Primeiro assassinam a Restauração, depois o património que não lhes pertence


Sérgio de Almeida Correia,

18566415_SCaTU[1].jpg

 

O relato da Agência Lusa, transmitido para vários órgãos de comunicação social, entre os quais a TSF, sobre o que se passou com a elaboração da acta relativa à XIV Conferência de Ministros da Justiça da CPLP, designadamente sobre o desacordo final (quem diria!) quanto à sua redacção e a escolha da grafia “oficial”, representa, lamentavelmente, bem mais do que aquilo que à primeira vista possa parecer. À partida não está em causa, apenas, uma simples discordância sobre a forma de grafar um termo com um sentido comum a todos os países lusófonos. Uma acta é um documento em que se descreve e regista aquilo que de relevante se passa numa reunião. Em causa está, desde logo, por simples falta de vistas, teimosia, estupidez e ausência de sentido de Estado, digo eu, mais um acto (com “c”) de desprezo para com Portugal – leia-se o seu poder político legítimo – por parte dos seus pares na CPLP.

O simples facto de todos os funcionários públicos em geral, os militares, os magistrados e os diplomatas, como servidores públicos que são, serem obrigados a cumprir com todas as instruções que um poder político que não sabe conjugar o verbo haver lhes dita, conformando-se com o que de mais tolo e contra a natureza das coisas lhes é imposto, já de si seria triste. Que numa matéria como a da língua se chegue perante os demais Estados que compõem a CPLP a passar por um tão grande absurdo, sujeitando-se um ministro da Justiça de um Estado soberano desde a Conferência de Zamora, em 1143, a ter de ouvir o que, com toda a razão, lhe foi recordado pelo representante de Angola, assume contornos de humilhação política. Era perfeitamente evitável que Portugal tivesse de passar pela situação de lhe ser recordado que o Acordo Ortográfico não foi ratificado por Angola, também ele um estado soberano lusófono, não podendo por isso mesmo ser utilizado no documento em questão. Esse já não foi um acto de humilhação do País e de desprezo pelo seu poder político. Aí, e isso é que é mais grave, é já a própria língua portuguesa, aquela que recebemos dos que nos precederam e que os angolanos agora defendem, que está a ser objecto de humilhação e chicana com a conivência do Governo português.

A notícia da Lusa não nos diz qual terá sido o papel do representante de Portugal nesta contenda. Nem se ao representante da Guiné-Equatorial, um novo Estado “lusófono” ditado pela mais mercenária e subserviente “diplomacia económica”, por algum momento passou pela cabeça apontar a solução castelhana de se utilizar o substantivo feminino “acta” (do latim acta) para resolver a disputa que culminaria com a caricata, mas salvadora solução de compromisso proposta por Cabo Verde e que serviu para evitar maior vergonha, de se usar num texto internacional a grafia do novo Acordo Ortográfico “como base e, em cada caso, a grafia pré-Acordo Ortográfico, entre parêntesis“, numa verdadeira salganhada linguística da qual só Portugal sai mal.

Quando numa cimeira entre Estados lusófonos se chega à situação de que a Lusa dá conta, talvez seja este o momento de se voltar a perguntar aos que em Portugal, à viva força e contra todas as evidências, se afadigaram a impor o (des)Acordo Ortográfico de 1990, se a solução a que se chegou não recomenda um apelo à inteligência e ao bom senso, antes que este tipo de danos, que não são colaterais, se multiplique.  Para vergonha de todos os cidadãos que em todo o Mundo se expressam na língua que lhes é mais querida, naquela que lhes revela os afectos, as paixões e as lágrimas da saudade, e que os torna dignos da herança daqueles que, como Vasco Graça Moura ou Maria Lúcia Lepecki, dedicaram toda uma vida a lutar pela divulgação e pela dignidade do único e verdadeiro património que a História nos legou.

