Quando o cão morde no homem


Pedro Correia,

Cada vez me convenço mais que o país e o mundo que povoam o tempo de antena dos doutos tudólogos acampados noite após noite nas pantalhas nada tem a ver com o mesmo país e o mesmo mundo reflectidos nos telediários das estações que lhes dão guarida.

Voltei a perceber isso ontem à noite quando o Jornal da Noite da SIC foi incapaz de narrar algo mais relevante aos seus telespectadores do que o facto de uma menina ter sido mordida por um cão.

Sempre me garantiram que notícia era o homem abocanhar o animal e não o contrário. Afinal eu e muitos andávamos iludidos. Qualquer irrelevância ascende hoje à dignidade de foco central de um bloco informativo.

E se ainda me sobrassem dúvidas, teriam ficado desfeitas ao ouvir este destaque noticioso logo após a já mencionada peça de abertura: “Julia Roberts foi a Madrid e emocionou-se ao conhecer Cristiano Ronaldo.”

Senti por isso que ontem, à sua maneira insólita, os estúdios de Carnaxide produziram uma espécie de 25 de Abril jornalístico. Cruzando uma linha fronteiriça sem retorno. Nada voltará a ser como já foi.

0 comentários em “Quando o cão morde no homem”

  1. Parece-me um pouco injusto, sabendo-se que as redacções se apresentam sempre desfalcadas nestes dias (entre dois feriados), sem que diminua a necessidade de encher espaços noticiosos.

    Por outro lado, daria certamente um estudo curioso fazer um levantamento das notícias sobre canídeos nos últimos anos e analisar a evolução registada.

    1. Pela quantidade de temas incluídos neste telediário e pela densidade e/ou oportunidade de alguns desses temas não me parece que o problema fosse de falta de assunto.
      O alinhamento temático ditando a opção editorial do dia, esse sim, é que me parece revelador de que várias cabeças pensantes estivessem de folga ou de férias. Ou – o que não me admira – até já não trabalhem na SIC.

  2. Os jornalistas têm que fazer um telejornal de uma hora de duração e não têm notícias para esse tempo todo. Fazem então aquilo a que se chama “info-entretenimento”.
    É como as pessoas que têm que semanalmente escrever para um jornal um artigo de opinião com N carateres. Há semanas em que não têm opinião nenhuma para dar sobre coisa nenhuma, então escrevem asneiras.

  3. O facto de uma menina ter sido mordida por um cão pode ser pouco relevante na opinião do Pedro, mas o facto é que constitui um crime, pelo qual o dono do cão vai ser acusado. Talvez com este enquadramento se perceba que não se trata de um evento assim tão irrelevante. Há muitos crimes que são noticiados nos telejornais.
    Neste caso a relevância é acrescida pelo facto de muita gente não se aperceber de que, ao passear o seu cão sem trela nem açaime, corre o risco de vir a ser acusado de crime similar.

  4. Engraçado que escrevi há pouco tempo no meu blogue sobre a minha discordãncia crescente em relação à relevância da notícia “um homem mordeu um cão”. Isso serve para quê? Para avisar os donos de cães quando os levam aos passeios para estarem alerta contra possíveis homens mordedores de cães? Periodicamente realizam-se lotarias em países remotos onde saem premiados bilhetes, cada um desses eventos tem uma probabilidade de ocorrência possívelmente menor do que um homem morder um cão e contudo não são noticiados fora do país onde a lotaria se realiza. Pelo contrário a menina que o cão mordeu teve a orelha mutilada pelo animal, foi sujeita a cirurgia reconstrutiva complexa e vi agora que a mãe também precisou de tratamento hospitalar. O dono do cão foi apresentado ao juiz. Parece-me um caso com mérito para ser relatado ao público em geral e para uma discussão pública sobre o que fazer em relação a cães potencialmente perigosos para os seres humanos.

    1. Alguns – como julgo ser o seu caso – terão concordado que a SIC fosse o único canal informativo que abriu ontem, 25 de Abril, o principal bloco noticioso do dia com a notícia de uma menina ter sido mordida por um cão.
      Aguardo com interesse se esta opção editorial vai manter-se hoje. Quantos cães terão mordido pessoas de norte a sul do País? E alguma serpente terá feito o mesmo? E houve touros a marrar onde não deviam?

      P. S. – Julgava ser inútil acentuar isto. “Homem morder no cão” vale essencialmente como metáfora.

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