Os discurcionários

Este é um grupo constituído por pessoas que decoraram algumas passagens do dicionário que têm no serviço. Os discurcionários são pessoas aparentemente comuns e em quem não se repara, excepto quando começam a falar para uma plateia que não conhecem e perante a qual querem deixar uma imagem de grande efeito intelectual.
Característica distintiva dos discurcionários é caprichar no discurso quando apanham um microfone – de preferência, acompanhado por uma câmara de televisão. Não reagem a todo o vapor: começam devagar, a fazer contas ao tempo de antena; depois, puxam do seu melhor vocabulário e é vê-los a salpicar as frases com os conhecimentos linguísticos adquiridos. São moderados na quantidade, mas inexcedíveis na qualidade.
Dizem o mesmo que qualquer um diria, mas não da mesma maneira: algumas palavras, criteriosamente seleccionadas, são substituídas por sinónimos inesperados. Cada frase é uma espécie de puzzle e as palavras “especiais” vão surgindo como as peças finais à procura do buraco em que encaixam.
É bastante comum encontrar os discurcionários entre militares e elementos das forças de segurança. Nesse caso, é provável que sejam oficiais subalternos, ainda a meio da carreira e com aspirações à progressão rápida.
Mesmo sem olharmos para o televisor, ficamos imediatamente com a certeza de que são agentes graduados só por ouvirmos as primeiras respostas que dão aos repórteres. Mais ou menos assim:
O repórter – O trânsito é mais perigoso com esta chuva?
O discurcionário – Afirmativo!
O repórter – Portanto, aconselha que se circule com mais cautela?
O discurcionário – Correcto e afirmativo!
Está identificado. Sem vermos as imagens, só por distracção é que ficaremos a pensar: «Será um agente de serviço?» Não pode haver engano: «Afirmativo!»
O início discreto serve apenas para avaliar a situação. A seguir, tomam lanço e passam às explicações. É então que começam a expor umas amostras do seu mais fino recorte literário por via oral. Vamos a um exemplo.
Há tempos, após uma rusga nocturna a um bairro suburbano dito problemático, o oficial porta-voz explicava assim aos repórteres, na sua terminologia típica:
– Tivemos um helicóptero a sobrevoar a área, sendo que o referido meio aéreo integrou o dispositivo no terreno!
Claro que não devemos tomar a explicação à letra: ou um helicóptero está a voar, ou está pousado no terreno a integrar o tal dispositivo. O que acontece é que, para a sua carreira, é importante que os superiores hierárquicos saibam que eles nunca renegarão o «afirmativo» e «o dispositivo no terreno», termos de suma importância nas carreiras militares e militarizadas.
Atente-se na continuação da explicação sobre aquela rusga:
– Todos os veículos e respectivos condutores e eventuais passageiros que entraram no bairro foram escrutinados!
Esta tirada dos «escrutinados» indiciava que se estava perante um dos discurcionários já a preparar-se para o remate retumbante, antes que a câmara se desviasse. E foi precisamente o que aconteceu:
– Tivemos também o apoio de uma equipa do corpo especial de intervenção e respectivos canídeos!
Aí está. Mais fino do que isto, só se um dos «respectivos canídeos» interrompesse a sua locomoção normal para erguer o membro traseiro direito no espaço aéreo e dar início ao acto de libertar urina em repuxo curvilíneo direccionado para as botas do respectivo oficial coordenador do referido dispositivo no terreno! Afirmativo?…

Acho que ainda falta o post sobre os repórteres que fazem as perguntas dando ao mesmo tempo as respostas, ou, o que não anda longe, pondo desde logo as palavras na boca dos perguntados, mas o autor da série sabe melhor do que eu.
Obrigado pela sugestão. Como calcula, ainda falta apresentar alguns retratos. Ou caricaturas, se quiser.
Aproveito para lhe fazer uma pergunta: acha que já estão retratados ou caricaturados todos os grupos de estereótipos com que deparamos nas televisões nacionais, ou que já estão todos apresentados e que já não há mais a trazer aqui e que irão ficar de fora outros tantos que constituem grupos muito definidos e que acabarão ignorados pelo autor desta série que tão criterioso tem procurado ser e que nunca manifestou ter completado esta obra gigantesca de sagaz observação e de incalculável esforço que alimenta neste blogue? Hehehe…
Sr. Carvalho, ponha-se a pau que o Sr. Rui Santos roubou-lhe a identidade.
A sério?
Afirmativo. É sempre útil saber que «os canídeos» também integram «os dispositivos no terreno». Aos «referidos meios aéreos» é que geralmente só acontece isso quando a hélice decide entrar em greve, lá no alto, o que costuma ser um péssimo sinal. Negativo.
Realmente, um meio aéreo é diferente de um inteiro aéreo…
Então e os “binómios” e as “equipas cinotécnicas” ? Esqueceste-te desses? O militarês desses gajos é abominável, sobretudo porque vem enfarpelado com uma petulância de autoridade. Só quem lhe mandasse com o elemento cinotécnico do binómio aos fundilhos!
Afirmativo!
Correcto e afirmativo. 🙂
Também adoro a terminologia deste estranho mundo em que não há pessoas, há só “elementos”: O elemento foi visto a rondar o local às 16.49h, numa viatura não identificada. Roger. Escuto.
Repito: o referido elemento foi visto a rondar o referido local na referida viatura…
O “correcto” é óptimo. Fui lá plantar um.
Eu não desgosto das «viaturas de alta cilindrada»…
Altíssima! Para cima de um metro e 90…
Eu, do que mais gosto, é daquelas reportagens sobre economia / taxas Euribor/ poder de compra, etc, onde sempre acontece:
1. Vermos pessoas a circular na Rua Augusta.
2. Vermos impressos do IRS a ser manipulados.
3, e cereja em cima do bolo: vermos umas idiotas máquinas que há nos bancos e que servem para contar notas.
Desde já juro que, se fosse director de informação, todo o funcionário responsável pela futura emissão de imagens destas máquinas seria despedido na hora e invocada justa causa.
Sim, sim. Sempre as mesmas imagens de arquivo, suficientemente elásticas para servirem para tudo.
Muito bem reparado sim senhor. Nota-se muito nos agentes da autoridade (rsrsr já entrei no espírito da coisa…). Há uma senhora polícia que parece um caderninho com o léxico específico todo apontado e sublinhado que seguramente lhe ensinaram durante a formação… Olhe, a socialização na profissão, pelo menos ao nível da expressão oral, funcionou.
Fico à espera de mais capítulos!
:)))
Correcto e afirmativo!
E se o afirmativo agente apenas disse “respectivo canideo”, não podemos deixar de reparar que o mesmo se absteve de falar em “binómio”… ahahahahahah