Património que ao longo dos séculos permitiu a convivência – e o amor – entre povos das mais diversas origens, ultrapassando as suas minúsculas fronteiras naturais para se enraizar mundo fora sem que para tal se trocassem os substantivos pelas formas verbais. Tudo bem longe da paupérrima visão e dos despachos da casta de amanuenses que há séculos ocupou o Terreiro do Paço, convencida de que a decência e a respeitabilidade de uma nação milenar se compram com euros, submarinos, computadores e bandeiras chinesas na lapela dos casacos.

0 comentários em “Primeiro assassinam a Restauração, depois o património que não lhes pertence”

  1. É uma humilhação bem merecida para o Regime saído do 25 de Abril que julga que pode mandar em tudo. Até na lingua.

    O que nos salva são 800 anos de cultura que vá lá ainda impede outros abusos totalitários de muitos nas jotas e nas universidades que julgam que têm o direito de mudar um país contra vontade.

  2. Concordo, e faço como minha crítica geral à actual governação PSD/CDS o que se reproduz:

    “Creio que o sistema partidário está profundamente doente. Acho que o CDS devia ser um sinal de diferença para melhor. Infelizmente, é para pior. Tem um fraquíssimo funcionamento interno, não há participação, vivemos em plena ‘consumadócracia’. Quem andou em campanhas, ouviu várias vezes ‘vai trabalhar, palhaço!’. Eu ouvi. Não é coisa que me incomode. Mas já me incomoda sentir que sou um palhaço, isso já me incomoda”, afirmou, lamentando não conseguir representar o seu eleitorado conforme acha melhor.

    O antigo eurodeputado avançou mesmo o título de um seu futuro artigo – “o dia em que o CDS morreu” -, referindo-se à forma como foi anunciada a comissão política nacional da coligação “Portugal à Frente” (PSD/CDS-PP), da qual “ninguém sabe como foram nomeados ou eleitos os seus membros”. Para Ribeiro e Castro, “a democracia é cada vez mais de teatrinho e despida de substância”.

    “Estou desapontado com o meu próprio campo político, que devia ter produzido respostas há mais tempo, quer em termos da coligação, mas também nas presidenciais. Os suspeitos do costume, que há muitos anos diziam estar a preparar-se, nenhum se apresentou. Há uma série de bailes, arremedos táticos, esperas, calculismos. É um sinal de esgotamento do sistema”.

    O original aqui:
    http://expresso.sapo.pt/politica/2015-06-23-Ribeiro-e-Castro-abandona-o-Parlamento-para-ser-livre-como-um-passarinho-de-um-sistema-doente

    Por último, a única maneira de curar os doentes e começar a tratar as doenças por estes transmitidas é votar em todos menos neles.
    Ter carácter é também ter memória de tudo quando foi por eles anunciado e não cumprido e realizado. Já não é só a questão do acordo, mas de todo o desacordo que foi pronunciado por esta maleita (des)governativa.

      1. Sim, Sérgio, atravessa.

        Mas já o rei gentio Agamenão dizia: “Qui non vetate peccare cum possit jubet. Isto é: quem, podendo, não impede o pecado ordena-o.

        Significa isto que o que Ribeiro e Castro refere sobre a “consumadócracia” aplica-se a este desgoverno, em particular ao seus mentores e apoiantes parlamentares. Eles estão aí para melhorar o que quer que seja. Eles surgem aproveitando o “golpe de mão” dado ao governo Sócrates, que foi bem dado, para se manterem nos mesmos carris e provarem à população que para além das contas e planos da troika a única coisa que sabem fazer é ir além desta em todo o seu plano.

        E vemos aqui o resultado:
        “O número de jovens que afirma sentir fome por não ter comida em casa aumentou em 2014, segundo um estudo que revela ainda que quase todos apresentam algum tipo de problema nutricional.
        O estudo “Health Behaviour in School-aged Children” (HBSC) realizado em Portugal para a Organização Mundial de Saúde, inquiriu 6.026 alunos dos 6.º, 8.º e 10.º anos de escolas de todo o país.
        Entre os comportamentos que apresentam alterações ao longo dos últimos anos, destaca-se o “sentir fome por falta de comida em casa”, um fenómeno que aumentou em 2014, depois de se ter mantido estável desde 2006.”

        O original aqui:
        http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/alimentacao/aumenta-o-numero-de-jovens-com-fome-por-falta-de-comida-em-casa

        e mais aqui:
        http://www.cmjornal.xl.pt/cm_ao_minuto/detalhe/aumenta_numero_de_jovens_que_sentem_fome_por_falta_de_comida_em_casa___estudo.HTML

        Mas também no jornal do Luxemburgo:
        http://jornaldoluxemburgo.com/aumenta-numero-de-jovens-que-sentem-fome-por-falta-de-comida-em-casa/

        Os emigrantes portugueses estão certamente “orgulhosos” de pertencer a uma nação que tem governantes capaz de fazer tal obra. Que pensem bem no momento de votar.

  3. Uma vergonha, este desacordo ortográfico. Que nenhum intelectual português credível perfilha. Que o mundo lusófono ignora ou despreza. E que a esmagadora maioria dos portugueses rejeita.
    Deve-se a um triunvirato composto por Cavaco Silva, Santana Lopes e José Sócrates. Podem limpar as mãos à parede. Os principais responsáveis são estes três.

  4. Pergunta: antes do Acordo Ortográfico, como é que a coisa era feita? Já então existiam duas grafias (a brasileira, e a dos restantes países) do português. Faziam-se duas atas? Ou só se fazia uma?
    Pergunta complementar: qual a diferença entre o procedimento atual (fazer duas atas) e o procedimento pré-AO? Se não há diferença, qual a razão de tanta conversa?

    1. Deixemos de lado questões como a inevitavelmente acrescida confusão – a ser desta ordem o seu argumentário – da existência então, presentemente e pelo seu raciocínio, de três versões de um documento onde anteriormente apenas existiriam duas. Deixemos de lado isso e o facto de até agora existirem duas variantes da língua portuguesa desenvolvidas e sedimentadas e que alguns pretendem agora afastar em nome de uma salganhada que promove precisamente o oposto do que pretende consagrar (sendo isso que pretende consagrar um verdadeira inutilidade e impossibilidade; uma visão delirante, ou a sê-lo fora de um âmbito patológico , um crime).

      Fiquemos apenas pela breve lição de Direito ministrada por algumas ex-colónias à antiga potência colonial – tão mais humilhante quanto o direito desses países se funda apreciavelmente no do antigo colonizador, onde se formaram e formam ainda alguns dos seus quadros (desgraçadamente com bibliografia cada vez mais em acordês , será de temer), e se trata aqui de questão de direito internacional – a propósito da questão da ratificação de tratados.

      Mas, como se escreve no texto que comentamos, que interessa isso ao bando de amanuenses que manda nisto? E estará muito bem: um mando de amanuenses pastoreando um país de trolhas. Sob o aplauso de gente como o Lavoura.

      Costa

    2. Fazer como os norte-americanos e os ingleses. Como é que eles fazem? Escrevem “center” ou “centre”?
      Parece que nunca levantaram o problema. As diferenças de escrita não são um problema. Os Estados Unidos, tal como a ONU, em caso de dúvida seguem o “Oxford spelling”.
      Países atrasados.

