Psicobuilding


Teresa Ribeiro,

Andar devagar e seguir pela sombra – sei que esta é a regra a que se deve obedecer para melhor enfrentar o calor quando se circula na rua. Sei, mas quase nunca aplico, mesmo quando tenho tempo. Prefiro acelerar e avançar em linha recta condicionada pela necessidade de manter o meu sistema regulado segundo os níveis de desgaste diário a que me habituei.

O mesmo posso dizer dos meus métodos de gestão de tempo, de espaço e de sono. São insatisfatórios, mas asseguram-me as doses de stress sem as quais não consigo viver. Se me afastar progressivamente dos níveis mais funcionais da existência, a consciência das minhas imperfeições pode tornar-se inquietante. Sobretudo porque à luz da nóvel cultura pop que nos ensina os postulados da pro-actividade através dos vigorosos cursos e livros de auto-ajuda, não há nada que não se possa corrigir, desde o comportamento à personalidade. Hoje, diz-se, podemos ser tudo o que quisermos, “basta lembrarmo-nos a tempo que temos de andar devagar e pela sombra”, dir-me-ia, todo sorrisos, um monitor de coaching, aproveitando o meu exemplo inicial (estes orientadores estudam até aos mais ínfimos pormenores as suas piadas espontâneas, numa demonstração eloquente de que tudo dá trabalho, até a espontaneidade).

Sim, se eu quisesse podia ser uma pessoa melhor, ganhando músculo nos aspectos em que posso brilhar e eliminando as gorduras que não me beneficiam, mas não há nada a fazer. Por causa desta minha inércia jamais me aproximarei de um modelo mais eficiente de comportamento. Falta-me ginásio.

10 comentários em “Psicobuilding”

    1. Eheh! Pensei que tinhas linkado, por ironia, alguma declaração do género “desemprego é uma oportunidade”, mas afinal há mesmo o raio de uma economia da felicidade. É bom saber.

  1. “Níveis de desgaste habituais”, para terminar em “inércia”. Suponho, então, que seja uma inércia em movimento, porque só assim podemos dizer que há desgaste. Deste modo a solução não será o ginásio, isso só vai acrescentar mais movimento e desgaste. A solução será abrandar, andar mais devagar, para ter mais tempo para descontrair.

  2. Grande texto, Teresa. Não convém ser-se perfeito (a perfeição está sobretaxada, apenas a mediocridade dá lucro) mas estiveste muito perto. Beijo

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