Francisco Louçã
Se fosse espanhol, usava barba e rabo-de-cavalo, e diria aos seus apaniguados que sonhava “conquistar o céu”, à semelhança de Pablo Iglesias, o líder-ídolo do Podemos. Mas Francisco Louçã, embora compartilhe o ideário de Iglesias, tem uma personalidade muito diferente: é mais reservado, mais calculista, mais cerebral.
Oriundo da escola trotskista, olha muito menos para o céu do que para os lados: a qualquer momento pode surgir uma picareta estalinista pronta a pôr fim a todos os sonhos de edificação de uma sociedade sem classes, onde seja suprimida a “exploração do homem pelo homem” – utopia perseguida pelo homo sapiens desde que deixou de habitar cavernas.
Este nativo de Escorpião, com 58 primaveras registadas no bilhete de identidade, é catedrático de Economia mas não ignora as lições da História: sabe que todas as revoluções devoram os seus filhos. Deixou, portanto, de ser revolucionário a tempo inteiro e foi abraçando o gradualismo reformista. Na linha dos teóricos da social-democracia clássica, como Eduard Bernstein e Karl Kautsky: vale mais uma reforma na mão do que duas revoluções a voar.
Parece que foi anteontem, mas já passaram quase duas décadas desde que fundou o Bloco de Esquerda – com Miguel Portas, Fernando Rosas e Luís Fazenda. Quatro mosqueteiros que em 1999 se propunham desarrumar o sistema partidário português e romper com certas capelinhas quase imutáveis. Quando a palavra Syriza ainda não tinha sido inventada.
Foi bom enquanto durou: o Bloco atingiu um clímax de 16 deputados, ultrapassando os comunistas, nas legislativas de 2009.
A partir daí, sempre a recuar: em 2012 Louçã cedeu o posto de comando a uma insólita liderança bicéfala que tem conduzido os bloquistas à irrelevância. Condenados a festejar vitórias gregas e espanholas enquanto somam derrotas em Portugal.
Enquanto o Bloco se estreita, Louçã vai-se espraiando. Ninguém duvida: na próxima eleição presidencial, caso seja candidato, obterá muito mais do que os magros 5,3% alcançados na corrida a Belém de 2006 que culminou com a eleição de Cavaco Silva.
É para ele que se viram muitos olhares situados na margem esquerda do espectro político português.
Avançará? Como diria Trotsky, “quem se ajoelha perante o facto consumado é incapaz de enfrentar o futuro”. Ninguém imagina o ateu Louçã ajoelhado.
Prós – Tem inegável capacidade argumentativa e uma clareza de exposição verbal que muitos lhes invejam. Moderou as suas posições nos últimos anos: até já escreve num blogue em parceria com Bagão Félix – o socialismo revolucionário a partilhar espaço com a democracia-cristã num curioso aggiornamento à portuguesa. Teríamos em Belém um homem poupado: não gasta um cêntimo em gravatas.
Contras – “Eu sei o que é o sorriso de uma criança”, disse um paternalista Louçã a Paulo Portas num célebre debate eleitoral – lapso infantil próprio de quem não soube escutar o sábio Diácono Remédios: não havia necessidade. Às vezes é mais difícil convencer familiares do que desconhecidos: Vítor Gaspar, seu primo direito, não votaria nele. Os seus erres muito pronunciados e cáusticos podem tornar-se irrrrritantes, dando-lhe uma imagem de arrrrrogância.

![2013-01-24-louca_em_belem_lusa[1].jpg 2013-01-24-louca_em_belem_lusa[1].jpg](http://0.fotos.web.sapo.io/i/Be314b13d/18472080_Yw9MO.jpeg)
Hoje, apetece dizer que qualquer candidato será preferível ao Nódoa, que produziu, como vem relatado no Público e já foi referido aqui no DdO, opiniões do mais absurdo e lunático, como, por exemplo, “Portugal tem tudo para ser um país diferente”. Isto é que é falar sem dizer a ponta de um korno, com Vossa licença.
