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O analfabetismo funcional está aí, aos olhos de todos, em doses galopantes. Até em folhas e trombetas que fazem gala em examinar à lupa o currículo académico de figuras públicas, várias das quais fariam melhor em adoptar tamanha exigência na própria casa.
Esse analfabetismo faz comprimir o vocabulário até doses ínfimas, adultera a ortografia à mercê de pseudo-normas que ninguém pode levar a sério (ainda ontem, numa série legendada em acordês, li “para aqui” quando pretendia dizer-se “pára aqui”) e põe a sintaxe portuguesa a fazer o pino, à boleia da vulgata brasileira que impera na Rede.
Há dias, uma determinada figura pública presumindo-se culta colou numa mensagem digital uma pomposa citação de Oscar Wilde em tradução brasileira, sem reparar sequer que aquela não é a nossa sintaxe. Pretendia ser coisa séria, mas soou como as velhas dobragens no país vizinho que punham John Wayne a mandar vir com os índios em espanhol.
Um excelente romance em língua inglesa traduzido para português torna-se quase ilegível dada a opção do “tradutor” em utilizar o nosso idioma com a sintaxe original, abusando dos pronomes pessoais e possessivos, usados com extrema parcimónia em português, ao contrário do que sucede em inglês – daí resultando frases como “ela esperava que a sua mãe não estivesse a dormir e ficou à espera que a sua mãe abrisse a porta”.
As traduções literalíssimas, atendendo só à forma sem prestar a menor importância ao conteúdo, já levaram a que vin rouge fosse traduzido para “vinho vermelho”. Parece brincadeira, mas não é: deparei com esta barbaridade numa série francesa vista há meses.
E por falar nisto: a nossa maltratada língua sofre entorses diárias com traduções pedestres que adulteram por completo a carga semântica dos vocábulos. De súbito, somos brindados com “demonstrações” como equivalente a manifestações (demonstrations, em inglês) ou “realizar” como surpreendente sinónimo de “entender” ou “perceber”, relegando para longa distância o antiquíssimo significado de empreender ou concretizar. Há mesmo um escritor muito galardoado que povoa as suas páginas de realizar – embusteira tradução literal do to realize inglês.
Há umas semanas abriu em Lisboa um muito badalado espaço de culinária gourmet protagonizado pelas figuras do costume, que são sempre as mesmas. Anos atrás chamar-se-iam cozinheiros, hoje só respondem a quem os trate por chef – assim mesmo, sem e final, à francesa.
Esse espaço está a ser promovido nas tais folhas e nas tais trombetas como mostra de “cozinha casual”. E eis que por nova colagem do inglês um adjectivo que no nosso idioma sempre significou imprevisto ou acidental se cola ao significado de importação, que é “informal” ou “descontraído”.
Alguns exemplos, entre tantos outros, do tal analfabetismo militante. Que impera por aí e teima em impor-nos as suas regras. Se não falarmos ou escrevemos como eles querem, ainda nos chamam ignorantes.

Isso não é tudo analfabetismo. Em boa parte é a construção de novas estruturas de poder.
O chef será segundo um ficcional sindicato dos cozinheiros a “dignificação da profissão” .”Dignificação da profissão” a maior parte das vezes é código mediático para quero mais dinheiro, aqui é um pouco menos directo.
Ena: conseguiu deixar aqui um comentário sem aludir ao marxismo.
É sempre bom chegar a um sítio que apreciamos e verificar que o ambiente se mantém. Portanto, quer o Pedro dizer que em relação ao luck nada mudou durante este tempo… ah, que refrescante! 🙂
Igual. A marchar contra o marxismo.
Só comento contra os que nos querem levar de volta ao exercício de Poder Primitivo, Discricionário, Totalitário.
De resto prefiro desenhar a escrever.
Já você não refere o Marxismo mesmo quando ele é a característica dominante.
O Feminismo misantrópico não existe sem Marxismo – ref post mais recente.
A perceção que tenho é que ninguém liga à correção da Língua.
Basta ouvir e até ler os nossos políticos (a começar pelos ministros da educação) e a intelectualidade em geral. É uma causa e um património estrutural definitivamente perdidos. Já não há recursos, principalmente humanos, para reverter a situação. Desgraçadamente!
(Não me venham cá com a questão do AO, que não tem importância nenhuma, para o caso e para tanta controvérsia.)
João de Brito
“Não me venham com a questão do AO”, escreve você.
Venho, sim. Logo na primeira linha do seu comentário, escreve “perceção”. Enquanto em Angola ou no Brasil, por exemplo, se escreve percepção. Correctamente.
Basta este exemplo para se perceber a aberração de um “acordo” que se propunha “unificar a ortografia” e afinal veio introduzir ainda mais alterações. Um verdadeiro caos ortográfico: cada um escreve mais que nunca à sua maneira.
“(…) cada um escreve mais que nunca à sua maneira.” E pode fazê-lo. O que mais abunda, por estes dias, são textos escritos nem em português nem em acordês, antes numa mistura que só não é risível porque dolorosamente decadente. E que só não é caso de má consciência porque a consciência é coisa, neste povo, crescentemente desaparecida em combate. É mesmo ignorância, pura dura e arrogante. Ignorância até dessa nova e tão benfazeja nova norma.
A seu tempo, mais cedo do que tarde, isso ainda será muito útil ao poder. Valerá tudo e o seu contrário (menos o português correctamente grafado; aqui o corrector automático diz que acabo de cometer dois erros!) e teremos excelentes estatísticas de aproveitamento estudantil a língua portuguesa – ou o que quer que por estes tempos se tome como tal -; e srs. ministros e srs. secretários de estado, admitindo que percam um segundo do seu tempo com línguas e humanidades, a proclamar inchados de glória vazia mais uma geração “mais bem preparada de sempre”.
Umas após as outras, até ao embrutecimento final.
Costa
Muito bem, caro Costa. Bem pensado.
E, já agora, escrevo também, também na primeira linha, “correção”.
Gasta-se menos tinta e menos tempo.
E não fere nada de estrutural, nada de essencial, na Língua.
Ao contrário de erros sintáticos, cada vez mais numerosos e correntes, a que ninguém, mas ninguém, dá importância nenhuma.
É muito próprio de nós – relevamos o acidente em desfavor da substância.
E pagamos por isso.
Caro!
João de Brito
Meu caro, se o seu problema é poupar no tempo e na tinta, comece por assinar Ão de Ito.
De “doutores na asneira, na ciência burros”, já sobra o tempo de estar-mos fartos.
Já estou far-to.
Ou fart-o —dada a maré de ingrazéus.
– A senhora desculpe-me a intromissão na sua vida íntima, mas há quanto tempo não pratica o “ato” sexual?
– Nunca pratiquei, cavalheiro. Recuso ser atada.
lapsus linguae, Pedro?:
«monstra de “cozinha casual”»…
😉
( faça atenção…)
Eheh. Mas que olho de lince, Cristina. Por acaso emendei, e agradeço-lhe. Mas nem ficaria mal se deixasse ficar…
Reza a história que a Lei do menor Esforço nasceu na Bahia, quando Pedro Alvares se sentiu preguiçoso ou iliterado demais para escrever ao rei sobre o “achamento” incumbindo a tarefa a Vaz de Caminha.
Deve ser ainda nos dias de hoje , uma das leis mais poderosas do universo, e sem dúvida a primeira grande exportação de Vera Cruz, que tem crescido exponencialmente nos últimos 500 anos.
Dura lex, seda lex…
Ainda vou ver ser aplaudido (aliás, já vejo) quem não sabe escrever… Como se vão vendo por aí umas personagens que pouco ou nada sabem do que fazem ou do que falam.
Hoje em dia, ter alguns valores já é digno de ostracização, pelo que, não me espanta….
“Não me expan-ta mexmo” 🙂
Mexmo. Na-dica de na-da.
Não pretendo malhar nos “jornalistas” e menos ainda nos “tradutores”, pois deveriam ser profissionais da Língua mas teimam, grande parte deles, em a enfiar onde não devem, e com grande amadorismo – uns verdadeiros amadores sem coisa amada.
Venho antes homenagear aqueles que teimam em escrever e em falar Português contra tantos e tão activos ataques – incluindo dos seus supostos pares.
A eles, ergo a minha taça de red wine – que numa série inglesa vi traduzido como vinho vermelho, mas como comecei por dizer que não pretendia blablabla fiquemo-nos pelo tinto. Mas por muito que nos doa, não bebamos para esquecer!
Também brindo a eles.
Pessoal vamos parar com essa birra de colonizador frustrado!