Quando o comentário ultrapassa a notícia


Pedro Correia,

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O PCP, que tanto diz pugnar pelas «micro, pequenas e médias empresas», rejeitou figurar nos debates televisivos com os micro, pequenos e médios partidos em pequenos e médios canais. Se existe facto digno de realce na campanha para as legislativas é este: os comunistas apenas admitem ser confrontados pelos dois partidos maioritários, em sinal aberto. Excluindo os canais por cabo. Sem debaterem com Catarina Martins, André Ventura, Francisco Rodrigues dos Santos, Cotrim Figueiredo, Inês Sousa Real e Rui Tavares.

Devido à pandemia, a campanha volta a desenrolar-se quase em exclusivo na televisão. Aí se mobilizam os indecisos, não as claques que até votariam numa ventoinha eólica se fosse ela a liderar o rebanho. Desprezar os canais por cabo, hoje à disposição de quase todos os portugueses, é incompreensível para um partido que tanto se queixa de ser discriminado nos meios de informação.

No confronto com Jerónimo de Sousa, infelizmente retirado da campanha por doença dias depois, Costa endureceu o tom, sem complacência: nessa noite, na TVI, o PS deve ter pescado alguns milhares de votos ao PCP. Tal como sucedeu nas autárquicas de 2017 e 2021. É um problema estrutural nas fileiras vermelhas, que não se resolve com outro secretário-geral. Um problema de modelo e de projecto. Somado à imensa dificuldade em justificar o que levou o partido a precipitar esta crise política.

Será por isto que os comunistas abdicam dos confrontos nas pantalhas que podem ditar o destino das legislativas? As legiões de comentadores ali acampados deviam elucidar-nos, mas encolhem os ombros como se fosse a coisa mais normal do mundo ver um partido derrotado por falta de comparência.

Merecem também registo as fracas prestações do líder laranja face aos homólogos do Chega e do Livre: Rui Rio passou boa parte do tempo a escorregar nas cascas de banana que André Ventura e Rui Tavares lhe lançavam. Tentou replicar as ideias dos outros em vez de exprimir ideias próprias. Com fraco resultado, como se viu na trapalhada em que se enredeou a propósito da prisão perpétua. Nem parece alguém com 40 anos de traquejo político.

Custa igualmente perceber que os canais de televisão reservem pouco mais de 20 minutos a cada confronto destes, na comparação com o tempo que dedicam a qualquer programa com gente a debitar irrelevâncias sobre futebol. E espanta ver moderadores – como João Adelino Faria, na RTP – que parecem estar ali só enquanto cronometristas, sem pulso para coordenar debates. Ao contrário de Clara de Sousa, na SIC, e Rosa Oliveira Pinto, na SIC Notícias.

Usemos então o cronómetro. Ao frente-a-frente Costa-Jerónimo, que durou 22 minutos, seguiram-se 34 minutos com quatro comentadores a perorar sobre o debate. Depois dos 24 minutos de tête-à-tête entre Catarina Martins e Rui Tavares na SIC Notícias, dois “analistas políticos” mastigaram durante meia hora o que foi dito. Desproporção total entre uma coisa e outra.

Quando o comentário se torna notícia, imprime-se o comentário. Devem soar alarmes: algo vai mal no reino do jornalismo.

 

Texto publicado no semanário Novo

60 comentários em “Quando o comentário ultrapassa a notícia”

  1. Os debates são um espectáculo degradante, abjecto e intencionalmente enganador.
    Objectivamente esclarecedor seria conceder na televisão meia hora para os partidos apresentarem os seus programas eleitorais.

    1. Todos os partidos têm muito mais que isso, nos tempos de antena diários nas televisões e nas rádios.
      Alguns nem os aproveitam, como já registei.

      Degradante é não haver debate algum.

  2. Os canais por cabo NÃO estão disponíveis para quase todos os portugueses. Só no mundo ideal do Pedro Correia. Eu conheço montes de pessoas que não dispõem dos canais por cabo. Porque não têm dinheiro para os pagar.

    1. Segundo a Anacom, 9 em cada 10 famílias portuguesas dispõe de tv por cabo.
      Se isto não significa “quase todos os portugueses” terei de rever o conceito de quase. Passando da lógica cartesiana à lógica baliniana.

          1. Pelo seus comentários sobre a campanha eleitoral, vê-se que o Pedro é um expert em… futebol, e depois cada comentário seu ,sobre qualquer debate vem ao de cima essa veia de futebolês.
            Então acha correto e democrático que dois partidos (PS e PSD) tenham a exclusividade dos debates em canais generalistas, e os restantes debates sejam atirados para o cabo, porque será que não fizeram um sorteio para que todos tivessem o mesmo tratamento?
            Por aqui se vê o seu conceito de democracia, e de igualdade de tratamento que você defende, e já agora convem não esquecer que o seu PS só foi governo porque o PCP deu-lhe a mão, mão essa que o Costa agora morde.

          2. Todos percebemos que o PCP recusou ir a debate com seis partidos (BE, IL, CDS, PAN, Livre e Chega) por medo.
            Preferiam o tempo em que não havia televisão por cabo, não havia televisão privada, não havia televisão a cores. Só havia o camarada Vasco Gonçalves a discursar durante horas no canal único, estatizado.

