Quarta-feira


Teresa Ribeiro,

 Ao transpor a entrada daquele bar, sentiu-se despida. Já não tenho idade para isto, já não tenho idade para isto, repetia, metodicamente, obedecendo aos seus naturais impulsos autodestrutivos, tendência que conservava desde a adolescência e não tinha esperança de corrigir. Nada de contacto visual significativo com os poucos homens que não tinham companhia. Mau sinal, pensou ela já com vontade de se ir embora. Espero cinco minutos.

Em fundo ouviam-se os Sétima Legião: Hoje, num  vento do norte, fogo de outra sorte, sigo para o sul, sete mares… Deixou-se embalar pelas recordações felizes que aquela canção lhe invocava enquanto se sentava a uma das mesas, procurando descontrair. Mas antes que tivesse tempo de posar a mala uma voz interpelou-a:

– Boa noite… Gabriela?

Reconheceu-lhe imediatamente a voz. Era muito sensível a vozes e esta tinha-a impressionando o bastante para desejar aquele encontro, apesar dos avisos da Marta: Mais fácil passar um camelo por um buraco de uma agulha…

Virou-se.

Ah, se ela fosse mosca! Parecia que a estava a ouvir: …ou é cromo, ou coiro, ou putanheiro.

– Olá, Sérgio, muito prazer.

Se ela fosse mosca já estaria neste momento a rebolar-se de tanto rir, a parva!.-pensou.

– Estava sentado ali atrás daquele pilar, por isso é que não me viste quando entraste. Quando cheguei era a única mesa disponível…

– Pois é, apesar de ser quarta-feira o bar encheu.

– Como?

– O bar encheu.

– O bar cresceu?

No blog e nos comentários que lhe deixava e depois nos emails e sms, por fim ao telefone parecia-lhe tão interessante…

Sentado à sua frente, a sua alma gémea blogosférica tentava quebrar o gelo, mas ela só pensava: Baixo, gordo, careca, desajeitado e ainda por cima surdo que nem uma porta! A sacana da Marta vai-se fartar de gozar à minha custa!

 

Já publicado aqui.

18 comentários em “Quarta-feira”

  1. Muito bonito, Teresa. A continuar neste ritmo, sempre em crescendo, nem posso imaginar a qualidade do que nos trará nos últimos dias da semana… Vamos lá a ver agora a leitura superior que o Zé Pancada fará disto. A sua opinião é, como todos sabemos, fundamental, e aguardamos ansiosos a sua interpretação política deste ‘caso’. Cá para mim, já tenho uma ideia de quem serão a Gabriela e o Sérgio, mas não digo nada a ninguém. Para já…

      1. João, não menosprezes as leituras que o homem faz dos textos da Teresa que, não os fazendo melhores, é certo, sempre nos permitem uma visão sobre eles que nem sequer sonhávamos. Além disto, parece-me que o actual governo, por intermédio do seu braço cultural, já decretou a plantação de um campo de cebolas perto da Casa de Serralves, sendo avistáveis um a partir do outro. Deixo agora à tua imaginação o descortinares quem é a tal Gabriela… Isto anda tudo ligado, está visto…

          1. A Marta é só para disfarçar, pá! Vê lá mas é se descobres quem é o Sérgio, que ‘isso é que é fundamental’. E olha que não vai ser fácil, porque ele tem a face oculta.

  2. Teresa – há aqui mãozinha de cinéfila – cineasta , até . Goatei muito – no “FIM” contive-me….Parabéns

  3. Tss, tss, tss… Essa Gabriela não passa duma principiante. Encontro com um marmelo qualquer, só por ser bem falante, sem ter visto fotos (várias e actualizadas, nada de imagens photoshopadas ou com vinte anos), sem ter visto a tromba e ouvido a voz do meco via webcam? Tss, tss, tss, melhor sorte para a próxima, pelo menos ganhou “calo”…

  4. Uma vez mais detecto neste blogue um texto cuja leitura subliminar atenta inequivocamente contra a consideração e o respeito devidos à Drª Manuela Ferreira Leite, o que não admira devido ao facto de a maioria dos seus autores serem jornalistas e pertencerem aos quadros redactoriais do Diário de Notícias, que é a voz do Governo.
    Nem é lícita outra interpretação do início do texto, em que a protagonista se interroga sobre os malefícios da idade ao ser-lhe atribuído o pensamento «Já não tenho idade para isto» repetidas vezes, deixando claramente implícito que o PSD está mal entregue à actual líder apenas por ter passado o chamado «prazo de validade» decretado pelos jovens jornalistas que querem sempre rostos muitos frescos e atitudes muito «cool» para acompanharem os chamados ventos da História que são sempre ilusórios como muito bem sabemos.
    Pormenor tão ou mais significativo é denominar-se Gabriela a protagonista desta história. Como qualquer leitor atento e minimamente dotado de visão transcendental reconhecerá, como é o meu caso, Gabriela e Manuela têm a mesma terminação eufónica, o que é caso para dizer, parafraseando um conhecido ditado popular, que o gato deixou aqui um grande rabo de fora.
    O encontro mal sucedido no bar visa, metaforicamente, apontar para um suposto desencontro entre a Drª Manuela Ferreira Leite e o povo português, esquecendo a articulista que o PSD venceu duas das três eleições realizadas este ano contribuindo assim decisivamente para retirar margem de manobra política a José Sócrates que hoje está muito fragilizado. Mas estando este blogue tão conotado com o Partido Socialista não seria de esperar outra coisa senão metáforas tendencialmente difamatórias para o PSD. A verdadeira surdez é essa e não a do indivíduo que aparece aqui como tentativa muito desajeitada de personificação do povo português.
    Despeço-me sem cumprimentos

  5. São riscos destas novas forma de relacionamento. E já conheci um caso em que deu paixão, casamento e com rebentos a caminho!-:)
    Chato para quem passa por elas – divertido para quem assiste!

  6. As coisas que a gente aprende com os epígonos menores de um certo deputado! Pensava eu que apenas cerca de 25% dos membros deste blogue eram jornalistas e que só eu fazia parte dos quadros do DN. Ainda bem que há gente extremamente informada, e dotada de um peculiaríssimo sentido de humor, que vem pôr as coisas no seu devido lugar conseguindo até vislumbrar uma Manuela onde estava a Gabriela. Essa não lembraria ao Jorge Amado.

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