Quando a vida imita o cinema


Pedro Correia,

Arte e vida estão interligadas, o que é perceptível até em pequenos actos do nosso quotidiano. Quem de nós, durante um banho de chuveiro, não se lembrou daquela cena terrífica filmada por Alfred Hitchcock no primeiro filme que ousava matar a protagonista antes de a fita chegar a meio? Janet Leigh, a estrela de Psico, confessou que durante meses foi incapaz de tomar duche devido a essa cena que passou a fazer parte integrante do nosso imaginário.

Psico estreou-se em 1960, um ano fértil em obras-primas cinematográficas. Muitos dos realizadores clássicos mantinham-se em actividade enquanto despertava uma geração de jovens cineastas com uma nova linguagem e novas temáticas. É o ano em que o consagrado Billy Wilder, mestre da comédia requintada, estreia essa sátira corrosiva dos costumes norte-americanos que é O Apartamento (com Jack Lemmon e Shirley MacLaine). É o ano em que um desfigurado Montgomery Clift regressa aos ecrãs pela mão de Elia Kazan num poderoso drama social ambientado na América da Depressão: Quando o Rio se Enfurece. É o ano daquele que é talvez o melhor de todos os épicos: Spartacus, de Stanley Kubrick (com Kirk Douglas “à frente de um grande elenco”, como se dizia na época). É o ano em que o western se reconfigura, com Os Sete Magníficos, de John Sturges.

Faz agora meio século, a Europa impunha-se como alternativa de sucesso aos EUA nas bilheteiras de cinema. Com filmes como Disparem sobre o Pianista, de François Truffaut (com um magnífico Charles Aznavour no principal papel), A Fonte da Virgem, de Ingmar Bergman (que viria a ganhar um Óscar em Hollywood), A Aventura, de Michelangelo Antonioni, O Comediante, de Tony Richardson, Sábado à Noite, Domingo de Manhã, de Karel Reisz, e Rocco e os Seus Irmãos, de Luchino Visconti (que fez de Alain Delon uma vedeta, tal como no anterior sucedera com Jean-Paul Belmondo em O Acossado, de Jean-Luc Godard).

É ainda em 1960 que Federico Fellini estreia A Doce Vida. Dando fama mundial a Marcello Mastroianni, tornou a Via Veneto tão célebre como a Quinta Avenida nova-iorquina e transformou Anita Ekberg num ícone. Também aqui cinema e vida se confundem. Nunca mais a fonte de Trevi foi olhada da mesma maneira por nenhum de nós: a marca de Fellini passou a fazer parte integrante da magia eterna de Roma.

6 comentários em “Quando a vida imita o cinema”

    1. A colheita de 1960 no cinema – europeu e americano – foi excepcional. Meio século depois, interrogo-me se daqui a meio século se poderá dizer o mesmo dos filmes de 2010.

  1. A Las Vegas de “One from the heart”, um dos filmes da minha vida, não existe. Todos sabemos que é um simulacro que exibe, ousadamente, essa mesma condição. Eu nunca estive em Las Vegas. Mas, quando evoco esta cidade, ou melhor, a minha imagem dela, é para os estúdios de Coppola que a minha alma – e o meu olhar -se dirige(m).

    1. Ora bem. O mesmo se poderá dizer de Casablanca. A do filme nada tem a ver com ‘verdadeira’ Casablanca. Mas não será também real? E para muitas pessoas não será mesmo a única Casablanca que existe ou a única Casablanca que realmente interessa?

      1. Exactamente. Claro que a “minha Casablanca” é a do filme. E, continuando em Curtiz, a “minha floresta de Sherwood” será sempre a de Robin Hood.

        1. Pois. E aquela Hong Kong de estúdio, em ‘Disponível para Amar’, também será a verdadeira Hong Kong de muita gente. O mesmo se dirá da Via Veneto criada pelo Fellini na Cinecità ou da Nova Iorque recriada em Inglaterra por Kubrick em ‘De Olhos Bem Fechados’. O cinema enquanto artifício acaba por adquirir contornos reais.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *