Que tudo mude para que nada mude


Pedro Correia,

Na Síria, organizações de direitos humanos contabilizam já 1700 mortos desde o início do levantamento popular contra o ditador. Nada que mereça, por cá, uma só palavra da extrema-esquerda incendiária: ao 5 Dias apenas interessa ver Londres a arder. “É preciso que a destruição seja total!!”, berra o professor Vidal, o maior esbanjador de pontos de exclamação da blogosfera portuguesa. Assad, o titular de uma dinastia sanguinária que oprime os sírios há meio século, é um gajo porreiro para estes mecos: “criminoso” é Cameron, eleito por voto popular. E há já mesmo quem pretenda ver Portugal transformado numa “nova Inglaterra” – desde que não lhe queimem a casinha, o carrito e a magra biblioteca, presumo.

Estes pequeno-burgueses excitam-se sempre que vêem uma viatura a arder, imaginando um Jean Valjean munido de BlackBerry em cada pilhador de subúrbio numa grande cidade europeia. Ao lê-los, vem-me à memória uma frase de J. G. Ballard: “There’s nothing like a little violence to tone up the system.”

Pura verdade. Sem necessidade de ponto de exclamação algum.

 

ADENDA. O Sérgio Lavos diz aqui praticamente o mesmo por outras palavras: “Os motins são escaramuças inúteis, improdutivas, que apenas poderão ter como consequência um reforço da legitimidade de uma sociedade que discrimina e guetiza parte dos seus cidadãos.” É óbvio.

12 comentários em “Que tudo mude para que nada mude”

  1. Bem, pelo menos há um ponto em comum entre Síria e Londres: é que nem num lado nem noutro sabem o que são balas de borracha.

      1. Infelizmente, no caso da Síria, só se pode desejar que a revolta seja esmagada o mais depressa possível.
        Talvez daqui a meio século se possa levantar um monumento de homenagem a estes mártires idealistas. Até lá, quem dera que aprendessem com os portugueses: muita paciência até o homem cair da cadeira.
        Ao menos, uma coisa boa nesta triste situação: o Líbano vai respirando um pouco melhor. Até quando…

  2. Li o artigo “nova inglaterra” no aventar, quase após a sua publicação, confesso que já há muito não me sentia tão indignado com um texto na blogosfera como aquele, deixei logo o meu comentário e o meu desconforto. Aquilo é um apelo descarado à violência…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *