Quem se vê na TV (10)


jmmcc,

Os discurcionários

Este é um grupo constituído por pessoas que decoraram algumas passagens do dicionário que têm no serviço. Os discurcionários são pessoas aparentemente comuns e em quem não se repara, excepto quando começam a falar para uma plateia que não conhecem e perante a qual querem deixar uma imagem de grande efeito intelectual.

Característica distintiva dos discurcionários é caprichar no discurso quando apanham um microfone – de preferência, acompanhado por uma câmara de televisão. Não reagem a todo o vapor: começam devagar, a fazer contas ao tempo de antena; depois, puxam do seu melhor vocabulário e é vê-los a salpicar as frases com os conhecimentos linguísticos adquiridos. São moderados na quantidade, mas inexcedíveis na qualidade.

Dizem o mesmo que qualquer um diria, mas não da mesma maneira: algumas palavras, criteriosamente seleccionadas, são substituídas por sinónimos inesperados. Cada frase é uma espécie de puzzle e as palavras “especiais” vão surgindo como as peças finais à procura do buraco em que encaixam.

É bastante comum encontrar os discurcionários entre militares e elementos das forças de segurança. Nesse caso, é provável que sejam oficiais subalternos, ainda a meio da carreira e com aspirações à progressão rápida.

Mesmo sem olharmos para o televisor, ficamos imediatamente com a certeza de que são agentes graduados só por ouvirmos as primeiras respostas que dão aos repórteres. Mais ou menos assim:

O repórter – O trânsito é mais perigoso com esta chuva?

O discurcionário – Afirmativo!

O repórter – Portanto, aconselha que se circule com mais cautela?

O discurcionário – Correcto e afirmativo!

Está identificado. Sem vermos as imagens, só por distracção é que ficaremos a pensar: «Será um agente de serviço?» Não pode haver engano: «Afirmativo!»

O início discreto serve apenas para avaliar a situação. A seguir, tomam lanço e passam às explicações. É então que começam a expor umas amostras do seu mais fino recorte literário por via oral. Vamos a um exemplo.

Há tempos, após uma rusga nocturna a um bairro suburbano dito problemático, o oficial porta-voz explicava assim aos repórteres, na sua terminologia típica:

– Tivemos um helicóptero a sobrevoar a área, sendo que o referido meio aéreo integrou o dispositivo no terreno!

Claro que não devemos tomar a explicação à letra: ou um helicóptero está a voar, ou está pousado no terreno a integrar o tal dispositivo. O que acontece é que, para a sua carreira, é importante que os superiores hierárquicos saibam que eles nunca renegarão o «afirmativo» e «o dispositivo no terreno», termos de suma importância nas carreiras militares e militarizadas.

Atente-se na continuação da explicação sobre aquela rusga:

– Todos os veículos e respectivos condutores e eventuais passageiros que entraram no bairro foram escrutinados!

Esta tirada dos «escrutinados» indiciava que se estava perante um dos discurcionários já a preparar-se para o remate retumbante, antes que a câmara se desviasse. E foi precisamente o que aconteceu:

– Tivemos também o apoio de uma equipa do corpo especial de intervenção e respectivos canídeos!

Aí está. Mais fino do que isto, só se um dos «respectivos canídeos» interrompesse a sua locomoção normal para erguer o membro traseiro direito no espaço aéreo e dar início ao acto de libertar urina em repuxo curvilíneo direccionado para as botas do respectivo oficial coordenador do referido dispositivo no terreno! Afirmativo?…

18 comentários em “Quem se vê na TV (10)”

  1. Acho que ainda falta o post sobre os repórteres que fazem as perguntas dando ao mesmo tempo as respostas, ou, o que não anda longe, pondo desde logo as palavras na boca dos perguntados, mas o autor da série sabe melhor do que eu.

    1. Obrigado pela sugestão. Como calcula, ainda falta apresentar alguns retratos. Ou caricaturas, se quiser.

      Aproveito para lhe fazer uma pergunta: acha que já estão retratados ou caricaturados todos os grupos de estereótipos com que deparamos nas televisões nacionais, ou que já estão todos apresentados e que já não há mais a trazer aqui e que irão ficar de fora outros tantos que constituem grupos muito definidos e que acabarão ignorados pelo autor desta série que tão criterioso tem procurado ser e que nunca manifestou ter completado esta obra gigantesca de sagaz observação e de incalculável esforço que alimenta neste blogue? Hehehe…

  2. Afirmativo. É sempre útil saber que «os canídeos» também integram «os dispositivos no terreno». Aos «referidos meios aéreos» é que geralmente só acontece isso quando a hélice decide entrar em greve, lá no alto, o que costuma ser um péssimo sinal. Negativo.

  3. Então e os “binómios” e as “equipas cinotécnicas” ? Esqueceste-te desses? O militarês desses gajos é abominável, sobretudo porque vem enfarpelado com uma petulância de autoridade. Só quem lhe mandasse com o elemento cinotécnico do binómio aos fundilhos!

  4. Correcto e afirmativo. 🙂
    Também adoro a terminologia deste estranho mundo em que não há pessoas, há só “elementos”: O elemento foi visto a rondar o local às 16.49h, numa viatura não identificada. Roger. Escuto.

  5. Eu, do que mais gosto, é daquelas reportagens sobre economia / taxas Euribor/ poder de compra, etc, onde sempre acontece:

    1. Vermos pessoas a circular na Rua Augusta.

    2. Vermos impressos do IRS a ser manipulados.

    3, e cereja em cima do bolo: vermos umas idiotas máquinas que há nos bancos e que servem para contar notas.

    Desde já juro que, se fosse director de informação, todo o funcionário responsável pela futura emissão de imagens destas máquinas seria despedido na hora e invocada justa causa.

  6. Muito bem reparado sim senhor. Nota-se muito nos agentes da autoridade (rsrsr já entrei no espírito da coisa…). Há uma senhora polícia que parece um caderninho com o léxico específico todo apontado e sublinhado que seguramente lhe ensinaram durante a formação… Olhe, a socialização na profissão, pelo menos ao nível da expressão oral, funcionou.

    Fico à espera de mais capítulos!

    :)))

  7. E se o afirmativo agente apenas disse “respectivo canideo”, não podemos deixar de reparar que o mesmo se absteve de falar em “binómio”… ahahahahahah

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