Mesmo que haja elementos do clero a afirmá-lo, o casamento católico não tem a procriação como finalidade, embora a confusão surja com frequência. O matrimónio tem em vista a consagração de uma família, de um agregado tão sólido quanto possível, para cuidar de quem possa vir ao mundo, consequência natural que não é necessariamente objectivo.
A família é, de resto, tão importante quanto todos nós lamentamos as crianças abandonadas e, por vezes, a morosidade dos processos de adopção. O que é que nos vem à cabeça perante esta realidade? Claro: a falta que faz uma família e as dificuldades a percorrer para que uma família disponível consiga acolher uma criança abandonada.
Clarificada de forma aligeirada aquela confusão, deixem-me que passe adiante, para o que realmente me traz aqui: o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não para discutir o tema, mas para estranhar a pressa. Do lado do mundo dito civilizado, quando olhamos os países subdesenvolvidos, o que é que nos ocorre? Por certo, não é lamentar a situação desses povos que, coitados, ainda não legalizaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Portugal está em apuros e os portugueses assistem ao agravamento dos problemas todos os dias. A situação está para durar e transmitir-se às gerações seguintes, enquanto cresce entre nós o mar de gente caída na desgraça. Afinal, o que faz correr o PS com tanta pressa para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
O que eu espero de quem nos governa é que trabalhe afincadamente para minorar os males que afligem o país. Mais: espero de quem nos governa que saiba hierarquizar esses males e que atue em conformidade. Neste quadro, confesso: quero lá saber se há umas pessoas a viver paixões amancebadas, enquanto tantas outras aguardam em vão a vez para regressar ao mercado de trabalho e conhecem a fome à medida que perdem todas as expectativas em relação ao futuro, perante uns poucos que enriquecem ilicitamente à custa de todos os outros.
Trabalhem para responder à razão por que foram eleitos e cuidem do que mais se espera. Sejam lúcidos e entendam que, na escala de importância, viver em concubinato está muito longe dos lugares cimeiros das preocupações nacionais. E deixem de se armar em comadres casamenteiras, mais metediças na vida privada de cada um do que solidárias pelo bem-estar de todos.

Concordo. Há coisas muito mais graves a tratar. Infelizmente, Sócrates pretende agravar tudo muito mais com os TGVs, Aeroportos e Auto-estradas para fazer favores a bancos e empreiteiros.
Sim, «para fazer favores a bancos e empreiteiros». E a concubinas e concubinos, para dar um ar de esquerda.
Eis um dos piores posts que li do João Carvalho.
Não porque seja politicamente incorrecto, mas pela forma aligeirada e sumária como aborda a família e o respectivo conceito.
Depois, e embora para mim também não seja uma prioridade o casamento entre pessoas do mesmo sexo, isso não me habilita a olhar a questão com desdém e a postergá-la.
Tudo pode ser compaginado e não é por causa do casamento gay que a corrupção continua a grassar, levando o seu raciocínio ao limite.
Na minha opinião, um post redutor e decepcionante.
Grato pela sua opinião.
1. Na primeira parte, abordei a família de modo sumário por não ser o tema central, mas apenas para desfazer uma confusão. Fui ligeiro, mas muito sério.
2. Concordo que «tudo pode ser compaginado», mas a gente já sabe o que por cá se gasta: começa-se por tratar de umas coisas que beneficiam uns quantos portugueses e continua sem se tratar, a adiar-se e a agravar-se aquilo que aflige realmente a maioria das pessoas, pelo que não há qualquer compaginação de facto.
3. Redutor e decepcionante, na minha opinião, é a incapacidade permanente para hierarquizar os assuntos por ordem de importância e urgência. Acrescento: o casamento entre pessoas do mesmo sexo pode ser polémico (e é, como se tem visto), mas o bem-estar das pessoas, o fim da pobreza, o desenvolvimento, etc., são temas aflitivos e que reunem consenso pleno. Veja-se, pois, a diferença.
Como deve calcular, estou convencido de que a esmagadora maioria das pessoas atribui uma ordem de importância a tudo isto que é muito semelhante à que expus. E tenho a certeza de que V. sabe disso, mesmo discordando. Portanto, encerro como abri: nunca contei que os meus pontos de vista fossem coincidentes com os demais, mas conceda que fui sério.
João Carvalho,
Nunca pus em causa a sua seriedade.
No entanto, o teor do seu post potencia, ainda que ( in ) voluntariamente, agregar um infindável rosário de insatisfações, legítimas, mas que atingem as fímbrias da demagogia, não porque tenha querido ser demagogo, mas que podem ser aproveitadas num sentido um tanto básico.
Exemplo do acabo de dizer são grande parte dos comentários subsequentes (em que se misturam alhos com bugalhos), por maior respeito que me mereçam…
Entendido. Mantenho, porém, que a importância das coisas anda muito desrespeitada. E não é de agora.
Parabéns! Um pouco de lucidez no assunto, tanto no primeiro parágrafo, que tem trazido alguma confusão, quanto nos seguintes.
Mas, s prioridades do governo e do país, pelos vistos, estão também algo confusas.
O mesmo nariz empinado, o mesmo dom da razão, e aquele arzinho de ditador com sorriso irónico, vem dizer que a prioridade é mesmo para o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Assim, ficamos todos esclarecidos: os que estão no fim da linha, no limiar da sobrevivência, terão de ficar para trás, como tantos outros assuntos vitais ao nosso crescimento ou a resolução do nosso endividamento. Enquanto uns se govam, outros são governados, sem direito a pronunciar-se.
Por vezes parece que é mais para resolver assuntos pessoais do que nacionais.
Queria dizer: enquanto uns se governam …
Peço desculpa pelo lapso.
Nem mais. Será que ninguém entende que só faz sentido agendar os temas chamados “fracturantes” – por norma, dirigidos a minorias (sem qualquer desprezo, mas minorias) – quando o essencial está minimamente equilibrado? Não é por acaso que as medidas sociais mais arrojadas e inovadoras tiveram o seu berço nos anos de ouro dos países ditos mais desenvolvidos, os nórdicos.
Olá João!
Antes de mais parabéns pelo excelente post que aqui nos trazes, com o qual estou 200% de acordo, ao contrário do James. Na verdade, acho uma perfeita idiotice o carácter de urgência dado ao agendamento deste tema que, em minha opinião, não é fracturante mas sim ‘facturante’. E é ‘facturante’ porque factura muito bem em termos do politicamente correcto e, essencialmente, quando se quer evitar a todo o custo escamotear os reais problemas que afligem o país e os portugueses. Num país com mais de 1/2 milhão de desempregados, com multidões de pessoas a passarem privações de toda a ordem, num país com um fosso entre ricos e pobres cada vez maior, a raiar as estatísticas dos países do 3º mundo, está-se mesmo a ver que o casamento homossexual é uma prioridade absoluta, não está? Sem nada ter contra isto, e até achando que, (dado que se trata de uma promessa eleitoral dos xuxas), eles têm a absoluta obrigação de a concretizar durante a presente legislatura, (coisa que, sem qualquer pejo, contudo, não fizeram durante a anterior em relação a outras matérias bem mais substanciais e importantes) a verdade, porém, é que me parece que ninguém com uma dose razoável de senso comum (já nem falo em bom senso), possa considerar esta matéria como muito importante e, muito menos, com a urgência que lhe tem vindo a ser colada. Isto é o que se chama em bom português, querer tapar o sol com uma peneira. É relativamente importante, é, e não, não tem urgência alguma face aos enormes problemas que afectam o país neste momento. A não ser que alguém do próprio governo esteja ansioso por vir a ser um dos primeiros a inaugurar o altar dos cônjuges do mesmo ‘género’…
Muito bem dito, Luis. Exactamente como eu dizia acima, parece que é mais para resolver alguns assuntos pessoais e bem prementes.
Parece, pela urgência!
Ainda bem que o dizes, Luís. A perspectiva do lado mais ‘facturante’ do que fracturante está muito bem observada.
Pois é, João Carvalho, tem toda a razão.
A família- essa célula serôdia e descartável -, é um absoluto não valor para estes seres que nos governam.
– Parece um espinho cravado, não é?
Curiosíssimo.
Pois é, Chloé. Enquanto adiam as vidas dramáticas de muitos milhares de famílias, cuidam de transformar em famílias umas dezenas de casos de concubinato.
Caro João, para ser franca este não é um tema que mereça a minha particular atenção ou preocupação. Dito isto, os seus argumentos não me parecem razoáveis. Não se trata de ter muita ou pouca pressa. Se o partido do governo colocou o assunto no seu programa eleitoral para esta legislatura, é natural que a queira resolver. As vozes que se levantam contra, arranjaram um artifício de argumentação na tentativa de conseguirem baralhar o dados da questão, porque no fundo o que pretendem é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não seja aprovado. Mais vale dizerem que estão contra e pronto, é a sua posição absolutamente legítima. Mas argumentar com a falta de oportunidade é que não me parece razoável.
Pois, Ariel. Porém, estou-me nas tintas para o que o PS colocou no seu programa, porque já colocou muitas coisas que não cumpriu e hão-de estar lá outras tantas que jamais cumprirá. E estou-me também nas tintas para os possíveis subterfúgios de quem está contra e não o confessa.
O meu ponto é muito simples: a importância e urgência dos assuntos que competem a quem legisla e a quem governa devem ter uma hierarquia. Entendo que esta continua a ser pervertida e é isto que merece a minha particular atenção e preocupação.
foi o que disseram às sufragista em plena 1ª Guerra Mundial. Se calhar até é melhor despachar o assunto, não acha ? já fomos a votos a 27 de Setembro , vamos a votos na assembleia e já está .
Trata-se ainda e só de uma questão de prioridades.
O governo colocou o assunto no seu programa eleitoral, como colocou na primeira legislatura centenas de outros que nunca cumpriu e onde nem sequer tocou ainda.
Será que é só este que vai conseguir cumprir e servir de bandeira? E afinal, que prioridades são estas? Mais importante que a saúde, a educação, as reformas, o endividamento, as obras públicas, a justiça, a corrupçãp?
Ora ….
O casamento há dez anos era uma coisa ultrapassada.
Quantas vezes ouvimos dizer ‘é só um papel…’ ?
Continuo a achar que o meu casamento, o dos meus pais, dos meus avós, não é igual a um casamento gay. Não estou a dizer que é melhor nem pior, é diferente! Porque será que não respeitam o meu direito à diferença?
Há outros temas fracturantes em que ninguém pega e que também não resolveriam a actual situação do país, como é o caso da legalização da prostituição. Talvez o PS e restante esquerda progressista não saibam que prostituição em Portugal.
É isso mesmo, Paulo. Pegou-lhe bem: o casamento estava fora de moda no passado recente e agora já é uma urgência quando o País está em pantanas.
João, tml
Se tiver um minuto, e sobre o mesmo assunto, veja se concorda com isto:
http://vilaforte.blogs.sapo.pt/329020.h
Obrigado
Caro João, o seu conceito de governação por hierarquização de problemas não colhe minimamente. É o equivalente a dizer que numa casa não se vai pendurar o quadro que ali está a um canto enquanto não se tiver dinheiro para se fazer a pintura da casa.
O conceito de hierarquização só faz sentido em problemas que consumam recursos e, portanto, sejam concorrentes entre si. Um aeroporto ou um TGV, por exemplo. Obras públicas ou subsídios às empresas, ou aos bancos ou aos trabalhadores. Reforma da justiça ou das finanças, talvez.
O casamento de pessoas do mesmo sexo não consome recursos a ninguém. Apresentam-se os projectos-lei, vota-se a lei e, se for aprovada, é implementada pelas conservatórias após a promulgação pelo Presidnte da República. Não consome nada de especial.
Se não gosta do conceito diga-o. Discordarei (se for esse o caso) de si, mas é uma posição muito mais correcta que esta, de fugir com o rabo à seringa.
PS – para muitas pessoas, esta é uma situação extremamente importante. Para outras será encontrar emprego. Um Estado tem que trabalhar para todas. Não lhes negue o direito à felicidade.
PPS – o conceito que devemos esperar pelos outros países é o argumento mais disparatado que já o vi usar aqui no Delito.
Meu caro, a sua prezada presença regular já deve ter dado para perceber que «fugir com o rabo à seringa» não faz bem o meu tipo.
