Há muitos muitos anos, no tempo em que os deuses gregos dividiam o seu tempo entre divinas companhias no Olimpo e os locais habitados pelos humanos, existiu um talentoso preparador de refeições chamado Rodákino.
A sua arte na elaboração de comida era de tal forma distinta que ele achava ser um desperdício cozinhar apenas para si próprio. Começou por isso a servir comida também para quem passava perto do seu casebre.
O seu talento começou a ser comentado nas redondezas e, com o tempo, o inseguro carreiro que levava os transeuntes até à sua mesa tornou-se num muito pisado caminho.
A satisfação e surpresa de todos quantos lá comiam era geral e Rodákino ruborescia com tantos elogios.
Um dia ao misturar ingredientes nunca antes experimentados criou algo que, se lhe desse a devida forma, podia parecer-se com um fruto. Começou por isso a ensaiar diferentes formas. Estava a ensaiar uma quase esférica, mas ainda não tinha chegado a algo que o satisfizesse, e estando já a imaginar qual seria o seu revestimento, pensou para si que nem Deméter, a deusa da fertilidade e das colheitas, filha de Cronos, irmã de Zeus, e mãe de Perséfone – a criadora das estações do ano – alguma vez conseguiria tal combinação.
Como é de todos sabido, os deuses gregos não ficavam indiferentes perante afrontas que lhe ferissem o orgulho, especialmente vindas de meros humanos. Por mais talentoso que Rodákino fosse nunca impunemente se poderia atrever a achar que a sua arte ultrapassava as capacidades divinas da própria Deméter.
Estava Rodákino a ultimar a sua obra-prima quando ouviu passos a pisar o caminho. Alguém bateu à porta. Uma senhora com ar distinto perguntou-lhe se tinha alguma coisa que se comesse.
Ele, querendo agradar a tão distinta senhora e mesmo ainda não tendo terminado a sua maravilha, não resistiu e disse:
– Prove esta minha novidade. Nem Deméter no Olimpo conseguia um prodígio destes!
Nesse momento a distinta senhora transfigurou-se e Rodákino entendeu que a sua imodéstia tinha ofendido a própria deusa.
No seu último instante na forma humana, o prendado experimentador insistiu que ela provasse o petisco. Ela, irada, transformou-o numa bola de madeira.
Ainda furiosa, e antes de regressar ao Olimpo, Deméter foi vencida pela curiosidade e acabou por provar algumas das muito imperfeitas esferas que ali estavam na mesa.
Quando as trincou ficou algum tempo sem conseguir dizer nada. Era de facto algo maravilhoso. Nem se preocupou que as suas vestes tivessem ficado tingidas pelo sumo que espirrou de algo que por sua vontade passaria a ser um fruto de pleno direito.
Em homenagem ao seu criador, que nesse momento era apenas uma bola de madeira, Deméter fez com que no centro de tal fruto existisse para sempre uma bola de madeira.
Ainda levou alguns dos restantes consigo para o Olimpo. Com receio de os perder, abraçou-os com tal vigor que se tornaram aveludados como aveludada era a pele de Deméter.
O fruto, esse, passaria a chamar-se rodákino (ροδάκινο), que em grego quer dizer pêssego.


Bonita lenda e que o pêssego bem merece, é fruta divina. E a compota não lhe fica atrás.
São uma maravilha.
Aguardo pela próxima 🙂
Devo confessar que não vou muito à bola com os pêssegos. Com madeira dentro e em forma de bola, antes a melancia e as cerejas.
Fruto que me intriga é a noz, semelhante a um pequeno cérebro, nas suas circunvoluções. Haverá estória?
É muito difícil produzir pêssegos intensivamente com qualidade. São facilmente perecíveis e o circuito comercial ultrapassa facilmente a sua duração.
A solução passa por antecipar a colheita o que equivale a desperdiçar as ultimas afinações do sabor. Daí que os pêssegos que se encontram nas superfícies comerciais não sejam grandes embaixadores do fruto.
A colheita na árvore que tenha sido pouco regada (o excesso de rega é outra falha frequente dos produtores que abastecem as superfícies comerciais) é sempre a mais compensadora.
Há alguns anos, num debate à volta de umas garrafas de rosé, alguém chegou a usar a complexidade, a suave dureza, o revestimento e, claro, o sabor, como prova definitiva de que os ateus eram uns idiotas.
As cerejas são da mesma família, as prunóidas. Precisam de frio no final da floração o que explica o seu sucesso no sopé da Serra da Estrela.
A noz encerrará outros mistérios…
Muito bom, Paulo! Já aprendi bastante. O vinho, qualquer que ele seja, conduz-nos, com o adiantar da hora, a deus. É fatal.
Quanto à exigência, antes os figueiras Sem grandes esquisitices, dão um fruto que é dos melhores e mais completos. (um indivíduo come 5 figos e não precisa de conter mais nada) Continuando nas formas, tem uma que faz lembrar o útero. É interessante a associação entre a forma da fruta e as suas propriedades “medicinais”. Não conferi, mas aposto que pêras e figos são, eram, recomendados para a saúde uterina e fertilidade…. vou ver :))
Obrigado pelo vasto conhecimento.