  5. Portugal e Brasil acabam de reconhecer implícita, mas oficialmente, em Dili, que o acordo não está em vigor. Não apenas em Angola, Moçambique e Guiné, mas em todos os países que assinaram o texto do tratado em Dezembro de 1990 (em Portugal a mando de Cavaco Silva – o tal que diz “cidadões”).
    Na verdade, na tese de Portugal e Brasil (a de que o chamado “2º protocolo” é válido ao mudar a exigência da unanimidade para passar a exigir as ratificações de apenas 3 países -ratificações e assinatura são coisas diferentes e nenhum país, ao assinar um tratado fica obrigado a ratificá-lo – para a entrada em vigor) o acordo teria de estar, também, e forçosamente a vigorar em Angola e Moçambique! Ou está em vigor para todos, ou não está em lado nenhum: o efeito do chamado “2º protocolo”, se fosse válido, por exigir apenas as 3 ratificações, seria esse mesmo – tornar irrelevantes as ratificações de Angola e Moçambique, ou qualquer uma, além da 3ª…
    Acontece, porém, que Portugal e Brasil acabam de reconhecer que a golpada é isso mesmo: uma golpada que não prevalece perante o direito e que a regra da unanimidade não foi validamente alterada. Ouviram e calaram ,oficialmente, e em Direito Internacional é tudo!
    Para consumo interno: o estado português não tem a mínima base legal para tentar impor o “acordês” em Portugal.
    Uma nota: a resolução do governo Sócrates que impõe- ilegalíssimamente – o acordês na administração pública – não é aplicável aos magistrados. Aliás, essas resoluções apenas provam que os Angola, Moçambique e Guiné têm razão: se o acordo estivesse em vigor, simplesmente não seria necessária qualquer resoluçãopara ter de ser acatado por todos os órgãos do estado.
    O estado português tem-se dedicado àquele infeliz desporto que consiste em fazer dos outros parvos e a fazer do estado de direito um conceito oco.

    1. Não vejo nenhum jornal ou jornalista interessado em determinar quanto custou até agora em custos directos e indirectos o Desacordo Ortográfico.

      Veja-se o bias:

      Quando o Estado compra uns helicopteros ou submarinos o título dos jornais é invariávelmente o valor da compra. E vem sempre o valor da compra em qualquer notícia. Sobre o acordo ortográfico ou e em muitas outras compras nada vi.

  6. Caro Luiz Lavora
    És u típico lambe-botas: nãu interessa u que u chefe quer, tamus cá para satisfazer us desejus du chefe…
    Pergunta: como é que tu escrevias «acta» entre 1991 e 2008?
    Tu continuaste a escrever segundo a ortografia de 1945, aquela que te ensinaram. Basta ler tudo aquilo que escreveste durante aquelas duas datas. Precisaste de uma ordem ditatorial para encontrares a coragem de escrever como o babaca marteleiro pretende que se escreva. Omem de curajem!
    Pergunta conplementar: não seria mais fácil e de accôrdo com a phonética se escrevessemos «omem» e «curajem»? E porque razão «complementar» tem um «m» antes do «p»? Isso é tão confuso para as crianças! Vez? «Confuso» tem um «n» antes do «f». O mesmo som e graphias diferentes. Como é que se explica isso a uma criança de 6-7 anos? Talvez, se escrevessemos «comphuso”…
    Boas pedaladas.

  7. A regra nestas reuniões é sempre usar a ortografia do país que acolhe a reunião.
    Desta vez um ministro angolano achou que não podia ser como foi sempre.
    Mais ainda, o Ministro não sabe quando é que ata é forma do verbo atar ou o registo de uma reunião.
    Já se pode imaginar as dificuldades entendimento do Ministro com textos ou conversas que incluam, por exemplo, estas outras homógrafas: serão/serão, acordo/acordo, fora/fora, vela/vela, gema/gema e muitas outras.
    A avaliar pelos níveis de conhecimento sobre ortografia exibidos pelo ministro angolano, provavelmente ele imagina que também aquelas homógrafas apareceram com o AO90, porque antes do AO90 não havia homógrafas em Português.
    Em circunstâncias normais haveria apenas que dizer que o Ministro angolano é pouco inteligente e muito nhurro. Mas isso seria em circunstâncias normais, e circunstâncias normais é coisa que incompatível com anormalidade da caturrice anti-AO.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *