Quanto às fichas técnicas, a SIC é a única que não as passa em passo de corrida nem as corta a meio: no momento em que vão começar, corta-as imediatamente e nem chegam a aparecer.

      Sobre isto, além de ser uma injustiça por parte de todos os canais e de ser uma afronta para os telespectadores interessados, deve até ser uma irregularidade contratual e é seguramente falta de ética.

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