Vorph, já que gosta tanto de figos, se passar numa livraria, espreite as páginas 48/49 do livro ‘Princípio de Karenina’ do Afonso Cruz.
🌻
Maria
Tenho esse livro em casa (quando regressar irei ver)
Muito bom, Paulo. Entrada directa para a futura antologia DELITO DE OPINIÃO.
Uma maravilha escrita que só os pêssegos merecem.
Como já alguém disse, são a prova definitiva de que os ateus têm de estar errados…
Mesmo. Mas Deus falhou na escolha do fruto proibido. Eva deveria ter tentado Adão com um pêssego. Só levando com o arrepio da pele do pêssego se chega a este sabor dos deuses.
Onde já se viu escolher uma maçã? Coisa fácil. Só se era a antever a mania do fit.
A Eva comeu os pêssegos todos às escondidas.
E agora passa a vida no Holmes Place e a medir a glicemia.
Eva, segundo o Evangelho, apócrifo, de S. João de Samos, tentou Adão com meloas.
É suposto feijoada de Samos ser também um petisco e afinal só com sentido de missão é que se consegue limpar o prato. Não dou muito pelas teorias desse Samos…
ups… espelho meu, espelho meu…
Bonita história sobre um fruto que sempre considerei Divinal.
Pena é que no presente dificilmente se encontre um pêssego digno desse nome, à venda nos locais apropriados. Uns secos e sem sabor, outros duros e polpa cortiçada, enfim; nada de semelhanças com os pêssegos, vá-se lá saber porquê, que num passado não tão distante quanto isso faziam as delícias do meu fruto de eleição.
Tal como o Vorph, confesso que a noz com o seu miolo de formato cerebral, também me deixa deveras intrigado.
O segredo é encontrar o produtor certo. O meu fornecedor de pêssegos também dava uma estória por ser uma pessoa muito cinzenta e desencantada com o mundo. É incrível as maravilhas que saem do pomar dele…
Pêssegos do supermercado… parecem mais coisa de Hades que de Deméter
Muito interessante, Paulo.
E tem alguma ideia de como se chegou ao carocito dos pêssegos paraguaios?
São os que tenho comprado ultimamente, pois como diz, agora é quase impossível comprar os pêssegos macios e sumarentos de antigamente: ou são muito rijos ou ficam estragados de um dia para o outro.
🌻
Maria
Os paraguaios são aqueles muito achatados. Provavelmente terão sido os mais apertados por Deméter…
Estou tentada a acreditar, pois eles têm o ar feliz de quem andou ao colo de uma deusa grega. 🙂
🌻
Maria
Os restantes frutos da família das prunóidas não aveludados, ameixas, cerejas, nectarinas etc derivam dos que ficaram para trás e não foram transportados por Deméter…
Concordo, não são tão tão… falta-lhes qualquer coisa, um je ne sais quoi… excepto as cerejas, essas safadas, que mesmo sem colinho conseguiram dar a volta por cima.
Não conheço quem não goste de cerejas!
🍒🍒
Maria
Essas pilantras são como as conversas
A lepra é um problema, só tirando as folhas afectadas e ter o clima a ajudar
(muito quente ou muito frio)
E agora apareceu o greening nos citrinos…
lucklucky
A diminuição drástica de substâncias activas disponíveis no mercado dos fitofarmacos leva a que a lepra só se possa controlar preventivamente, o acaba por implicar mais tratamentos mas menos eficazes. Na prática essa doença que era controlada tornou-se persistente.
A nova praga dos citrinos, a Psila Africana, está segundo os avisos agrícolas, fora de controle no norte do país. No centro será uma questão de tempo. A falta de substâncias também ajuda à progressão dessa praga.
Tudo coisas que tornam a vida dos agricultores mais difícil e cinzenta.
Há dois anos fui a dois hortos em busca de um limoeiro. Não tinham. Disseram-me que havia uma praga, mas tenho ideia de terem referido que estava espalhada pelo mediterrâneo.
Porém continuo a vê-los viçosos pelo Norte fora.
As plantas atacadas não ficam menos verdes nem menos viçosas, pelo menos no início. a7V8
A coisa tem este aspecto:
https://images.app.goo.gl/D4jh1cJsBZTCA
A solução passa por quarentena o que nas plantas equivale a cortar todas as braças atacadas e em seguida incinera-las.
Cada fêmea pode colocar mais de 1000 ovos num raio de 1km… é muito difícil de travar.
Obrigada pelo esclarecimento. 🙂
Delicioso. O escrito mais do que os pêssegos. Só gosto dos de roer .
Nesses o Rodákino está a tentar escapar-se.
Obrigado Dulce
Li o post à minha filha. Na opinião dela Demétria castigou Rodákino por ser bom no que fazia, reconheceu o erro, mas não desfez o feitiço, e como homenagem ao desgraçado fez com que fosse cuspido até ao fim dos tempos.
Pode transmitir à sua filha que os deuses clássicos era assim mesmo, caprichosos, impulsivos e até injustos. No fundo serviam para colocar neles a explicação da forma como a vida nos trata ou aquilo que nos dá.
Sobre o estatuto que acrescentou ao texto de “coisas que se lêem aos filhos”, fico sensibilizado, e agradeço-lhe por isso.