Psicodrama


Teresa Ribeiro,

Este título é todo um tratado. Lilly Allen “admite” que vai ao psicólogo. Se fosse ao dentista não teria de “admitir”, bastaria ir. Aliás, se fosse ao dentista, ou ao ginecologista, ou otorrinolaringologista e por aí fora não era notícia. Ir ao psicólogo, apesar de a depressão já ter sido considerada a doença do século, ir ao psicólogo, apesar de se saber que se vendem milhões de ansiolíticos e anti-depressivos, ir ao psicólogo é um embaraço.

Cuidar de qualquer parte do corpo é natural. Presume-se que o corpo precisa de cuidados, por isso vigiá-lo revela-se até uma atitude saudável. Já admitir que psicologicamente nem sempre tudo está bem, só se deve fazê-lo em tese. Os media, de tanto falarem no assunto até tornaram essa ideia consensual, mas uma coisa é fazer conversa de salão e outra é dizer que se vai ao psicólogo. No mínimo está a confessar-se uma debilidade, no máximo uma disfunção.

Nos tempos em que tudo se revela na Internet, incluindo as partes pudibundas do corpinho e o que se faz com ele nos tempos livres, só não se pode mostrar as fragilidades da alma.

21 comentários em “Psicodrama”

  1. Se vivesse em Portugal não seria seguramente notícia, primeiro porque “ter uma pancada” por aqui é normalíssimo e depois psicólogos no SNS? Ah, pagam-se… Então terei que pagar a alguém para lhe falar de mim ? Omessa, amigos, vós tendes certamente uma pancada qualquer se pensam que vou gastar dinheiro para ir falar para o boneco…

    1. Pois, os preconceitos manifestam-se também em relação aos “psis”, frequentemente apodados de inúteis, aldrabões etc. Chamar-lhes bonecos, como a Maria Dulce chamou, não é das coisas piores 🙂

  2. Excelente texto!
    O mais interessante é que muitas pessoas que passam a vida nos médicos das maleitas físicas teriam mais hipóteses de se curarem se fossem ao psicólogo, já que a maior parte das queixas são psicossomáticas: o estômago ou o intestino nervoso com as inevitáveis cólicas, as dores de cabeça, as palpitações, as insónias… E lá andam elas em consultas e a tomar medicamentos que não levam a nada.

    1. É isso mesmo, Cristina. Há doentes desses ao quilo. Sempre com achaques, se não é do coração é do estômago, se não é do estômago é do fígado, mas se algum médico insinua que talvez precisem de psicoterapia, cruzes credo. É uma besta, um incompetente. Não lhes levam as queixas a sério, como se as suas dores não doessem e o coração não palpitasse. Estranho mesmo é as análises nunca acusarem nada… por que será?

    1. nos Estados Unidos, a surpresa é não ter psicanalista

      Eu diria que os Estados Unidos dificilmente são um bom modelo.

      Os americanos são crianças ou loucos. E eu vivi nos EUA, sei bem do que falo.

    2. Nada modernaços, Helena. São os próprios psicólogos que aconselham os seus pacientes a fazer caixinha, para que não sejam olhados de soslaio por colegas, familiares e amigos, o que é triste. À psicanálise, como se sabe não ser acessível a todas as bolsas, atribui-se um certo chique. De modo que quem diz que lá vai beneficia de um outro estatuto. Não é pírulas, é excêntrico. Ou snob.
      É claro que também estas são avaliações preconceituosas, feitas por quem viu muitos filmes do Woody Allen e não sabe do que está a falar.

  3. Ir ao Psicólogo continuará a ser um problema durante muito tempo. Admitir uma doença do corpo é relativamente fácil, é normalmente uma questão impossível de contornar, não há culpa directa a imputar ao processo. No caso das dores da alma o caso muda de figura. Soa a fraqueza, ainda que não seja o caso, e fraqueza é mal do qual ninguém gosta. Mata lenta, mas implacavelmente…

    1. Admitir uma doença do corpo é relativamente fácil

      Olhe que não me parece. Em Portugal usa-se de uma discrição para mim incompreensível em dizer que se está doente e o que é que se tem. As pessoas sussurram quando falam do assunto, calam, escondem as doenças de que padecem.

