Andar devagar e seguir pela sombra – sei que esta é a regra a que se deve obedecer para melhor enfrentar o calor quando se circula na rua. Sei, mas quase nunca aplico, mesmo quando tenho tempo. Prefiro acelerar e avançar em linha recta condicionada pela necessidade de manter o meu sistema regulado segundo os níveis de desgaste diário a que me habituei.
O mesmo posso dizer dos meus métodos de gestão de tempo, de espaço e de sono. São insatisfatórios, mas asseguram-me as doses de stress sem as quais não consigo viver. Se me afastar progressivamente dos níveis mais funcionais da existência, a consciência das minhas imperfeições pode tornar-se inquietante. Sobretudo porque à luz da nóvel cultura pop que nos ensina os postulados da pro-actividade através dos vigorosos cursos e livros de auto-ajuda, não há nada que não se possa corrigir, desde o comportamento à personalidade. Hoje, diz-se, podemos ser tudo o que quisermos, “basta lembrarmo-nos a tempo que temos de andar devagar e pela sombra”, dir-me-ia, todo sorrisos, um monitor de coaching, aproveitando o meu exemplo inicial (estes orientadores estudam até aos mais ínfimos pormenores as suas piadas espontâneas, numa demonstração eloquente de que tudo dá trabalho, até a espontaneidade).
Sim, se eu quisesse podia ser uma pessoa melhor, ganhando músculo nos aspectos em que posso brilhar e eliminando as gorduras que não me beneficiam, mas não há nada a fazer. Por causa desta minha inércia jamais me aproximarei de um modelo mais eficiente de comportamento. Falta-me ginásio.


Tu e eu. Além de ginásio falta-me muitas paciência para essas balelas da ‘nóvel cultura pop’.
Mas assim nunca seremos o máximo, seja lá o que isso for. Chatice.
Que chatice mesmo.
Tens muita razão, Teresa. Não há paciência para os arautos do “seja-muito-feliz-está-na-sua-mão”.
São os profissionais da felicidade. Pergunto-me como se comportam quando chegam a casa.
Agora também na versão economia: http://sol.sapo.pt/inicio/Economia/Inte rior.aspx?content_id=51031
Eheh! Pensei que tinhas linkado, por ironia, alguma declaração do género “desemprego é uma oportunidade”, mas afinal há mesmo o raio de uma economia da felicidade. É bom saber.
“Níveis de desgaste habituais”, para terminar em “inércia”. Suponho, então, que seja uma inércia em movimento, porque só assim podemos dizer que há desgaste. Deste modo a solução não será o ginásio, isso só vai acrescentar mais movimento e desgaste. A solução será abrandar, andar mais devagar, para ter mais tempo para descontrair.
Fique sabendo que a inércia pode ser muito desgastante, Bruno.
Grande texto, Teresa. Não convém ser-se perfeito (a perfeição está sobretaxada, apenas a mediocridade dá lucro) mas estiveste muito perto. Beijo