Quando Hemingway viu cavalgar Simão da Veiga em Espanha


Pedro Correia,

Durante anos, procurei em vão referências a Portugal na obra de Ernest Hemingway. Sabia que o escritor, galardoado em 1954 com o Nobel da Literatura, havia estado pelo menos uma vez em Lisboa e conhecia sobretudo o seu amor declarado pela cultura ibérica. Adorava cidades de Espanha, como Madrid, Sevilha, Málaga, Oviedo, Santander e Santiago de Compostela. Preferia até Espanha ao seu país natal, os EUA. E em 1938, ao fazer a jura de só ali voltar quando o último dos seus amigos estivesse fora dos cárceres franquistas, decidiu instalar-se em Havana, talvez a mais espanhola das cidades fora de Espanha. A jura, que foi cumprida, durou 15 anos: ao regressar de carro pela fronteira basca, oriundo de França, esperava ser detido. Em vez disso, o guarda fronteiriço declarou-se apreciador da sua obra – episódio digno de romance, entre tantos outros ocorridos na vida do escritor.
Portugal, no entanto, sempre esteve aparentemente ausente dos interesses de Hemingway, um viajante inveterado que conhecia a Europa inteira e tinha uma notável facilidade para aprender línguas. Sempre me intrigou este desinteresse, nunca explicado pelos inúmeros biógrafos do autor de Por Quem os Sinos Dobram. Foi, portanto, com surpresa e satisfação que encontrei recentemente uma referência a um português numa história de Hemingway, inserida na obra Contos de Nick Adams (Livros do Brasil, 2006). É uma história que ficou incompleta, entre os manuscritos do escritor, quando morreu, em Julho de 1961, e só viria a ser editada, com outros inéditos, 11 anos mais tarde. Intitula-se ‘A respeito de escrever’ e, como tantas vezes sucedia, Hemingway fala dele próprio através do seu alter ego literário, Nick Adams.

 

Hemingway era um cultor do conto. Aliás, como ele próprio confessava, todos os seus romances começaram por ser contos. Alguns deles, como ‘A Capital do Mundo’, ‘Um Gato à Chuva’, ‘Colinas como Elefantes’ e ‘Acampamento Índio’, são obras-primas do género. Textos fiéis às regras básicas do escritor norte-americano que mais marcou a literatura do século XX.

Que regras eram essas?

Em primeiro lugar, escrever apenas sobre aquilo que se viveu ou experimentou.

Em segundo lugar, evitar todo o desperdício de palavras: interessam apenas as que são essenciais para o conhecimento da história ou o desenvolvimento da trama.

Em terceiro, aproximar o mais possível os diálogos literários da oralidade, sem artifícios de estilo.

E, finalmente, sugerir muito mais do que descrever: para Hemingway, era tão importante o que apenas ficava implícito no texto do que aquilo que se escrevia. Chamava iceberg a esta técnica que permitia esconder tanto ou mais do que mostrar. Técnica que tem sido imitada por inúmeros seguidores da sua obra – nenhum deles, naturalmente, com a qualidade do original.

Neste esboço de conto, como é mais justo chamar-lhe, Nick recorda algumas das touradas que o empolgaram nos seus anos de juventude em Espanha. “Como daquela vez em que o português toureara e o velho picador se debruçara da barrera e atirara o chapéu para a arena ao ver o jovem Da Veiga. Nunca tinha visto coisa mais triste. Fora aquilo que o gordo picador desejara ser, um caballero en plaza. Jesus, como aquele garoto Da Veiga cavalgava! Aquilo sim, era montar. Não se via bem nos filmes.”
Suponho tratar-se de Simão da Veiga Júnior, então no início da sua notável carreira como cavaleiro tauromáquico, em que rivalizou durante mais de três décadas com João Branco Núncio, outro nome cimeiro da arte equestre portuguesa. Fica a sugestão à editora para destacar este trecho – por exemplo, numa badana – em futuras reimpressões da obra. Precisamente por serem tão escassas as referências de Hemingway a Portugal e aos portugueses.

23 comentários em “Quando Hemingway viu cavalgar Simão da Veiga em Espanha”

  1. Não conhecia essa referência, Pedro. Mas é naturalíssima a proximidade entre aficionados portugueses e espanhóis do mundo dos toiros e cavalos. Sempre existiu, e ainda mais nessa época. Além disso, Mestre Simão da veiga era também um pintor conhecido e muito apreciado nesse universo.

    1. Tentei saber um pouco sobre Simão da Veiga na Net antes de escrever este texto, mas não descobri praticamente nada, Ana. A Net também pode ser uma forma de esquecimento: quem não está lá é quase como se nunca tivesse existido.

  2. Carissimo Pedro Correia,
    Foi com surpresa e sincero agrado que li este episódio que, até aqui, desconhecia por completo. Considerando a extraordinária mestria do uso das palavras que Hemingway desenvolveu como poucos, na clareza da mensagem e do exímio uso dessa técnica narrativa que o Pedro teve o cuidado de enunciar e que tanto me deslumbra e motiva, o “iceberg”, quero apenas agradecer-lhe o texto e dizer-lhe que considero pertinente e interessante a sugestão que faz à editora a propósito de futuras edições da obra.
    Um abraço.