      No nosso mundo rural, ninguém diz que está doente, pois uma doença nossa é considerada uma fraqueza que será explorada pelos outros. Essa tradição rural portuguesa mantem-se nos atuais portugueses urbanos, os quais na sua maior parte ainda são filhos de carroceiros das berças e ainda mantêm a correspondente postura cultural.

      E, como eu disse no meu primeiro comentário, há doenças que todos esconderão. Se uma mulher dirá sem dificuldade que foi ao ginecologista, um homem esconderá cuidadosamente que foi ao andrologista.

      1. Luís Lavoura, enquanto relativamente às doenças do foro psicológico observamos uma atitude colectiva relativamente uniforme, que é de negação e rejeição, no caso de outras maleitas temos de tudo, como na farmácia. E a propósito de farmácia: nunca assistiu, enquanto espera pela sua vez, a intermináveis conversas, às vezes com a descrição de pormenores que não desejava ouvir, sobre as doenças que afectam algumas das pessoas que se encontram no estabelecimento?

    2. Tem toda a razão, Carla. Tanta, que até fiquei com pena de ter passado ao lado dessa questão no meu post. A culpa tem um papel fulcral nesta rejeição dos problemas de saúde mental. Aliás, o sentimento de culpa começa por estar presente nos próprios pacientes, que se envergonham e autoflagelam por se terem “ido abaixo”.

    3. Na verdade, fraqueza mostram as pessoas que insistem que não têm nada e estão cheias de problemas (depressão, insónias, ataques de ansiedade, etc.). Insistem que estão bem porque têm medo de falar dos seus problemas. As que admitem que vão ao psicólogo parecem-me mais corajosas.

      Constatei algo interessante nestes comentários: as mulheres a mostrar compreensão para os males da alma e os homens a desdenhar. Quem é medroso, quem é?

  4. Isto de andar a arranjar doenças para a carcaça superior é um modismo. Pois é sabido que apanhados da cornadura somos todos nós.

    Contava-me um senhor de 70 anos que tinha ido ao médico. O médico depois de observar tensão, ritmo cardiaco etc. disse-lhe que queria fazer o toque rectal.
    E ele perguntou-lhe (ao médico) do que se tratava. Depois do médico explicar em que consistia a reacção foi esta:
    Você pensa que eu sou doido!? Venho aqui ao consultório, pago e ainda por cima quer colocar o dedo no meu c…!?

    É a única maneira! – responde o médico.
    Mas eu não sou de maneiras. Passe bem!

    Ora, onde já se viu uma coisa destas. Estes médicos julgam que um gajo é alguma galinha. Se querem ver se há ovos coloquem o dedo no c… deles.

    E eu concordo com o senhor. Que porra é esta!? Brincamos ou quê?

      1. Claro que sim, Teresa. Mas não estranhemos a reacção de um homem que entra num consultório e dá com um médico que pensa que está num aviário.
        🙂
        Isto não contribui em nada para a dignificação da classe.

        1. Vamos lá continuar com os psicodramas, Teresa.

          Trago-lhe aqui matéria para mais uma reflexãozita, esta:
          http://expresso.sapo.pt/mais-20-mil-criancas-com-doencas-psiquiatricas-num-ano=f869369

          Isto porquê? Porque parece-me que, enquanto sociedade, andamos mesmo apanhados da corneta. Aliás, sempre o fomos.
          Ora bem, não creio que que os psis resolvam esta matéria, porque isto é matéria de reflexão social e não de conversa de sofá. Qualquer acompanhamento que se faça destas situações é importante, mas não determinante. Porque funcionará meramente como um paliativo e é de todo previsível que os aspectos asfixiantes que conduzem a este estado se tornem recorrentes e continuem a evidenciar-se num ou noutro momento da vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *