PS, ético e republicano, trazemos-te as quotas dos que morreram há mais de um ano.


Rui Rocha,
 

Em Santa Marta de Ribaterme, no concello de As Neves (Pontevedra), sai à rua, a cada 29 de Julho, uma procissão em que desfilam caixões com pessoas vivas lá dentro. Trata-se de crentes que estiveram às portas da morte e que, por suposta intervenção de Santa Marta, terão trocado as voltas a um desfecho funesto mais do que previsível. Agradecidos, os familiares carregam os caixões e os respectivos inquilinos durante mais de uma hora. Entretanto, os ex-futuros defuntos, deitados no féretro, acenam regularmente para demonstrarem que estão bem. Ou abanam os leques para suportarem o calor. No percurso, os participantes entoam um cântico de agradecimento que dá ainda mais solenidade ao momento: Virgem de Santa Marta, estrela do norte, trazemos-te os que viram a morte. Estranho ritual dirão alguns. Pois não, a verdade é que não é tão estranho assim se o compararmos com tradições enraízadas noutras paragens. Em Braga, por exemplo, mortos de morte morrida ou matada, com certidão de óbito passada e reconhecida, têm já as quotas em dia e, acredita-se, depois de participarem nas eleições da Distrital, tudo farão para não perderem a possibilidade de votar nas primárias do PS a 28 de Setembro. Se num sufrágio normal os eleitores votam em urna, pelo visto nas eleições internas do PS levantam-se das urnas para irem votar. E o caso é que, de acordo com o artigo 3º do Regulamento Eleitoral, nas primárias do PS, para ter direito a voto, não é preciso estar vivo. Basta ser militante ou simpatizante. 

8 comentários em “PS, ético e republicano, trazemos-te as quotas dos que morreram há mais de um ano.”

  1. Rui, se quisesses fazer deste teu talento uma profissão, tiravas num instante o brilho a muitas estrelinhas da comédia que andam por aí. Mas isso já tu sabes, de certeza…

  2. Ora, defunto e bem defunto está o Tozé e também vai votar; só que não será em Braga mas antes (se calhar) em Penamacor.

    (E para que raio se vêem enormes placards por todo o lado a anunciar as primárias no PS? Terão alguma utilidade? E quanto custará aquilo?)

  3. Muito bom! Mas o trágico (porque a comédia é muita) é que nada acontece ou lhes acontece. Fosse este um país decente (e não sei se algum o é) e esses senhores já tinham sido devidamente expulsos do respectivo partido.

  4. Não sejam demasiado críticos, a realidade é o que é, e como não é exclusiva desta agremiação (vide o post «O padrão», de Sérgio de Almeida Correia, um pouco mais abaixo), a democracia (da pouca vergonha) acaba por se salvar.
    Para se manter um morto na condição de vivo nada melhor que a sufragação (existe esta palavra ou acabei de a criar no melhor espírito do Aborto Ortográfico?) por outros iguais, não acham?
    Só falta saber se para mandar o morto-vivo para o devido sítio – o cemitério ou o crematório (políticos, como é evidente, não desejo mal ao senhor) – o candidato opositor (sabe-se lá se à categoria de morto-vivo também) não se socorre igualmente de tão ilustres eleitores e de tão fecundos métodos.
    A notícia no JN parece-me omissa quanto a este aspecto (tê-la-ei lido demasiado à pressa), de contrário será caso para dizer: estão muito bem um para o outro.

  5. o post merece aplauso. já facto porque tem a a volta dum milhão de fantasmas e ninguem se dá ao trabalho dos limparem é que me entristece por significativo dos eleitores e partidos que temos . Como no caso das viagens fantasmas dos deputados calam-se porque para eles(todos os partidos) o que interessa são os seus interesses.

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