          3. O Pedro dá cada resposta mais inteligente, que é de bradar aos céus, então eles não tiveram medo de ir a debate com o PS e o PSD, e tinham medo de debater com os outros partidos???.
            Você não responde á questão colocada, porque será que nos vários debates, todos os partidos com assento parlamentar não tiveram o mesmo tratamento?, ou seja debaterem entre eles também nos canais generalistas.

          4. Debate a sério acontecerá quando PCP e PEV discutirem na TV Avante! as profundas diferenças que os separam.
            O sol brilhará para todos nós.

          5. O Pedro foge das questões colocadas, como o “diabo da cruz”, e com respostas superiormente inteligentes, digo mais, não é para qualquer um entende-las.

          6. Obrigado. Entretanto, como nada mais tem de relevante a transmitir, este papo termina aqui. Há novos textos para escrever e – se for o caso – para comentar.

        1. Nas coletividades de bairro ou aldeia toda a gente pode ver por cabo como acontece com o futebol.

          Não sei onde há “coletividades” nem quem nelas manda nem quem lhes paga as contas. Conheço cafés de aldeia que têm canais por cabo. Mas esses canais estão sempre ligados no futebol, nunca nos debates – a não ser nos dias em que não há futebol de todo.

      1. Gostaria de saber o que é para a ANACOM uma família. Uma pessoa a viver sozinha (há imensas em Portugal) é uma família?
        Repito: conheço imensas pessoas que têm televisão em casa, mas não canais por cabo. Nem têm rendimentos que lhes permitam gastar 30 euros por mês em tal luxo. E acho muito bem que o PCP, como partido que diz preocupar-se com os mais desfavorecidos, chame a atenção para eles.

        1. Giro seria ver um debate entre o PCP e o PEV. Partido que em quase 40 anos nunca foi a votos sozinho e serve apenas para duplicar os tempos de intervenção parlamentar dos comunistas.
          Uma das maiores fraudes da democracia portuguesa.

          1. serve apenas para duplicar os tempos de intervenção parlamentar dos comunistas

            Se o regimento da Assembleia permite tal desaforo, é uma parvoíce. Questiono porque é que os deputados não alteram tal disparate de regimento. Quiçá porque há outras coligações, maiores do que a CDU, que não querem que tal alteração seja feita. Quiçá porque essa medida do regimento também aproveita à coligação PSD-CDS.

            Eu por mim acho muito justo e adequado que o regimento da Assembleia seja alterado e que partidos que concorreram coligados sejam forçados a formar um único grupo parlamentar.

        2. Deve ser por estas e por outras que o PCP se afunda em cada eleição que passa. É pena porque o país precisa do PCP, mas não aderir à realidade e viver agarrado ou passado ou a realidades virtuais é no que dá.
          E mesmo que nem toda a gente tenha TV por cabo, é melhor passar a mensagem a uma única pessoa do que a ninguém.

          1. Números actualizados da ANACOM: 93,2% das famílias portuguesas têm televisão por subscrição.
            https://www.anacom.pt/render.jsp?contentId=1603787

            Percentagem verdadeiramente esmagadora. E que torna ainda mais absurda a recusa do PCP de debater nos canais informativos por cabo com o BE, a IL, o CDS, o PAN, o Livre e o Chega.
            Devem ter saudades da televisão a preto e branco, só com a RTP, sem televisões privadas – que aliás surgiram em Portugal com a oposição aberta e declarada do Partido Comunista.

        1. Quem conheça bem o País – e a sociedade portuguesa – não fica boquiaberto.
          A subscrição de TV por cabo aumentou consideravelmente com a pandemia.
          E já nem falo das plataformas digitais com filmes e séries.
          O PCP vive ainda num mundo a preto e branco, ancorado algures em meados do século XX. O mundo das notas oficiosas, da televisão única, da imprensa estatizada e dos despachos da agência TASS a comunicar a “verdade” ao mundo.

    2. Porque não têm dinheiro para os pagar.

      E se não forem funcionários públicos, nunca vão ter dinheiro para os pagar

  3. Devido à pandemia, a campanha volta a desenrolar-se quase em exclusivo na televisão.

    Isso não é verdade. Todos os partidos têm prevista uma campanha ativa, na rua. Basta ouvir as notícias diárias para o sabermos: eles andam por aí.

    1. Você, em “teletrabalho” comentando nos blogues de segunda a sexta, vem jurar que a campanha não se desenrola quase em exclusivo nas televisões… com base do que lhe chega por essas mesmas televisões enquanto está fechado em casa.
      Faz todo o sentido.

  4. Acabaram com os animais nos circos e muito bem, falta acabar com estes circos deprimentes que apenas servem para destilar ódios de estimação. Depois admiram-se da abstenção ser cada vez mais a verdadeira força vencedora dos actos eleitorais.