    1. Obrigado pelas suas palavras, Ana Paula. De facto, as editoras portuguesas não param de me surpreender. Se esta obra tivesse sido bem lida, as linhas que aqui destaquei teriam figurado num destaque qualquer, em badana ou na contracapa. Ou até num prefácio propositadamente escrito para a edição portuguesa destes contos.

  3. Seremos assim tão pequenos, que mereça preocupação o facto de o grande Hemingway, não fazer referências a Portugal?
    Será que quando ele se refere ao português não o faz crendo que Portugal seria uma província de Espanha? Hoje ainda, mas mais no tempo da ditadura, o nosso isolamento face ao mundo resultante do famigerado “orgulhosamente sós” de então, em muito contribui para isso.

    1. Não há preocupação nenhuma: há simples, genuína e compreensível curiosidade. Só isso. Mas já me parece bastante. De resto Hemingway, que conhecia melhor Espanha do que muitos espanhóis, não confundiria certamente Portugal com nenhuma região espanhola.
      De facto, somos pequenos. Mas não é preciso imaginarmo-nos ainda mais pequenos do que já somos.

  4. Muito bem. Hemingway merece este texto e os leitores portugueses de Hemingway mais ainda. Não entendo que algumas editoras portuguesas desperdicem oportunidades de mostrar atenção pelos leitores portugueses que é suposto constituírem o seu alvo.

    1. Isso mesmo, compadre. Há hoje uma certa preguiça editorial entre nós que de todo não compreendo. Qualquer leitor português deveria ter de imediato acesso ao trecho que transcrevo lendo-o – por exemplo – na contracapa.

  5. Devorei Hemingway na minha juventude; com a mudança de gostos que a idade sempre traz, ainda releio amiúde O Velho e o Mar, o meu favorito. Infelizmente, a obra Hemingway não se encontra com facilidade nas livrarias, e eu bem gostava de comprar muitas das obras que li nas bibliotecas. E as traduções são frequentemente deploráveis (exceptua-se o Velho e o Mar, traduzido por Joge de Sena): Also the sun rises foi traduzido por Fiesta e Tortilla Flat por O milagre de São Francisco… Também Steinbeck (consegui comprar há pouco tempo Pastagens do Céu, mas não Ratos e Homens), ou Mark Twain se não encontram à venda; sobre este último, quando procurava As Aventuras de Tom Sawyer, que tenho numa péssima tradução, disse-me a menina da Bertrand que não compensava; venderia, disse ela, dois ou três, no máximo.

    1. Hemingway, por acaso, até é um dos escritores americanos que tiveram melhores traduções em Portugal. ‘O Velho e o Mar’, como indica, foi traduzido por Jorge de Sena, que também traduziu ‘Fiesta’ (The Sun Also Rises). Outra excelente tradução é a de ‘O Adeus às Armas’, feita pelo Adolfo Casais Monteiro.
      Meninas como essa da Bertrand, aqui entre nós, não percebem patavina do assunto.

        1. Viva, Sara. É curioso que me faças essa pergunta. Ando há anos a perseguir essa obra do Hemingway, que nunca li. Sou capaz de jurar que não existe tradução portuguesa (será talvez a única obra dele que nunca foi editada em Portugal). Ao contrário do ‘Verão Perigoso’, outro livro centrado na tauromaquia, muito posterior, e que tem edição da editora Livros do Brasil, responsável pela quase totalidade do catálogo Hemingway em Portugal.

  6. Ao ler estas fabulosas alusões a Hemingway, tenho para mim que há mais duas referências a Portugal: os touros Palha em “Verão Perigoso”; o Santo António, numa medalha protetora que alguém oferece ao protagonista de “O Adeus às Armas”, e depois este verifica que os italianos em redor têm todos uma medalha do santo ao pescoço. Cpts., gosto de ler o blogue. 🙂

  7. Parabéns pelo seu texto!
    Parece que Hemingway está fora de moda…já ninguém fala dele!
    Só quero esclarecer um comentário…
    Simão da Veiga quando é referido por Hemingway já não é um principiante! Está mais do que consagrado como Cavaleiro!
    Também não confundir o Cavaleiro com o Pintor…
    Simão da Veiga foi o Pintor que por acaso também foi Cavaleiro!
    Simão da Veiga Jr como era conhecido…foi o grande Cavaleiro que todos recordamos.

    1. Neste caso era mesmo Simão da Veiga Jr, sem qualquer dúvida. A referência ao “miúdo” é bem elucidativa nesta obra, escrita no final da década de 20 mas lembrando factos ocorridos alguns anos antes.

  8. Olá Pedro e demais. Contente por ter encontrado este bate-papo, especialmente porque eu também estive procurando sem sucesso referências a Hemingway em Portugal; sou o tradutor (Eng/Port) de Por Quem os Sinos Dobram e estudioso da sua obra e vida, diletante também. Estou planejando um evento sobre Hemingway e apreciaria manter contato com vocês, perdoem-me a forma brasileira informal de tratamento, mas acreditem carrega respeito e o pouco de ternura posso ter. Abraços literários Luis Peazê http://www.luispeaze.com

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *