1. Faz bem Pedro Passos Coelho em não revelar pressa em enfrentar eleições. A última coisa de que Portugal precisa é de uma crise política que se some à grave crise económica. José Socrates, que é especialista em vitimizar-se, adoraria que algum partido da oposição precipitasse a queda do Governo com algo semelhante à moção de censura do defunto PRD que em 1987 escancarou as portas à primeira maioria absoluta de Cavaco Silva. A prioridade do novo líder do PSD, nesta fase imediata, é arrumar a casa. Os sucessivos apelos à unidade que têm vindo a ser expressos no congresso de Carcavelos não ocultam as profundas clivagens existentes no partido. Santana Lopes, Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e Manuela Ferreira Leite não souberam ou não puderam congregar os militantes: por erros próprios e alheios, todos acabaram por ser vítimas do clima de guerra civil em que os sociais-democratas vivem mergulhados há mais de uma década. Sem a casa arrumada, sem um esforço permanente de travar esta tendência que o PSD tem de dar tiros contínuos nos próprios pés, a construção de qualquer alternativa viável ao poder socialista está condenada ao fracasso.
2. A unidade não se constrói com palavras, mas com actos. E nesse aspecto, que constitui outra prioridade estratégica, Passos Coelho já deu abundantes sinais de que não repetirá os erros cometidos por anteriores direcções do partido. Importante foi ter Paulo Rangel do seu lado, com o convite feito ao ex-rival para liderar a lista que patrocina para o Conselho Nacional, tal como o convite endereçado – e logo aceite – a José Pedro Aguiar-Branco para chefiar a equipa encarregada de promover alterações ao programa do partido. São actos ainda insuficientes mas que apontam na direcção correcta.
3. Outra prioridade que decorre do mais elementar bom senso: o PSD deve abandonar rapidamente os ataques pessoais a José Sócrates em que se especializou nos últimos dois anos. Essa é forma mais ineficaz de produzir resultados políticos em Portugal. Sócrates deve ser criticado pelo incumprimento das promessas eleitorais, pelo descontrolo das contas públicas e pela insensibilidade social que vem revelando, como ficou bem patente no Programa de Estabilidade e Crescimento que o Governo apresentou em Bruxelas. O terreno das críticas ao primeiro-ministro deve ser sempre o da política. Sem perder de vista que o adversário dos sociais-democratas não é José Sócrates himself mas o Partido Socialista. Parece uma irrelevância, mas não é. Os líderes passam, mas os partidos perduram. E a batalha das ideias é sempre mais importante do que qualquer fulanização, óptima para fabricar as manchetes do dia seguinte mas péssima para a credibilidade de que o PSD tanto carece e para a maturidade de que tanto precisa.


Sábios conselhos, Pedro. É óbvio que para derrotar o Partido Socialista não chega criar sucessivos casos, pouco consistentes, que se dissipam na espuma das notícias, para serem repescados quando isso for da conveniência das agendas noticiosas. Estou de acordo contigo de que a política portuguesa se vai fazendo da fulanização, de quem tem ideias próprias sobre tudo e mais alguma coisa (basta ver como estes congressos partidários se resumem a um desfilar de banalidades com um rosto por cima), menos de ideias com alguma densidade ideológica e seriedade intelectual, que permitam um verdadeiro separar das águas e das opções de formas de governo.
O que se perfila no “novo” PSD não augura, para já, essa almejada renovação das pessoas, nem das ideias. Daí, que o título que eu daria ao teu comentário e ao seu natural destinatário seja o que que figura logo no post seguinte . “You´ve got a friend”!
Obrigado pelas tuas palavras amigas, Rui.
Um grande abraço.
O adversário seria o partido e não o seu “leader “, se o que estivesse em luta fosse a ideologia e não a ambição do poder. E quem os tolhe de lá chegar é o Sócrates, com a sua boa imagem, verve fácil e boa preparação.
«Boa imagem, verve fácil e boa preparação», José? Só se for o que ele teima em treinar ao espelho. Acha que alguém ainda quer saber de Sócrates?
Acho que sim. Em Portugal ou se está com ele ou contra ele. Ninguém lhe fica indiferente. Não me lembro de alguém ter sido tão atacado e por tanto tempo. Nem o Mário Soares após a descolonização.
Deixe-me actualizá-lo, José: já ninguém quer saber de Sócrates.
Boa reflexão. Os dois primeiros pontos focam a realidade que o PSD não deve escamotear e o terceiro aponta o que o partido deve ter como essencial.
É bom que não esteja próxima, mas a batalha eleitoral há-de chegar e os sociais-democratas precisam de estar preparados. Devem começar a concentrar-se desde já no fundamental para reunir e treinar a artilharia, em lugar de andar a praticar tiro ao alvo em barraquinhas de feira.
O lado mau é verificar que alguns têm dificuldade em entender o que tem de mudar e ainda preferem ranger os dentes. O lado bom é que outros já escolheram pôr-se a milhas da mudança e não parece que tenham arrastado tropas com eles. Logo se verá. Nunca o País precisou tanto de uma oposição capaz.
É exactamente como dizes, compadre. Nunca o País precisou tanto de uma oposição capaz.