Quanto a Louçã, nunca fui adepto do seu pensamento político, sempre me irritou o seu ar de seminarista pregador, mas o facto é que, depois de ter deixado a “coordenação” do BE (não interessa agora especular por que o fez), o fracasso da coordenação bicéfala (que ele afirmou ir em breve ser copiada pelos outros partidos (!)) foi clamorosa, e ainda mais desastrosa agora que aquela actriz que papagueia não importa o quê ficou a falar sòzinha (e sòzinha a arregalar assustadoramente os olhos), percebendo-se à légua que não faz ideia nenhuma concreta de nada nem tem bases de nenhuma espécie, a não ser as que resultam de intermináveis sessões de debates com camaradas dela. Isto porque ele sabe do que fala, tem uma carreira, isso é absolutamente inegável, poderemos é estar ou não de acordo com o que pensa e diz.
Louçã não só é MUITÍSSIMO MELHOR que a actrizeca, como é INFINITAMENTE MELHOR que o lunático escolhido por uma troika de gagás.
É provavelmente o melhor político português situado à esquerda do PS. Tenho poucas dúvidas quanto a isso. Ou nenhumas.
na próxima eleição presidencial, caso seja candidato
Mas o Pedro crê, seriamente, que ele está a pensar candidatar-se?
Eu não creio tal coisa. A não ser que o Pedro me afiance ter boas informações de que ele esteja a pensar nisso.
O homem é ele próprio mais a sua circunstância, dizia o outro. E tinha muita razão.
Modesta contribuição do Sr. David Fenton:
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Uma verdadeira Metamorfose. Era capaz de dar Processo.
Ao lê-lo lembrei-me da velha história que me foi contada em meados dos anos 60 do século passado, seria eu recém universitário, por um comunista do antigamente (*):
– O que é o capitalismo?
– É a exploração do homem pelo homem.
– E o que é comunismo?
– É precisamente o oposto.
Não tem a ver com o post mas foi inspirada por ele.
(*) Peço imensa desculpa de insistir mas relembro que já contei aqui e contei pessoalmente a pessoas que nos estarão a ler (com provas e nomes) que me dou com comunistas “desde que nasci”, não vá algum destes comentadores “revolucionários” que há 42 anos ainda andavam a dar palmas ao Marcelo virem chamar-me nomes por causa da historieta.
Havia milhares de anedotas como essa que circulavam no Bloco Leste durante o período comunista.
Uma, que fixei há muitos anos:
– Quais foram as últimas palavras do poeta Maiakovski antes de cometer suicídio?
– Camaradas, não atirem!
Essa não conhecia.
Mas esta foi de facto contada por um comunista (vivi quase metade da minha vida no meio deles, como já lhe contei), o curioso da história é que o foi aí em 1964 ou 1965 por um daqueles que vivíam numa semi-clandestinidade que presumiam sem fim, à época havia uns matizes pois a definição de perigosidade variava muito rápidamente com os humores da polícia política.
Por isso a trouxe aqui nos moldes em que o fiz, cada vez estou mais convencido que nessa época tinham mais sentido de humor que hoje, sobretudo se nos referirmos aos convertidos sempre a quererem mostrar serviço.
São das tais “histórias de vida”.
Os que as não viveram só conseguem debitar chavões sobre tudo…
O que seria da vida sem humor?
Estaline vive.Jogando às cartas com os reformados,dançando nas festas da colectividade,debitando popularíssimos adágios,enunciando a salvação do povo sob o pastoreio dele.E tem um livrinho pronto a ser exibido num julgamento e numa execução oportunos: O Esquerdismo Doença Infantil do Comunismo.E tem mais livrinhos para cada fase da Revolução.Nunca se engana.Os erros são dos Outros.E pagarão por isso,na devida altura.
O senhor trouxe-nos o Baptista,o que desbravará o caminho para o Ungido Estaline.Cairá na devida altura.
Que proveito eleitoral ele nos traria?
Estaline votava a tiro. Era uma medida de poupança. Poupava-se a tinta da caneta.
Não sei se é de mim, se é do Kafka, mas, francamente, antes o Louçã (quando o viu e ouviu pela primeira vez na televisão, a minha mãe achou que era uma espécie operário, eventualmente um metalúrgico) que os anónimos sem história visível.
E não, não gosto do Louçã. E sim, refilo à brava (o que se pode, que está debilitada da saúde) com a minha mãe, cada vez mais refilona, quase kafkiana.
Kafka se fazem, Kafka se pagam.
O comentador Rui Santos, também vai ser convocado para esta selecção?
Não. Você também não. E a vírgula entre o sujeito e o predicado muito menos.