Que reuniões e que condições?


jmmcc,

Parece sina. Já não bastava que se verificasse a falta de segurança de uma ponte e ficasse à espera que ela caísse. Ciclicamente, em Portugal começa a betonar-se uma ponte ou um viaduto e a estrutura abate e ceifa as vidas que apanha. Depois, fecha-se um perímetro em volta do sinistro e aparecem invariavelmente uns figurões a dizer para as câmaras com ar solene: "A normalidade só será restabelecida quando estiverem reunidas todas as condições de segurança."

Hoje, em Amarante, não é diferente. O IP4 está cortado e a reabertura tem sido sucessivamente anunciada e adiada desde a madrugada. À hora do almoço, já apontavam para o fim da tarde. Pelas imagens que vi, será adiada mais uma vez. "A normalidade só será restabelecida quando estiverem reunidas todas as condições de segurança."

São "reuniões" tardias. O IP4 devia ter sido cortado antes de se ter iniciado a colocação de toneladas de betão por cima dessa via. E é isto que me faz espécie: não será tempo de começar a pensar se estão "reunidas todas as condições de segurança" de cada vez que uma obra avança e fechar um perímetro antes que surja a tragédia?

Não estou a falar de prejuízos materiais por não estarem "reunidas todas as condições". Estou a falar de quem morreu antes da hora. Será exagero pedir que sejam "reunidas todas as condições de segurança" antecipadamente?

6 comentários em “Que reuniões e que condições?”

  1. João

    Gostei muito deste post que revela bem a cultura de segurança no nosso país. Seja a rodoviária, a de construções, a manutenção de pontes, linhas férreas, etc. É tudo verdadeiramente assustador.

    1. É mesmo assustador, Ana. A única coisa que ainda funciona é que «a normalidade só será restabelecida quando estiverem reunidas todas as condições de segurança» depois de cada sinistro.

  2. Por um comentário que ouvi logo de manhã cedo na televisão, a causa do desastre ficou a dever-se à “betumagem” da obra. Depois deste ‘esclarecimento’ inicial, a jovem repórter continuava a sua explicação, fazendo-nos então saber que ao ser “betumada” a obra não aguentou o peso de todo o “betume” e foi o que se viu…

  3. Para além da responsabilidades que terão que ser assumidas por quem se enganou nos cáculos ou, se estes estiverem correctos, por quem não executou o projecto de acordo com as directrizes, tem que ser responsabilizado quem deu ordem de betonagem sem ter mandado fechar o trânsito que passava debaixo do viaduto em construção. Isto foi coisa que eu nunca vi.

    1. Pois. Eu também nunca vi, mas tem acontecido ciclicamente. Pelos vistos, só posteriormente é que costumam estar reunidas todas as condições de segurança.
      Quanto às responsabilidades, estou como disse Jorge Coelho quando caiu a ponte de Entre-os-Rios: «A culpa não pode morrer solteira.» Se não morreu solteira, morreu em concubinato, porque o certo é que morreu sem ter casado.

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