Se eu fosse, mas não sou, prudente, não diria nada sobre as negociações em torno do Orçamento porque como está com mais uns retoques pode ser aprovado, mas também pode ser reprovado, ninguém sabe que Orçamento será executado em caso de aprovação, a peça de teatro que se desenvolve no Parlamento é apenas uma parte do processo de aprovação ou reprovação e, verdadeiramente, o calculismo costiano e o do PCP e do PS é que são as pedras de toque do desenlace, não o Orçamento em si.
Este é mais uma centenice, ou marcelice se se quiser (a da evolução na continuidade que o padrinho cunhou, não dos balbuciares atarantados do afilhado), com um aluno, Leão, que apreendeu os truques e alçapões do mestre, Centeno, mas sem lhe herdar a, já de si não muito abundante, habilidade retórica. Quase ninguém tem muitas dúvidas de que o deslizar para os últimos lugares do desenvolvimento na Europa (que ela própria não cessa de perder lugares no mundo, uma decadência que é a consequência necessária do seu inverno demográfico associado à gestão socialista da UE), o avolumar da dívida cujo serviço explodirá no dia em que o BCE não puder mais sustentar os países do calote potencial, a exportação de trabalhadores adequadamente formados para enriquecer outras economias, a obesidade do Estado, que surge como regulador em todas as esquinas da vida, a fiscalidade demencial, o crescimento exangue e um longo e ominoso etc. – serão as heranças que deixará a bonomia de Costa e o seu cansado mantra das apostas na educação, na formação, na descarbonização, na economia circular, na promoção disto e daquilo, nas contas sãs (que interpreta como um equilíbrio falsificado para Comissão Europeia ver, enquanto vai deixando em ruínas o Estado Social e o SNS com o qual comprou, a crédito, votos), e no lero-lero de quanta tolice anda no ar da moda da gestão socialista.
Paulo Portas, que não consta tenha um par de asas nas costas, aventava que talvez o rotundo estadista tenha na ideia ir para eleições para não ter de as disputar noutra maré menos favorável, isto numa altura (Domingo passado) em que todo o analista garantia que o Orçamento passava.
Entretanto, o preço do combustível disparou e o eleitor mexe-se, incomodado. Há em Portugal bem mais de 5 milhões de automóveis ligeiros e por isso a retórica dos ricos que paguem a crise, desta vez, não cola, porque não há 5 milhões de ricos. Depois, começa a instalar-se a suspeita de que o optimismo militante de Marcelo, que toda a gente leva à conta de feitio, talvez seja defeito; e que a Oposição dita de direita, num ponto e noutro, terá alguma razão. Os preços nas praças e no supermercado estão-se a começar a mexer, e a paciência para a sofreguidão da famiglia socialista, sentada como em casa própria à mesa do Orçamento, está a erodir-se.
Daí que no Domingo passado tendesse a concordar com Portas, mas a novela grotesca em torno do preço do gasóleo (uau, o trabalhador vai receber, depois de um calvário burocrático, um reembolso de 5 Euros por mês, e a isto o jornalismo chama, sem se rir, uma medida) e a cabeça perdida de Costa, que passou a semana a espadeirar com uma lista repugnante de cedências a Catarina e ao bom do Jerónimo, convenceram-me do contrário: o homem não quer ir embora, porque não tem para onde ir, não quer eleições porque acha que não se consegue livrar da necessidade daquelas luminárias ancilares ainda mais esquerdosas do que ele, e não encara entendimentos com o PSD porque deixou passar essa oportunidade (talvez Rio seja o dirigente mais parecido com um socialista médio que o PSD alguma vez teve) e, de todo o modo, António Costa sempre foi um táctico brilhante mas tem um nucleozinho de convicções duras, e não particularmente lúcidas nem inteligentes, que consistem nisto: a esquerda é o que convém ao país, o PS o que convém à esquerda, e a direita tolera-se em nome da democracia, que com ela, porém, fica em estado de intolerável imperfeição. O pobre homem reza a estas coisas.
Hoje, normalmente, o assunto já deveria estar encerrado. Não está porque comunistas lúcidos (são lúcidos no mesmo sentido em que há psicopatas com discursos coerentes) acham que* o negócio da troca do apoio por cedências no aparelho de Estado e na armadura legislativa está esgotado e teve um preço eleitoral demasiado alto. O muito que Costa já cedeu tem como limite as baias da tolerância europeia (o Orçamento deve dar a impressão de que a dívida se vai reduzir por via do crescimento) e a sua intuição de que uma capitulação total se voltaria contra ele. Como com menos consistência e mais lirismo o clube de frei Anacleto Louçã não navega em águas muito diferentes temos que o Orçamento não vai, provavelmente, passar.
Se não passar, aos actores políticos incharão as cordoveias do pescoço, de tanto gritarem, a classe jornalística esfarrapar-se-á em cenários e prognósticos e a opinião pública, pávida, será induzida a pensar que a inflação que regressa, o conflito social que se vai acentuar e o berreiro dos comunistas sem e dos com acne são consequência da instabilidade política, uma tese que o próprio Marcelo, com a sua característica curteza de vistas, decerto subscreverá.
Mas não são. Os governos pós-troica ocuparam-se a reverter o módico de reformas daquela época e a instalar um modelo de desenvolvimento (peço desculpa pela expressão) tributário do longo catálogo de patetices intervencionistas que os socialistas de todos os bordos subscrevem, no caso agravadas pelo contributo das excrescências venezuelanas do PCP e do Bloco. E não fora a UE e sobretudo O BCE o diabo, que tanta gente disse que ia chegar (e eu entre os mais) já cá estaria.
Já cá está, parece-me, mas ainda não se vê bem a sua cabeçorra hedionda. Se estiver enganado, porém, o futuro próximo também não será exaltante: é o progresso do retrocesso.
Razões pelas quais se o Orçamento passa ou não passa interessa pouco, excepto pelo facto de, se não passar, a gente se entreter com os paroxismos da luta política.
*Um amigo dilecto disponibilizou-me o artigo acima referido de Pedro Tadeu, porque da primeira vez que o vi tive acesso mas quando lá quis regressar o Diário de Notícias queria que me inscrevesse num tal de Nónio, decerto para me pôr a pagar – um escândalo. Quando mo enviou, escreveu: “O apoio parlamentar, neste caso ao orçamento, valeria a pena se o PC conseguisse convencer o seu eleitorado potencial de que conseguiu vitórias muito concretas ao impor ao PS as medidas x e y. O problema é que essas vitórias são pífias, são mal comunicadas e ficam esquecidas dois dias depois, no turbilhão noticioso. Em última análise estão a apoiar o PS sem grandes ganhos. Mais valia ao PC, penso eu, tornar pública uma lista de exigências que vão ao encontro do seu eleitorado e estar pronto a votar contra se estas não forem aceites”.
Tem razão. E só ponho aqui estas considerações porque ninguém do PCP decerto me lê, sendo como sou, tal como este amigo, um fascista do piorio.

O Orçamento vai ser aprovado, o contrário nunca esteve em causa. Isto é uma espécie de wwe. Mais uma.
Vem aí borrasca, o bce vai cortar-se, a China contrai, preços da energia e petróleo mais o gás da Rússia, semicondutores, e andamos nós entretidos com a Catarina e a senhora das touradas.
Curioso é que há uns anos caiu a trindade e o carmo por causa da troca de favores com o Limiano, e ninguém se chateia com o mesmo cenário ano após ano com Bloco e pcp.
Boa noite, José Meireles Graça
Sou um cidadão sem partido, mas que sempre tenho votado desde o 25 de Abril de 1975.
Penso que se o PCP nos primeiros actos eleitorais a seguir ao 25 de Abril teve os resultados que teve, apesar dos discursos anti comunistas – que os houve vindos de muitos quadrantes –
se ficou a dever ao se passado de luta e de apoio às lutas operárias e anti salazaristas.
Com o tempo essa memória esqueceu-se, quer pelo envelhecimento das gerações que as viveram, quer pelo discurso que desvalorizava essa luta.
Os comunistas coerentes no discurso de defesa do socialismo, foram transformando o discurso da acção que lhes dera os créditos de que beneficiou no pós 25 de Abril – o de estar onde a sua matriz o exigia.
Em consequência apoiar ou não apoiar este orçamento do Governo PS pouco, ou quase nada, pesará no seu futuro eleitoral.
Também para os donos disto Tudo – o Bendito Mercado – pouca diferença fará qual o Capataz de Serviço – o PS ou os outros PSD, CDS, IL, Chega -.
Agora para o sr. Marcelo Ribeiro de Sousa não será o mesmo. Já deve estar cansado de esperar que o seu partido – PPD/PSD e seus aliados naturais – ainda não tenha conseguido levantar a crista. Tão desesperado está que já lhe dá prazos – 3 a quatro meses.
Peço desculpa pelo comentário tão longo. Se de algum modo o ofendi creia que não foi de todo esse meu propósito, mas trocar apenas pontos de vista. Se ofendi desde já peço desculpas
Zé Onofre
Nada há no seu comentário que possa ser considerado ofensivo, Zé Onofre.
É complicado o PCP manter a sua quota quando a sua matriz ideológica é o patrão vs trabalhador, e Portugal é um país de microempresas, onde tanta vez o patrão é o único trabalhador.
E Portugal é um país de microempresas que nunca crescem -logo a eficiência da especialização não ocorre – por causa do PCP entre outros Socialistas.
“a sua matriz ideológica é o patrão vs trabalhador,”
A matriz ideológica do PCP é o Poder pelo Poder. Os trabalhadores e sindicatos são instrumentos de conflito apenas. Só interessam ao PCP enquanto não controlar o aparelho de estado e o regime.
Se o PCP alguma vez tomar conta do regime acabam os sindicatos e se os trabalhadores fazem greve são acusados de sabotagem da revolução e designados membros das forças da reacção…
O MEU CENÁRIO
O lema que se exigiria é que uma esquerda séria unida nunca deveria ser vencida.
A verificar-se a exigente resposta de chumbar as contas a um matreiro vendilhão reprovando-lhe a negociata, deve o PSD puxar dos neurónios e sacar um coelho da cartola, que ao aprovar-lhe embuste, cumpriria a nobre missão de não o deixar fugir quando já se ouvem campainhas de alarme como que a anunciar mais um fatal
pedido de esmola em praça publica, perante o embalo e no rescaldo de um aflito presidente, que mais não tem feito do que esbracejar em pântano apodrecido.
Nestas contas todas, só não consigo perceber a preocupação da direita com o facto de o orçamento não ser aprovado. Se a direita quer o orçamento aprovado que vote a favor, se o quer reprovado não percebo este pranto contínuo de comentadores de direita porque a esquerda não se entende.
Parece que a direita quer que o orçamento seja aprovado e está danada porque a esquerda não o aprova. Quando se começa a fazer muitos cálculos políticos e a pensar somente nas próximas eleições às vezes fazem-se figuras destas.
Sim, o País já saiu das vacas magras. Presentemente a época é de vacas magríssimas. Pior, a nova Alemanhã/BCE fala em reanalizar as quiméricas “bazucas”, que aliás apenas servem para continuar a manter o nível de emprego naquele País.
O desatino no PS é palpável. Tal como nas vésperas do momento Sócrates/T. dos Santos, no Diário da República vão-se multiplicar, que nem barómetro, nomeações apressadas. Sintoma de fim do tempo.
Belém prefere estabilidade bovina e pergunta porque não comem biscuitos?. Sinto-me tão bem, PR.
O primeiro parágrafo é crucial: ninguém sabe que orçamento vai ser executado, se aprovado.
É também o único factor que não foi analisado no artigo. Grande parte das cedências ao PC não foram executadas no último orçamento e Jerónimo de Sousa, várias vezes referiu a necessidade do orçamento de 2021 ser cumprido. Isto é, o PC sabe que foi enganada e, não sendo exactamente cabotino, sabe que voltará a ser enganado.
Claro que também sabe que, tendo-se mantido até ao fim nas negociações, se votar contra o OE sobre ele recairá o ónus de ter feito cair o governo. Mas, apesar da opacidade há muita gente no PC que desaprova o apoio ao PS e, sem nada transpirar para o exterior, estou certo que uma potencial divisão existe. É esse factor, de facto desconhecido e não quantificável, que poderá ser decisivo para o – menos provável, acho eu – voto do PC contra o OE.
Quanto à questão de fundo, não me interessa. Como já apontou um comentador, a crise económica que está em curso vai inviabilizar qualquer orçamento agora aprovado. Este apenas vai servir para clarificar as relações políticas do PS com a esquerda.
Mas, cedendo à minha veia màzinha, preferia que o OE não passasse, apenas para ver Marcelo chateado.
Abaixo os neo-fascistas.
O OE vai passar. E o único motivo para que passe centra-se nas ambições do Costa da bazuca, que sabe que a única maneira de limpar sua imagem para se atirar mais tarde à presidência da república é fazer cedências para ganhar tempo e procurar melhorar o look.
Outro ponto interessante: o OE sempre foi visto pelos analistas e comentadores de esquerda como uma ferramenta essencial. Este ano, sabe-se lá porquê, a conversa mudou, na base de que a orçamentação não significa execução. Também agora o orçamento se confunde com legislação laboral, ideologia de género, e para a não inscrita, bem-estar animal.
No meio de tanto debate intelectualmente estimulante, a dupla Costa-Leão não disse claramente o que espera arrecadar de ISP, se o objectivo é diminuir o consumo de combustíveis (e consequentemente a receita fiscal), ou se querem estar em linha com 2019.
‘..ficam esquecidas….., no turbilhão noticioso’
Pois, os noticiários não falam mais nisso, ou falam “dando a volta” ao assunto.
E no entanto a parte mais importante do texto é esta:
“Quase ninguém tem muitas dúvidas de que o deslizar para os últimos lugares do desenvolvimento na Europa (que ela própria não cessa de perder lugares no mundo, uma decadência que é a consequência necessária do seu inverno demográfico associado à gestão socialista da UE) “