Poucas coisas me irritam mais do que tentarem vender-me coelho por lebre. Pois foi o que sucedeu na Feira do Livro de Lisboa. Fiquei desconfiado à partida quando li o anúncio da criação de uma “happy-hour” no evento, de 2ª a 5ª feira (entre as 22h30 e as 23h30), durante a qual os livros estariam à venda por metade do preço. Em todo o caso, as notícias falavam de uma “garantia” expressa, pelo que fui na cantiga. Sem surpresas, pude confirmar que se trata de uma verdadeira banhada.
Em primeiro lugar, uma série de editoras optaram por não aderir à “iniciativa”, preferindo aparentemente guilhotinar os seus livros a vendê-los por um preço apetecível. Entre elas (mais de metade das presentes na Feira) contam-se editoras como a Assírio & Alvim, Gradiva, Piaget, Edições 70 e Livros do Brasil. A Relógio D’Água e a Bertrand, que no site oficial surgem como “aderentes”, voltaram atrás com a palavra, talvez assustadas com a perspectiva de terem demasiadas vendas. De um modo geral, as editoras de livros técnicos e de não-ficção também ficaram de fora.
Em segundo lugar, mesmo entre várias editoras “aderentes” existe uma triagem não prevista inicialmente, estando a 50% apenas alguns dos livros seleccionados pela própria editora. Não será difícil adivinhar que, na maioria dos casos, se trata de obras menores, fundos de catálogo e semelhantes. A Kalandraka esteve particularmente a alto nível, dizendo-se “aderente” à iniciativa e cumprindo rigorosamente o prometido, tendo colocado um (leram bem, “um”) livro à venda a 50%…
Mas chega a haver “happy-hour” em algum lado? Sim. Nos pavilhões da Leya, todos os livros publicados há mais de dezoito meses estão a 50%. Tal como em dois ou três stands de editoras corajosas (recordo a Presença, a Aletheia e a Europa-América, pelo menos). E também na maioria das editoras de livros infanto-juvenis. Não por acaso, havia uma notável concentração de almas em redor destes pavilhões ontem à noite. Os outros? Queixam-se da “crise no sector”. É muito mais fácil e possivelmente ainda acabam a receber uns subsídios estatais…

Será a dimensão… ou a curta gestão?
Comecei a desconfiar quando ouvi, numa reportagem de tv sobre a feira, que só alguns livros estariam com 50 por cento de desconto durante a happy hour, mas o teu post é esclarecedor. O barrete é mesmo daqueles que se enfiam até aos pés. Obrigada pelo aviso.
De nada, Teresa 🙂 Eu continuo a ser fã da Feira, se todos os portugueses gastassem como eu em livros o negócio das editoras ia de vento em popa! Mas esta manobra pareceu-me muito sujinha, de facto.
Pelo que dizes, devia ter-se chamado à iniciativa “Leya Hour”, já que a Feira do livro se vai transformando, ano após ano, numa espécie de “Leya Fair”. Tenho pena deste monopólio editorial que estrangula as editoras mais pequenas (ou as engole), mas nos tempos que correm os livros não podem estar aos preços astronómicos a que os vejo por aí e tem de haver estratégias de venda mais de acordo com a crise. Se este unhappy people já quase não tem dinheiro para comer e nunca foi de grandes leituras, como é que se pode esperar que compre livros a preços altos?
Muito bem observado. Estou contigo. E era bom que o José fosse seguido por muitos, para que fiquemos todos a perceber muito bem o que se passa.
🙂
Algum mérito tem de ser dado à Leya (grupo que não admiro, note-se). Quando tiveram a ideia de fazer uns pavilhões mais apetecíveis, aqui d’el-Rei que o mundo acabava. Afinal, foi justamente por causa disso que as outras editoras se decidiram finalmente a mudar os pavilhões degradantes em que encontravam há anos. Agora voltam a protestar por causa da “happy-hour”, mas se calhar daqui a dois ou três anos, já acham o máximo.
Como é que se continuam a vender livros por 20 e tal euros, às vezes com 200 e poucas páginas? Num momento destes?
É como dizes: queixam-se da crise e nada fazem para aumentar as vendas e cativar o público. A lamúria, pelos vistos, continua a valer mais em Portugal do que tudo o resto. Agradeço-te o aviso: já sei onde ir às 22.30, quando passar pela feira.
De nada, Pedro. Pode ser até que nos outros dias haja diferenças… Eu fiquei desapontadíssimo com a Relógio D’Água e a Bertrand, que aderiram na página oficial e depois na prática “cortaram-se”. Acho deprimente que o tenham feito. E revelador de uma certa “política” perante o leitor. Que não as engrandece (nem favorece, creio…).