Presidenciáveis (60)


Pedro Correia,

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Francisco Louçã

 

Se fosse espanhol, usava barba e rabo-de-cavalo, e diria aos seus apaniguados que sonhava “conquistar o céu”, à semelhança de Pablo Iglesias, o líder-ídolo do Podemos. Mas Francisco Louçã, embora compartilhe o ideário de Iglesias, tem uma personalidade muito diferente: é mais reservado, mais calculista, mais cerebral.

Oriundo da escola trotskista, olha muito menos para o céu do que para os lados: a qualquer momento pode surgir uma picareta estalinista pronta a pôr fim a todos os sonhos de edificação de uma sociedade sem classes, onde seja suprimida a “exploração do homem pelo homem” – utopia perseguida pelo homo sapiens desde que deixou de habitar cavernas.

Este nativo de Escorpião, com 58 primaveras registadas no bilhete de identidade, é catedrático de Economia mas não ignora as lições da História: sabe que todas as revoluções devoram os seus filhos. Deixou, portanto, de ser revolucionário a tempo inteiro e foi abraçando o gradualismo reformista. Na linha dos teóricos da social-democracia clássica, como Eduard Bernstein e Karl Kautsky: vale mais uma reforma na mão do que duas revoluções a voar.

Parece que foi anteontem, mas já passaram quase duas décadas desde que fundou o Bloco de Esquerda – com Miguel Portas, Fernando Rosas e Luís Fazenda. Quatro mosqueteiros que em 1999 se propunham desarrumar o sistema partidário português e romper com certas capelinhas quase imutáveis. Quando a palavra Syriza ainda não tinha sido inventada.

Foi bom enquanto durou: o Bloco atingiu um clímax de 16 deputados, ultrapassando os comunistas, nas legislativas de 2009.

A partir daí, sempre a recuar: em 2012 Louçã cedeu o posto de comando a uma insólita liderança bicéfala que tem conduzido os bloquistas à irrelevância. Condenados a festejar vitórias gregas e espanholas enquanto somam derrotas em Portugal.

Enquanto o Bloco se estreita, Louçã vai-se espraiando. Ninguém duvida: na próxima eleição presidencial, caso seja candidato, obterá muito mais do que os magros 5,3% alcançados na corrida a Belém de 2006 que culminou com a eleição de Cavaco Silva.

É para ele que se viram muitos olhares situados na margem esquerda do espectro político português.

Avançará? Como diria Trotsky, “quem se ajoelha perante o facto consumado é incapaz de enfrentar o futuro”. Ninguém imagina o ateu Louçã ajoelhado.

 

Prós – Tem inegável capacidade argumentativa e uma clareza de exposição verbal que muitos lhes invejam. Moderou as suas posições nos últimos anos: até já escreve num blogue em parceria com Bagão Félix – o socialismo revolucionário a partilhar espaço com a democracia-cristã num curioso aggiornamento à portuguesa. Teríamos em Belém um homem poupado: não gasta um cêntimo em gravatas.

 

Contras – “Eu sei o que é o sorriso de uma criança”, disse um paternalista Louçã a Paulo Portas num célebre debate eleitoral – lapso infantil próprio de quem não soube escutar o sábio Diácono Remédios: não havia necessidade. Às vezes é mais difícil convencer familiares do que desconhecidos: Vítor Gaspar, seu primo direito, não votaria nele. Os seus erres muito pronunciados e cáusticos podem tornar-se irrrrritantes, dando-lhe uma imagem de arrrrrogância.

0 comentários em “Presidenciáveis (60)”

  1. Hoje, apetece dizer que qualquer candidato será preferível ao Nódoa, que produziu, como vem relatado no Público e já foi referido aqui no DdO, opiniões do mais absurdo e lunático, como, por exemplo, “Portugal tem tudo para ser um país diferente”. Isto é que é falar sem dizer a ponta de um korno, com Vossa licença.

    Quanto a Louçã, nunca fui adepto do seu pensamento político, sempre me irritou o seu ar de seminarista pregador, mas o facto é que, depois de ter deixado a “coordenação” do BE (não interessa agora especular por que o fez), o fracasso da coordenação bicéfala (que ele afirmou ir em breve ser copiada pelos outros partidos (!)) foi clamorosa, e ainda mais desastrosa agora que aquela actriz que papagueia não importa o quê ficou a falar sòzinha (e sòzinha a arregalar assustadoramente os olhos), percebendo-se à légua que não faz ideia nenhuma concreta de nada nem tem bases de nenhuma espécie, a não ser as que resultam de intermináveis sessões de debates com camaradas dela. Isto porque ele sabe do que fala, tem uma carreira, isso é absolutamente inegável, poderemos é estar ou não de acordo com o que pensa e diz.

    Louçã não só é MUITÍSSIMO MELHOR que a actrizeca, como é INFINITAMENTE MELHOR que o lunático escolhido por uma troika de gagás.

  2. na próxima eleição presidencial, caso seja candidato

    Mas o Pedro crê, seriamente, que ele está a pensar candidatar-se?

    Eu não creio tal coisa. A não ser que o Pedro me afiance ter boas informações de que ele esteja a pensar nisso.

  3. Ao lê-lo lembrei-me da velha história que me foi contada em meados dos anos 60 do século passado, seria eu recém universitário, por um comunista do antigamente (*):

    – O que é o capitalismo?
    – É a exploração do homem pelo homem.
    – E o que é comunismo?
    – É precisamente o oposto.

    Não tem a ver com o post mas foi inspirada por ele.

    (*) Peço imensa desculpa de insistir mas relembro que já contei aqui e contei pessoalmente a pessoas que nos estarão a ler (com provas e nomes) que me dou com comunistas “desde que nasci”, não vá algum destes comentadores “revolucionários” que há 42 anos ainda andavam a dar palmas ao Marcelo virem chamar-me nomes por causa da historieta.

    1. Havia milhares de anedotas como essa que circulavam no Bloco Leste durante o período comunista.
      Uma, que fixei há muitos anos:
      – Quais foram as últimas palavras do poeta Maiakovski antes de cometer suicídio?
      – Camaradas, não atirem!

      1. Essa não conhecia.

        Mas esta foi de facto contada por um comunista (vivi quase metade da minha vida no meio deles, como já lhe contei), o curioso da história é que o foi aí em 1964 ou 1965 por um daqueles que vivíam numa semi-clandestinidade que presumiam sem fim, à época havia uns matizes pois a definição de perigosidade variava muito rápidamente com os humores da polícia política.

        Por isso a trouxe aqui nos moldes em que o fiz, cada vez estou mais convencido que nessa época tinham mais sentido de humor que hoje, sobretudo se nos referirmos aos convertidos sempre a quererem mostrar serviço.

        São das tais “histórias de vida”.
        Os que as não viveram só conseguem debitar chavões sobre tudo…

  4. Estaline vive.Jogando às cartas com os reformados,dançando nas festas da colectividade,debitando popularíssimos adágios,enunciando a salvação do povo sob o pastoreio dele.E tem um livrinho pronto a ser exibido num julgamento e numa execução oportunos: O Esquerdismo Doença Infantil do Comunismo.E tem mais livrinhos para cada fase da Revolução.Nunca se engana.Os erros são dos Outros.E pagarão por isso,na devida altura.
    O senhor trouxe-nos o Baptista,o que desbravará o caminho para o Ungido Estaline.Cairá na devida altura.
    Que proveito eleitoral ele nos traria?

  5. Não sei se é de mim, se é do Kafka, mas, francamente, antes o Louçã (quando o viu e ouviu pela primeira vez na televisão, a minha mãe achou que era uma espécie operário, eventualmente um metalúrgico) que os anónimos sem história visível.

    E não, não gosto do Louçã. E sim, refilo à brava (o que se pode, que está debilitada da saúde) com a minha mãe, cada vez mais refilona, quase kafkiana.

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