E passaremos a escrever Presidente Trump. Não sei se o farei, custa-me. Para explicar o que aconteceu, que se leiam os especialistas, coisa que não sou. Pelo que leio na imprensa internacional que respeito, alguma da tal em decadência, Trump terá vencido ao concentrar o voto do eleitorado branco sem educação superior mas não necessariamente de rendimentos mais baixos. De certa forma parece que Trump soube ir capturar os ressentimentos de todos os Archie Bunkers americanos para quem os candidatos nunca ou raramente falaram (não eram um verdadeiro grupo demográfico para as sondagens) e que queriam ser ouvidos.
Por isso Trump atacou muçulmanos, latinos, asiáticos, negros e todo o establishment que permitiu a ascenção de tais grupos. Por isso atacou também o comércio livre que permitiu aos EUA tornarem-se na nação mais rica – de longe – do planeta. Por isso admirou ditadores e autocratas que lembrassem a este grupo a força que perderam mas que ainda poderia ser deles.
Não invoco isto para explicar a vitória de Trump. Invoco isto para falar do que poderá vir a ser a sua presidência. É que Trump foi eleito por estas pessoas e sabe que não conseguirá reconquistar aqueles que antagonizou sem virar o seu eleitorado base contra si. Por isso é provável que não abrande a mensagem mas que a reforce. Por isso é provável que, uma vez na Casa Branca, não passe a ser mais moderado e centrista. Não poderá fazer tudo quanto gostaria, devido ao balanço de poder dos EUA e das leis que estão em vigor, mas não será certamente por falta de vontade.
Vejamos algo que poderá ser o caso mais desastroso: o golpe duplo de rasgar o NAFTA e erigir um muro na fronteira com o México. Se rasgar o acordo NAFTA acabará a, senão destruir, pelo menos a dar um golpe enorme na economia mexicana, que envia 80% das suas exportações através da fronteira. Se ao mesmo tempo colocar um muro na fronteira, teoricamente impede mexicano de entrar. Só que há aqui um problema: pessoas desesperadas – como os mexicanos ficariam numa economia a colapsar – correm os riscos que forem necessários. Os mexicanos acabariam a destruir a fronteira pelos meios que pudessem a menos que os EUA colocassem o exército ao longo da sua fronteira de 3.200 quilómetros. Isto destruiria a economia do país vizinho e criaria uma situação de guerra nas fronteiras do peóprio país. A piorar o cenário estaria o simples facto que os produtos que não chegassem do México teriam de ser produzidos internamente, a custos mais elevados (e assumindo que existiria mão de obra para tal). Isto levaria a um aumento da inflação, que levaria a aumentos de salários para manter a base satisfeita e acabaria numa economia completamente fora de controlo.
E esse é apenas um aspecto. Vejamos agora a política externa. É de crer que ou Trump terá um encontro com Putin nas primeiras semanas da sua presidência ou que Putin colocará o exército em exercícios extensivos nas fronteiras dos países bálticos, só para ver como Trump reage. Uma cimeira é mais provável e é altamente crível que Putin acabe a conseguir de Trump tudo o que quer. Não seria de espantar se Trump aceitasse uma intervenção russa na Síria ainda mais alargada que agora em troca de ficar com algum território (ou recursos) para si. Imagino facilmente Trump e Putin a dividir o território no Médio Oriente. Para cúmulo, com Trump a cumprir a promessa de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e a aceitar a expansão dos colonatos – além de rasgar o acordo com o Irão – a região acabaria ainda mais a ferro e fogo, numa revolta dos árabes aos piores níveis do passado. Uma Europa sem a protecção americana, um Médio Oriente em chamas e um extremo oriente com Coreia do Sul, Japão e Coreia do Norte numa corrida nuclear. Soa bem, não é?
E quanto à sociedade americana? Bom, Trump prometeu rasgar o Obamacare, algo que não pode ser feito sem grandes custos financeiros, independentemente do resto das consequências. Trump não deu nenhum plano de saúde – quase de certeza porque nem pensou no assunto – mas as indicações que deu já foram consideradas por republicanos como um apanhado sem sentido de propostas do passado. Seja como for, para não antagonizar a sua base, Trump terá que acelerar o desmantelamento do Obamacare, o que custará (muito) dinheiro (nada que o incomode) e que terá de ir buscar a outros lados (já lá vamos). Além disto, poderá nomear o próximo juiz do Supremo Tribunal e fazer tender a balança para o lado conservador. Como dois dos juízes liberais e um dos conservadores já estão com 78 ou mais anos de idade, poderá até escolher outros três. No final de um primeiro mandato poderia escolher 4 juízes, passando o equilíbrio de 4-4 (ou 5-4 a favor de conservadores) agora para 7-2 a favor de conservadores, os quais o seriam provavelmente ainda mais que o tradicional, dado que não enfrentariam oposição de monta no Congresso.
Estas mudanças na sociedade iriam embater em vários avanços ou situações presentes. As leis que sustentam Roe vs Wade seriam provavelmente alteradas e Trump chegou mesmo a prometer uma forma de punição para as mulheres que abortem. O casamento homossexual estará em risco se ele o puder conseguir e a NRA poderá obter concessões verdadeiramente escabrosas, como a possibilidade de licenças de porte de arma serem transportáveis entre estados (permitindo que criminosos possam adquirir armas noutros estados e levá-las para o seu). Além disto prometeu uma polícia mais musculada e com menos controlos externos. Mortes a tiro de suspeitos poderão tornar-se depressivamente mais comuns.
Tudo isto sem falar no próprio comportamento de Trump, que demonstrou já o seu desprezo por quase toda a gente que não seja família e a sua falta de respeito por qualquer pessoa que não seja Donald Trump. Mulheres estarão particularmente ameaçadas. Se não directamente pelo próprio Trump, então por outros que se revejam no seu (execrável) exemplo. A título muito pessoal, não me admirarei se acabarmos um dia com a notícia de Trump ter violado alguma estagiária em plena Casa Branca.
Os imigrantes nos EUA, por seu lado, poderão estar a tremer, sejam legais ou não. Há quem diga que deportar 11 milhões de pessoas é impraticável, mas os EUA têm um hábito de conseguir o impraticável. Se o fizerem haverá certamente muitas crianças atiradas fora com a água do banho. As consequências numa economia que em muitos sectores está dependente destas pessoas é essencialmente imprevisível. Já impedir a entrada de muçulmanos, mesmo que isto seja inconstitucional, pode ser conseguindo contornando o problema (como Trump já o fez), dizendo que será apenas com aumento do controlo (já de si extremamente exigente) de imigrantes vindos de “países com terrorismo islâmico”. Isto na prática permitiria impedir a entrada de qualquer muçulmano mas também colocaria obstáculos à entrada de, por exemplo, franceses, ingleses ou belgas. O país de imigrantes (Trump é neto de um alemão e casado com uma eslovena) fecharia as portas como talvez nunca antes na sua história.
Financeiramente a situação é ainda mais preocupante. Trump prometeu acabar com as cláusulas que permitem a directores de hedge funds pagarem impostos mais baixos. Isto seria (pelo menos parcialmente) promissor se não fossem outras promessas, como cancelar a lei Dodd-Frank que mantém algumas medidas de controlo sobre a especulação financeira. Os financeiros poderiam não mais ter certas cláusulas para explorar, mas pdoeriam provavelmente explorar outras. E sendo Trump quem é, também é muito possível que passe leis que se destinem a beneficiar (ou às suas empresas) directamente. Os cálculos aos custos dos planos económicos e financeiros de Trump indicam uma explosão da dívida de quase 50% em 10 anos. Isto sem que os gastos viessem beneficiar muito a população em si. Adicionando a isto a sua tendência isolacionista que pode perfeitamente causar uma guerra comercial (os chineses, para salvar a face, estariam culturalmente e em princípio muito mais dispostos a sofrer tais consequências que os americanos). Mesmo não percebendo muito de economia, imagino que o valor do dólar teria tudo para cair, os preços internamente para subir e a inflacção para disparar. E se quando a economia americana tem uma constipação a economia mundial apanha uma pneumonia, imaginem-se as consequências da pneumonia americana.
Claro que é possível que Trump não faça tudo isto (é inclusivamente provável) e até é possível que faça só algumas destas coisas. É possível que o Congresso, o Partido Republicano, ou os lobbies lhe façam frente. É possível que ignore tudo isto e deixe Mike Pence fazer tudo (seria de si mau, mas não tanto quanto a alternativa). É possível que Trump seja capturado pelo establishment (uma Casa Branca a cumprir os seus caprichos é algo que mesmo a sua – suposta- fortuna não pode comprar). Mas o risco está aí. Acima está apenas uma análise a algumas das promessas de Trump. É simplista, mas menos que os planos em si. Se há alguma coisa que desejo, é que me venham dizer, daqui a 4 anos, que eu estava completamente errado.

“Por isso atacou também o comércio livre que permitiu aos EUA tornarem-se na nação mais rica – de longe – do planeta.”
Esta afirmação está incorrecta. O comércio livre serviu para distribuir ou desconcentrar a riqueza através de transferências não de dinheiro (ao estilo do FMI) mas levando desenvolvimento a lugares que não tinham sequer base tecnológica — portanto insinuar que é exploração ou oportunismo é mentira. Aliás, essa mania marxista de que alguém deve alguma coisa aos pobrezinhos só porque nasceram não pega. Não só ninguém os mandou nascer como seriam ainda muito mais pobres se por lá ninguém tivesse passado. E os Estados Unidos seriam muito mas muito mais ricos se nunca tivessem aderido ao comércio livre. A Apple talvez não, mas os americanos em geral sim.
Nem compreendo o seu comentário. É uma mistura de Jerónimo de Sousa e Marine Le Pen.
Já vi que não percebe o comércio livre. Ou pelo menos a forma como ele é percebido por quem o defende. Eu não sou a pessoa para lhe explicar. Fiquemo-nos por aqui.
O seu último parágrafo parece-me ser o mais previsível.
Vamos a factos concretos. Nas eleições Trump apresentou propostas que metade dos eleitores aceitou e a outra metade não. Mas a partir de agora Trump é efectivamente presidente dos americanos e não só dos seus votantes. Significa isto que os democratas e os republicados no senado terão uma palavra a dizer sobre suas propostas. E não só esses aí como todos os demais americanos nas mais diversas situações e condições.
Trump como presidente dos EUA não se transformou em dono do mundo. Os seus credores, como o Japão e a China, também têm uma palavra a dizer. As multinacionais europeias aí a operar e a banca europeia também têm uma palavra a dizer. Os seus aliados no mundo também têm uma palavra a dizer, pois não se pode ser uma grande potência sem posições estratégicas no mundo e sem aliados por este mundo.
Pretendo com isto dizer que valorizar o que se passou na campanha e transpor esses acontecimentos para a governação da nação e a relação com o mundo é o mesmo que citar Passos a dizer que vem aí o diabo. Ele não chegará nunca dessa forma. Anda por aí de maneira encoberta.
Pretendo com isto dizer-lhe que o mundo está irremediavelmente dependente; e não há alternativas: ou nos levantamos juntos ou cairemos todos juntos.
O que a proposta de Trump colheu, tal como a de Sanders colheria, foi o mandato inequívoco para alterar o status quo e gerarem-se os equilíbrios desejados. Neste sentido nada poderá ser feito por Trump que não colha o apoio da “revolução política” defendida por Sanders.
Concluo já: “Interroga as gerações passadas, e examina com cuidado as experiências dos antepassados; porque somos ignorantes das coisas de ontem, nossos dias sobre a terra passam como a sombra – eles podem instruir-te, falar-te e de seu coração tirar este discurso: Pode o papiro crescer fora do brejo, o junco germinar sem água? Verde ainda, sem ser cortado, ele seca como as outras ervas (…).”. (Jó 8, 8-12)
Permita ainda acrescentar o seguinte: O PR americano não concentra em si mesmo todo o poder, pelo que alguma coisa do que prometeu não conseguirá levar a efeito até mesmo por bloqueio de republicanos. Não esqueça que os republicanos também estão divididos.
Isto também é a democracia a funcionar. Quem não entende isto tem uma visão ditatorial do mundo. Os americanos têm consciência de seu sistema.
A brilhante vitória de Trump trará alguns amargos de boca a ele mesmo. Mas que ele vai virar o sistema, lá isso vai. E os democratas secundá-lo-ão nesta tarefa.
Caro Vento,
peço desculpa pelo atraso, mas os seus comentários são longos e não merecem respostas de circunstância. Como tenho estado excessivamente cheio de afazeres pessoais e profissionais, só agora começo a poder olhar para os comentários como deve ser.
Trump de facto é agora (ou a partir de 20 de Janeiro) presidente de todos os americanos, mas como todos os seus antecessores irá governar para a sua base de apoio. Podemos ser caridosos e dizer que terá o interesse de toda a população em mente, mas a verdade é que se governar para todos (como Clinton quis fazer no início da sua presidência), acabará por descobrir que não consegue governar para ninguém.
Isto significa que Trump, mesmo que não implemente tudo o que quer fazer (ningém o conseguiria), vai tentar implementar o máximo possível. Poderá suavizar uma ou outra coisa, mas isso dependerá de como a sua base de apoio reagir a concessões (as eleições de 2018 darão uma ideia). Se se mantiverem intransigentes, Trump terá de escolher entre manter o rumo dentro do que prometeu ou optar por seguir um caminho completamente diferente e esperar que outro eleitorado o apoie.
Dentro do partido, ele tem três vantagens: não está preso à máquina, porque não depende dela; tem um partido a dominar o aparelho executivo; e sabe que muita desta dominância é devida a ele, por ter sido por arrasto da sua vitória. Isso significa que pode pressionar o aparelho muito mais que a maioria dos presidentes. Paul Ryan está numa posição muito difícil: não queria Trump (isso era óbvio) mas este ganhou mesmo contra a sua oposição (que existiu internamente, mesmo que não na praça pública). Isso significa que Trump tem um enorme ascendente sobre ele que lhe permitirá, pelo menos para já, fazer a pressão que bem entender.
Agora, claro que Trump vive no mundo em geral, mas parece-me óbvio que ele se está marimbando para as opiniões dos outros. Ele venceu as eleições contra os conselhos dos especialistas e seguindo os seus instintos e não vai ser agora na Sala Oval que ele mudará. É possível que um choque cedo o suavize (num choque comercial contra a China, por exemplo), mas embora ele provavelmente modere o discurso e as políticas, é muito possível que ignore os avisos dos outros líderes ou confunda diplomacia com respeito e temor (e não é de excluir que ignore todos os especialistas do departamento de estado que lhe expliquem a carta de parabéns de Xi Jiping provavelmente seria quase igual se seguisse para Clinton).
Não conheço ninguem que coma a sopa a temperatura que é cozinhada; nem espero nunca vir a conhecer.
Adorei o comentário. E eis como com 2 frases simples me contesta de forma bastante eficaz. Chapeau!
Só para o caso de não me ter feito entender: não usei ironia nem sarcasmo. Gostei mesmo do comentário.