Em cada temporada dos Óscares, lembro-me sempre de Howard Hawks. Foi um dos gigantes da arte de realizar filmes. E também um cineasta que nunca recebeu um Óscar em competição. Não por falta de obras-primas no seu currículo. Mas porque, por algum motivo obscuro, a Academia de Hollywood sempre o considerou um realizador “menor”. Algo muito estranho, já que raros cineastas produziram tantos filmes memoráveis como Hawks, que iniciou a sua actividade ainda no tempo do cinema mudo. Filmes como As Duas Feras (1938), Paraíso Infernal (1939), Sargento York (1941), À Beira do Abismo (1946), Rio Vermelho (1948), A Culpa foi do Macaco (1952), Rio Bravo (1959) e El Dorado (1967). Foi ele quem reuniu pela primeira vez Humphrey Bogart e Lauren Bacall, em Ter e Não Ter (1944). Foi ele quem juntou Marilyn Monroe e Jane Russell, em Os Homens Preferem as Louras (1953).
O reconhecimento foi tardio – e só surgiu por efeito de ricochete da crítica francesa, que idolatrava Hawks. Hollywood deu-lhe enfim um Óscar honorário em 1974 quando Hawks, de 78 anos, já deixara de filmar. A consagração surgiu demasiado tarde, tal como sucedeu, por exemplo, com Charles Chaplin e Groucho Marx (Óscares honorários de 1971 e 1973, quando tinham 82 e 83 anos, respectivamente).
O génio é muitas vezes reconhecido tarde de mais. Lá como cá.


Bem lembrado. Numa potencial lista de Óscares nunca atribuídos teríamos também Stanley Kubrick, que apenas ganhou um, pelos efeitos especiais de 2001: A Space Odyssey (também se não ganhasse esse…). No resto, foi um cineasta revolucionário, com quatro ou cinco filmes a merecer a distinção, e… nada.
E temos um contemporâneo que parece ir praticamente na mesma senda: Quentin Tarantino. Venceu o Óscar de Melhor Argumento Original com Pulp Fiction, e, vá lá, viu Christoph Waltz ganhar a distinção de Melhor Actor Secundário com uma das melhores interpretações dos últimos anos em Inglourious Basterds. É muito pouco para quem fez, não só este último, como também Reservoir Dogs, Pulp Fiction e Kill Bill.
Isso mesmo, João. Com a agravante, no caso do Kubrick, de ele merecer o Óscar pelo menos desde 1957, ano em que rodou ‘Paths of Glory’, candidato a um dos melhores filmes de guerra de sempre. Já para não falar também nessa fabulosa sátira que é ‘Dr. Strangelove’. O Tarantino ainda está muito a tempo de ganhar. Ele, infelizmente, já não.
Paths of Glory e Dr. Strangelove são as minhas duas grandes lacunas de Kubrick. Mas entre 2001, Full Metal Jacket e A Clockwork Orange, para não falar em Barry Lyndon, que era sempre um óscar de Melhor Realizador de caras, enfim…
O Tarantino vai muito a tempo, sem dúvida. Mas considerando Pulp Fiction, fico a pensar no que terá o homem de fazer para ganhar o prémio.
Assim que puderes vê ‘Dr. Strangelove’, João. É um dos melhores filmes de sempre, seja qual for o rótulo que lhe queiramos atribuir.
Então e Hitchcock? Foi nomeado, sim, mas oscar… nada.
Sim, Teresa, mas o Hitchcock ao menos viu um filme dele (Rebecca) vencer o Óscar de melhor filme. O Hawks nem isso. Ou o Welles. E os Óscares honorários ao Chaplin e ao Groucho, já muito tarde, só confirmaram a má consciência da Academia. Raio de miopia. Nem se percebe que o Cary Grant, por exemplo, nunca tenha sido sequer nomeado para um Óscar.
Resta saber o que premeia o oscar: a indústria ou a arte ?
fica a pergunta.
A sua pergunta é excelente. Acho que premeia muito mais a indústria do que a arte. Lamentavelmente.
Fossem esses exemplos os únicos e não estaríamos mal de todo. Hollywood vai preferindo premiar coisas como o Discurso do Rei, Shakespeare in Love, Slumdog Millionaire, Titanic, etc, a filmes que de facto abrem novos caminhos.
Uma nota sobre Chaplin: se não me engano, ganhou um outro óscar anos antes: um honorário por ter sido realizador, produtor, actor principal, argumentista e autor da música para O Circo. Não é o ideal, mas é alguma coisa. No caso dele creio que o exílio forçado pós-MaCarthismo foi causa de muitos esquecimentos…
PS – dois casos curiosos de oscares que quase surgiram tarde: Paul Newman e Henry Fonda. Ambos receberam oscares honorários no ano antes de ganharem o de melhor actor (The Color of Money e On the Golden Pond, resp.). Às vezes a simples qualidade consegue contornar a “academia de hollywood”.
Não defendo que o Oscar premeie sempre novos caminhos, até porque nem sempre novos caminhos são abertos. Gostaria que detectasse os ‘Casablancas’ de cada ano, mas também é verdade que nem sempre surgem ‘Casablancas’. Trata-se, não o esqueçamos e um prémio corporativo – e talvez isso explique quase tudo. Mesmo assim, é-me difícil perceber por que motivo Chaplin e Groucho – dois dos mais geniais actores de sempre – não receberam prémios de interpretação em carreiras tão longas. Ou que um Cary Grant não tenha recebido sequer uma nomeação. Ou que um ícone do cinema como John Wayne só o tenha recebido muito tarde, em jeito de prémio de consolação (e, sim, os casos de Newman e sobretudo de Fonda aplicam-se aqui muito bem).
Apesar de tudo, o júri do Óscar tem acertado mais vezes do que o do Nobel, por exemplo. O que já é alguma coisa.