Percebi a sua ideia e estava justamente à espera de algo assim, mas não se esqueça dos recursos envolvidos: estratégias, políticas, legislação e muito trabalhinho para minorar os grandes males que estão a minorar o país, trocados por acesos debates sobre temas fracturantes que ocupam muito e apenas servem a umas quantas pessoas.
Com sua licença, defendo que se ocupem com o que é realmente importante e não comecem por polémicas que desgastam e não têm resultados úteis para o drama da esmagadora maioria dos portugueses. Ainda por cima, dão a triste ideia de que estes, a maioria, podem esperar.
Hierarquizar é também ter o sentido da oportunidade e não apenas a disponibilidade, certo? Se as paredes da casa estiverem a cair, não faz sentido pendurar mais um quadro…
É isso mesmo João André.Faço minhas as suas palavras.
Tanta rotunda, para coisa nenhuma.
Que diga,João Carvalho, frontalmente se é contra ou a favor isso nada tem que ver com prioridades.
Pareceu uma pega de sernelha…com o devido respeito.
Pois é: gostava de dizer-lhe se sou contra ou a favor. Só não digo porque não é prioritário.
Um não argumento,estamos entendidos.
Um não parecer é um parecer, em linguagem juridica….
Dar um não-parecer é responder ao pedido de um parecer. Logo, é juridicamente um parecer.
Eu dei coisa nenhuma. Apenas não respondi.
Intrometendo-me, o Pedro Oliveira tem razão.
Os actos silentes têm o seu valor…
Fico siderado com tanta perspicácia…
E não é que, no geral, estou de acordo com o seu texto?
Nem sei como. Vá lá… desta vez, safei-me…
eu acho que o tema é prioritário, mas também acho que o PS o coloca na agenda de forma estrategica. Antevendo um debate duro quanto ao OE e ao Programa de Governo, o PS atira uma cenoura à esquerda, especialmente à esquerda do BE, para minimizar danos por eventuais acordos à direita.
E acho que a medida é prioritária, porque? Porque é uma questao de dignidade humana a possibilidade por parte da comunidade homossexual de verem a sua uniao ser reconhecida sem apelos nem agravos. De facto, quando a discussao das unioes de facto se iniciou por iniciativa do BE, os movimentos sociais homossexuais ficaram um pouco espantados visto que nao era sequer uma reivindicaçao que tivessem. O casamento sempre foi o seu objectivo, assim como a possibilidade de adoptar.
Basicamente, a luta das associaçoes homossexuais resume-se à configuraçao de direitos que tornariam que todos fossemos tratados perante a lei como iguais, independentemente do sexo da pessoa com que dormimos. E isso a mim parece-me prioritário.
Meu caro Rafael, tem toda a legitimidade para entender que o assunto é prioritário. Não é a minha opinião, porque a «questão da dignidade humana» que V. refere abrange áreas tão vastas como a pobreza, a fome, o desemprego, as dívidas, a perda de habitação, a falta de expectativas, etc.; bem mais vastas, infelizmente, do que a abrangida por este tema, que é dedicado a um número muito reduzido de pessoas.
Parece-me evidente que o PS usa esta bandeira como estratégia, sim. Mas isso pode tornar o caso ainda mais revoltante, porque subverte quaisquer boas intenções aos pequenos interesses, enquanto a governação a sério é adiada.
admito posiçoes discordantes da minha, mas creio que é um direito básico que precisa ser confirmado. Exige esforço financeiro? nao Morosidade burocratica ou legislativa? nao. Interfere de algum modo com as questoes que colocou? creio que nao.
Nao percebi ainda muito bem esse argumento de que o combate à pobreza, à exclusao social, ao desemprego é afectado pela legalizaçao do casamento homssexual, poderia esclarecer-me? é que nao vejo mesmo nada…
Simples. Por um lado, ocupa um espaço que devia ser dedicado ao que está a afectar dramaticamente a maoria do país. Por outro, é quase uma provocação, ao deixar para trás a agenda económica e tudo o que é mais premente.
Tal e qualmente. Falou e disse (só agora te li 🙂 )
Ainda bem.
… e que sejam muito felizes!
Já foi muito bem comentado pelo que me desculpará esta ligeireza… [A estas horas, não dá para mais]
:))
Obrigado, Maria. E durma bem…