Quem disse que a tradição já não é o que era?


Ana Vidal,

 

Nas notícias da noite assisto, embasbacada, a uma reportagem sobre uma “tradição” pascal de uma freguesia de Viana do Castelo: numa espécie de enorme refeitório, uma infinidade de homens bate-se à mesa, até não aguentar mais, com quilos e quilos de bifes acompanhados de batatas fritas, molho e nacos de pão. Celebram assim o regresso à normalidade gastronómica, depois de um dia – um dia inteirinho, imagine-se o impensável sacrifício! – sem tocar em carne. A coisa já virou até concurso, ao estilo Guiness. O “recordista” anuncia, orgulhoso, que já despachou dez bifes e meio. “E isso não lhe faz mal?” pergunta a jovem repórter, impressionada com a alarvice. “Não, menina.. eu  cá tenho a máquina bem afinada!”, responde o herói, afagando a generosa barriga e com um sorriso gorduroso de orelha a orelha. Um dos vizinhos de mesa, abordado logo a seguir e apanhado ainda com um molho de batatas fritas entalado a meio caminho entre a luz do dia e as trevas do palato, revela-se mais sóbrio à pergunta de quantos bifes já comeu. “Só três, nunca passo disto.” Há alguma tristeza envergonhada na confissão. A algazarra é ensurdecedora, medindo forças com um  imperturbável grupo de tocadores de cavaquinho, acordeão e pandeireta. O vinho tinto corre a rodos.

 

Mulheres, nem uma. “A tradição é esta… isto é só para homens!”. Há um deles que tem pena de que assim seja,  porque, diz ele, é “fã de mulheres”. Mas elas só não estão à vista. Estão no lugar que lhes compete, pois claro: a cozinha. Fritam a bifalhada em grandes frigideiras cheias de gordura, de pé, igualmente orgulhosas da tradição e ciosas de que nada falte aos seus delicadíssimos companheiros de vida. Ao microfone da incrédula repórter desfiam, com ternura e desvelo, a receita do pitéu.

 

Pois. Venham falar-me do país do Magalhães e das novas tecnologias.

 

(Imagem: Uma tábua de bifes é a representação de Portugal na polémica escultura “Entropa” – coordenada por David Cerny – que decora a fachada de um edifício comunitário em Bruxelas e pretende caricaturar, através de estereótipos, cada um dos países da comunidade europeia. Alguém se admira?)

 

 

38 comentários em “Quem disse que a tradição já não é o que era?”

  1. Usas a imagem certa, Ana. Quanto à tradição que muito bem descreves em segunda mão, trata-se disso mesmo: uma velha tradição. Do tempo dos bárbaros, presume-se. Daqueles muito, muito bárbaros. E sem vergonha, naturalmente.

  2. No canal televisivo onde vi essa reportagem, uma das criaturas disse que «fiquei só nos oito bifes, porque a seguir tenho de ir conduzir». Claro, o tal rapaz, ouvido pela repórter, segue à risca a velha máxima: se conduzir não beba.

  3. Ó Ana, eu vinha aqui falar-te das novas tecnologias, mas assim pronto, deixa lá isso. 😉
    (Bela descrição dessa tal tradição pascal.)

          1. Já percebi a confusão deste anónimo tímido, embora ele não tenha tido a caridade de explicar-me aqui o que queria dizer com tão misterioso comentário. É simples: acontece que uma das bloggers do Jugular tem um nome parecido com o meu. Mas há no aplelido dela um “ig” a mais que escapou ao anónimo, está visto. De onde concluo que, além de tímido, precisa de óculos.

  4. Viana tem tantas freguesias e é sómente nesta que aproveitando a Páscoa, se come como “bestas”. Eu sei que a gastronomia é boa, e recomenda-se. Sou de Viana, mas, não me identifico, com estes rituais alarbes, e machistas.

    1. Não duvido, Anónimo. Tive o cuidado de salientar que isto se passa “numa das freguesias” de Viana do Castelo, uma cidade de que gosto muito e de excelente gastronomia, como diz. Seria muito injusto da minha parte generalizar à região uma prática tão localizada, e calculo que haja outras do mesmo género um pouco por todo o país. Acontece que esta foi objecto de reportagem televisiva, eu não a conhecia e fiquei chocada.

  5. A fome ancestral de um povo que, nos melhores tempos e lugares, tinha uma côdea de broa e uma malga de caldo, permanece, já não nos corpos, mas ainda nas mentes. Não quero justificar o apetite romano dos comensais, mas sempre acrescento que pior, se tal é possível, é o que vejo, via TV, nos EUA, na Inglaterra, onde fazem campeonatos de hambúrgueres, a ver quem mais consegue comer e em menos tempo. Ou os miúdos na vizinha Espanha em viagens de finalistas a beber. Enfim, isto para defender que somos feios porcos e maus, mas não mais do que os outros. Não é desculpa, repito, é uma constatação. O ser humano não é lá grande coisa, por mim falo.

    1. Essa pode bem ser uma explicação para esta “tradição” de Viana, de facto. E eu dou-lhe razão: ao pé dos americanos e dos alemães, por exemplo, as nossas alarvidades gastronómicas são brincadeiras de criança. Mas não deixam de ser alarvidades. E ao pé dos afegãos, por exemplo, os homens portugueses são todos metrossexuais. Mas alguns deles não deixam de ser uns machistas insuportáveis.

      1. Não tenho a certeza se este comentário se dirige a mim ou ao Pedro. Se é para mim, lamento que tenha interpretado assim o meu texto. Não me sinto moralmente superior aos comedores de bifes, até porque aqui não está em causa a moral.

        1. Ah, esqueci-me de dizer que gosto muito de bifes. Nunca consegui passar de um por refeição (se considerarmos o tamenho dos de Viana), mas já comecei a treinar. Quem sabe um dia consigo bater o recorde daquele cavalheiro…

    1. Obrigada pelo link e pela simpatia, Paulo. Já fui ao Albergue e já respondi ao senhor de Almourol, que me reptou com um texto fantástico.
      Concordo consigo, mas só se substituir a palavra “leviandade” por “leveza”. Pode ser?
      🙂

  6. Belos textos, cada um a seu modo, mas não poderia estar mais de acordo… com o Senhor de Almourol.
    Valha-me Deus, a “dona ana” está a fazer crítica à tradição, ou a denunciar maus hábitos alimentares e daí, a tentar passar a ideia de que a educação alimentar dos portugueses é má?
    É preciso não baralhar. Fiquei aborrecida que o tivesse escrito, pois até engraço com o que escreve.
    Até sempre!

    1. E onde é que descobriu que o relato sobre esta barbaridade em Sábado Santo (agravada pela fome que cresce no País) pretende «denunciar maus hábitos alimentares» e «passar a ideia de que a educação alimentar dos portugueses é má»?
      Não foi pelo que se retira deste oportuno, lúcido e claríssimo ‘post’, certamente.

    2. Cara Atonal, não vale a pena ficar aborrecida. Primeiro, porque o que critico naquela cena tem a ver com quantidade e não com qualidade (e também com outras coisas que não têm que ver com comida, com as quais, sendo mulher como eu, tenho a certeza de que concorda). Depois, porque defendo sempre, em todos os púlpitos que apanho à mão, a cozinha mediterrânica, que é a nossa. Para lhe provar o que digo, e modéstias à parte, até já ganhei prémios com um livro que publiquei sobre o tema!
      Convencida?

  7. ….”apanhado ainda com um molhe de batatas fritas entalado a meio caminho entre a luz do dia e as trevas do palato”…
    Magnifico, Ana, duplamente magnifico depois de ter lido a resposta da padeira de Aljubarrota ao caboclo de almourol
    :))

    1. O que esse “molhe” já deu de conversa no Albergue, Ariel…
      Mas pronto, já retirei os barcos da cena e atei as batatas fritas em feixe, como as vi na boca do tal vizinho. Espero que não haja mais passarada no texto, mas agradeço que alguém me aponte alguma outra que me tenha escapado.
      🙂

      1. Não se preocupe. Se o texto não tivesse graça nenhuma nem atingisse o alvo, decerto que ninguém reparava nem nos molhes nem nos feixes, que de textos desenxabidos e sem molho está a blogosfera cheia…
        :))

  8. Já agora realce-se que os nacos sobre a tábua já não lhe provamos o gosto há muito… são – os 3 maiores que se distinguem na imagem – representações do Brasil, Angola e Moçambique…

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