Tenho o hábito de dizer que a realidade supera sempre a ficção. É assim no amor, no desgosto, na angústia, na raiva, no medo. E no ridículo. E ninguém melhor que o nosso Ministro da Cultura, João Soares, para validar esta tensão dicotómica entre o ficcionado e o real – embora não pelas razões que possa imaginar, caro leitor.
O responsável pela pasta da cultura tem um alter-ego escritor. Até aqui nada de extraordinário. A maravilha começa quando temos presente que o faz sob os pseudónimos Hans Nurlufts e John Sowinds. Não lhe dizem nada? Não tem importância, o Observador explica: “O primeiro é uma junção de Hans/Johan, o equivalente a João, com Nur (só/somente) Lufts (ares) – João Só Ares, portanto. O mesmo nome que podemos aplicar a John Sowinds.” A destreza criativa investida nos pseudónimos é, no mínimo, sublime. Mas enfim, haja indulgência e entendam-se estes pseudónimos como prova do carácter bonacheirão do autor, bem como da louvável capacidade para não se levar demasiado a sério.
Porém, a história não fica por aqui. A obra de Nurlufts e Sowind é diversificada, há naturalmente muita política, mas não se pode menosprezar a atenção dada ao erotismo. Os exemplos são muitos e só o decoro (e alguma vergonha alheia) me impele a ser parco em transcrições. Ainda assim, atente-se apenas neste pequeno excerto:
“Pero sólo en Barcelona surgió la oportunidad de que me abriese tranquilamente sus bellas piernas y que me dejase admirar su coño.
En esa época ella se había rapado el vello, de una forma simétrica y rectangular, prolongando en vertical el recorte de los labios de su coño.”
Em suma, um ministro português chamado João Soares, sob os pseudónimos Hans Nurlufts e John Sowinds, dedica-se à escrita em castelhano (ou assim parece) de cálidas aventuras político-eróticas. Não há mente na ficção literária capaz de se lembrar de um personagem como este.
Em “Morrem Mais de Mágoa”, Saul Bellow escreve “ser visto literalmente drena a humanidade de cada um”. Certo. Mas João Soares certamente não precisava de tanto para escapar do jugo opressor da sua realidade.

A vida torna-se, por vezes, irreal.
Li o teu texto a primeira vez e julguei que estavas a brincar.
Li a segunda e achei que não.
À terceira, que se não deu, talvez "achasse" que JS se tinha superado.
Ele há com cada "descoberta". Só falta que a moda pegue!
Saul Bellow equivoca-se na afirmação que faz, pois a humanidade é exactamente isso que o escritor, o pintor, o escultor… também retratam.
E este equívoco dificulta-lhe a tarefa de visionar que existe também uma humanidade ferida. Esta humanidade ferida já não se encontra somente nas periferias: na miséria, no desprezo, no esquecimento…, onde todas as formas de compensação e de sobrevivência se expressam. Mas também se encontra nos que se consideram o centro da humanidade, pelo neopositivismo, neopuritanismo e outros ismos que se lhe queiram adicionar. Em suma, aqueles que se “esquecem”, e fingem desconhecer, o que é ser humano.
Creio que neste “esquecimento” do humano encontraremos as dificuldades em nos descobrirmos como Pessoas.
Mas não desespero por causa disto, simplesmente aguardo que ao que é periférico se dê a oportunidade de estar no centro. São estes a fonte do renovamento que precisamos. Foi isto que a “revolução” Jesus demonstrou.
Sowinds é uma lufada de ar fresco no panorama das ventosidades pátrias.
Tinha brilhado na “visita da cornélia”, a dar a “voltinha ao texto”.
É o messias que a CUltura aguardava em jubilosa esperança.
Haja papel higiénico!
Eu não acredito nisto!!!