      1. A ameaça socialista soa sempre bem para quem recusa ver o obvio que é não haver discussão de ideias nestes ditos “debates”. Seria muito mais feliz o conselho de emigração para o lado oposto, onde este espectáculo circense foi levado ao extremo com o patrocínio de alguma comunicação social e deu no que deu,,,,um louco num cargo com acesso a bombas nucleares.

  5. Não é só nas legislativa. Porque no próprio futebol se passa mais tempo em “análise” e “debate” do que propriamente a ver o próprio jogo.

  6. Por falar em micros, será que o sistema vai continuar a permitir que o PEV continue com um grupo parlamentar sem que lhe sejam contados os votos arrecadados?

  7. Então não fala da demagogia e do populismo apresentado pelo sr. primeiro ministro? Também deveria ser objeto de reflexão. Quanto ao PCP não debater em canal fechado, como dizia a minha avó, só faz falta quem cá está.

  8. Disponíveis sempre estão os canais não cabo… Se alguns debates já foram o que foram é imagina-los na CMTv…

  9. Não vejo que existisse algum benefício ao PCP debater com partidos que nunca serão governo e que não possuem uma estrutura ideológica para tal. O PS e o PSD são partidos de tradição, dizendo melhor, de submissão. Quer um quer outro encontraram em Bruxelas o pretexto de disfarçar as suas inabilidades governativas, de facto.

    De igual forma Bruxelas foi um apoio e pretexto de disfarçar tal inabilidade durante o período Cavaco, hipotecando este a nação ao betão e ao dinheiro que corria em forma de pseudo-progresso e que hoje se tornou em pescada de rabo-na-boca.
    Costa não passa do “boneco” ventríloquo, isto é, ele projecta somente a voz de Bruxelas parecendo que fala por ele. Rio fará o mesmo papel.
    Conclusão, o PCP habilmente sabe onde assacar responsabilidades e onde concentrar suas energias.

  10. As eleições do dia 30 em Portugal são como a segunda volta das eleições presidenciais em França.
    Embora estas eleições do dia 30 em Portugal se intitulem de as “Legislativas” na realidade estas eleições serão para escolher, entre dois candidatos, o futuro lider do poder Executivo. O regime político português tornou-se num regime Presidencialista e escolhe-se numa segunda volta o Executivo.
    O resto, os deputados, são apenas representantes dos respectivos militantes partidários que os elegeram. Não são representantes de eleitores.
    Uma AR desinteressante.

  11. Não sabia que havia campanha eleitoral* fora da televisão. Se consideram debates televisivos meros espectáculos que de informativo têm pouco, que dizer das “arruadas”. Deve ser aí que o político esclarece o povo. Ou então nos jantares-comício, aposto que é nesses eventos que os indecisos se decidem.
    *aquela espécie de coisa onde se apresentam as linhas do programa eleitoral

    Dizer que o A ou B ganharam ou perderam o debate vale tanto como dizer quem jogou melhor no último Porto-Benfica. Cada um acha que o seu arrasou o adversário, mesmo que tenha perdido por 5. Culpa do árbitro, da relva, do vento, do azar. Não sei explicar como alguém “perde” um debate, a não ser que se espalhe ao comprido, e mesmo assim depende (o Trump perdeu todos os debates, nas primárias e com a Hillary, embora ele achasse o contrário). Conta passar a mensagem, basta eu não gostar da mensagem para achar que essa pessoa “perdeu”.

  12. Eu acho que os comentários (o painel da CNN, por exemplo) têm sido bastante superiores aos debates. E na verdade todos sabemos que quem tem governado realmente são as televisões, e que até a feitura de opinião às vezes deturpa a realidade como no caso do governo de PPC.

    Aliás, de onde é que vêm criaturas como Trump ou Ventura — do Espaço? Não, é da TV.

      1. E os sabonetes de onde é que aparecem prontos a ensaboar?

        Antigamente era de uma fábrica no Beato. Agora não sei.

        1. Agora lá no Beato deve estar um “atelier de investigação artística”, com patrocínio no Ministério da Kultura.
          E os sabonetes são importados da China, como quase tudo o resto.

    1. Veja-se o tempo de antena que um partido com 1 único deputado eleito tem tido nos últimos anos, face aos restantes partidos ditos igualmente “menores”. Se é o deslumbre pela lábia barata ou simplesmente sede de manchetes polémicas para ter audiências, o facto é que os media se curvaram para dar palco a esta personagem (ou para apanhar o sabonete que ele lhes vem atirando), ignorando os restantes partidos que goste-se ou não, deveriam ter no mínimo o mesmo tempo de antena.

  13. O que é que «micro, pequenas e médias empresas» tem a ver com «micro, pequenos e médios partidos em pequenos e médios canais», para além de ficar bem na frase?

    De resto, de acordo, especialmente quanto ao formato decidido pelas televisões. Serviu o propósito do entretenimento, especialmente quando houve chafurda na lama, para gáudio das audiências.

  14. ah, muito recentemente e aqui no Delito e no Pedro, sugeri a interrogaçao, que tipo de comentarios chegariam a um post em branco.
    que ideias proprias ( e improprias), quem daria a cara e para quê, que diriam os incondicionais ( já nao sei se é este o termo que está no post, mas provavelmente é pior o que esta no post ) ?

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