Presidenciáveis (55)


Pedro Correia,

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Ana Drago

 

Um Presidente da República não tem que ser um senhor já grisalho, de pose senatorial, sobrolho franzido e gesto circunspecto. A regeneração republicana que tantos defendem poderá passar por alguém com um rosto fresco, capaz de trazer efectiva novidade à cena política e mobilizar a enorme massa de abstencionistas, em grande parte composta por eleitores com idade inferior a 35 anos – muitos dos quais nunca exerceram o direito de voto que tão duramente a geração anterior conquistou.

Experiência política, currículo académico, sólida formação intelectual, sensibilidade apurada para as questões sociais: eis atributos que não faltam a Ana Drago, que na corrida a Belém poderia dar voz à corrente jovem, aparentemente tão alheada dos mecanismos da democracia representativa.

Esta socióloga algarvia, nascida há 39 anos sob o signo Virgem em Vila Real de Santo António, com raízes aristocráticas locais, começou a tornar-se conhecida em 2000, ainda com cara de menina, num programa da RTP ao lado do psiquiatra Daniel Sampaio e do jornalista Luís Osório. O programa chamava-se Conversa Privada mas não tardou a transformar em figura pública esta miúda franzina que então usava óculos e já tinha uma espantosa capacidade de expressão verbal.

A miúda tornou-se graúda, ma non troppo. E graduou-se como parlamentar qualificada, em duas legislaturas, na primeira fila do Bloco de Esquerda, de que foi dirigente nacional. A ala mais moderada do BE apostou nela como sucessora de Francisco Louçã. Ganhou Catarina Martins, actriz, e ela ficou para trás. Recuou a tal ponto que acabou por abandonar o partido, hoje Bloco só no nome. Com esta baixa o BE perdeu mais que ela.

 

Prós – É uma das vozes mais moderadas da chamada esquerda radical, capaz de falar sem recorrer a nenhum dos típicos chavões desta área política. Seria a mais jovem candidata de sempre a Belém, mas convém não esquecer que Ramalho Eanes era pouco mais velho – tinha apenas 41 anos – quando assumiu a Presidência, em Julho de 1976. Daria conteúdo prático ao imaginativo título de um livro que escreveu sobre o movimento estudantil anti-propinas em ela participou na década de 90: Agitar Antes de Ousar.

 

Contras – O apelido dela, conotado com dragões, é pouco apelativo para leões e águias. A dupla cisão bloquista em que milita – Livre/Tempo de Avançar – goza de boa imprensa mas quase ninguém percebeu ainda muito bem o que é fora do eixo alfacinha Chiado-Príncipe Real. Conserva um ar juvenil: ninguém diria que está quase a apagar 40 velas do bolo de aniversário, algo que só numa candidatura presidencial pode ser defeito.

0 comentários em “Presidenciáveis (55)”

  1. A piscicóloga do partido do Madaleno não votava nela, o Berloque da Actriz também não, as outras migalhas do berloque idem, o PCP vai apresentar obviamente candidato próprio (que provavelmente apelará, se 2ª volta houver, ao voto no barbichas de Valença), só se fosse o avô que tem (teve) em comunhão com a tal actriz e que nem para a CML conseguiu ser eleito o fizesse.

    Donde, teria menos votos que o Garcia Pereira.

    Acho que nesta lista está a fazer falta um/uma chef, a ser uma, talvez a Chef Justa Nobre (que faz um óptimo bacalhau, o pior é se for monárquica) ou a Chef Marlene.

  2. convém não esquecer que Ramalho Eanes tinha apenas 41 anos quando assumiu a Presidência

    Também acho: convem não esquecer.

    Infelizmente, logo depois de Ramalho Eanes abandonar a presidência a norma passou a ser que o Presidente deveria ser um gajo já reformado.

    E o Pedro tem mantido essa norma nesta sua lista de protocandidatos.

    1. Convém não esquecer as razões pelas quais Eanes foi presidente com 41 anos e isso, tenha lá paciência, era preciso “ter estado lá” , não só ter vivido os tempos antes, durante e depois, como os ter vivido “por dentro” disto, daquilo e daqueloutro.

      No entanto podemos agora poupar a nossa conversa anterior, o Luís Lavoura já me disse que estava na escola, o que é normal tendo em conta a sua idade.

      1. A mim não me interessa discutir o passado, interessa-me discutir o presente. E dizer que, tal como Ramalho Eanes foi um presidente com uma idade decente, os outros também o devem ser. Não quero um presidente em idade de estar na reforma.

        1. Se desse um mínimo de atenção à plebe que por aqui anda sabia que eu me estou também cagando para o passado (ontem já é passado para mim) e que como qualquer gajo à beira dos 70 que andou por toda a parte e não pára (acabo de fazer 400 kms e vou agora voltar a saír pois ainda tenho muito que fazer hoje aqui pelas “terras altas”), tem vários filhos entre os 40 e os 46 e netos a caminho da maioridade, é o futuro que me interessa e o futuro para mim começa quando enviar este comentário.

          Não quero alguém da minha idade ou quase, isso é uma completa inutilidade e até estupidez.
          Mas também não me parece que haja por aí hoje alguém “around 40” em quem muita gente acredite.

          Há-de haver assim um meio termo entre a menor experiência da vida e a xéxézice galopante, Soares era quem era e foi com 52 anos, Sampaio tinha 57 anos.

          De qualquer modo continuamos onde estávamos.
          Eanes só o foi porque as circunstâncias eram o que eram e foi SÓ ISSO que eu lhe disse com “algum” conhecimento de causa.
          Mais ainda: em circunstâncias democráticas normais – sem “Conselho da Revolução” – um militar com 41 anos nem presidenciável seria quanto mais presidente.

          Isso não impede que tenha votado convictamente nele e ache que foi um excelente PR nas circunstãncias que se vivíam à época, era o único que podia ter desempenhado aquele papel.

          Mas V. nunca responde ao que se lhe conta, muda logo o caminho da conversa.
          E eu sou parvo em comentá-lo, reconheço.

  3. Reconheço nela tudo o que o Pedro diz: politicamente culta e preparada, pensamento próprio, discurso fluente, argumentativo e articulado. E, para alívio de quem a ouve ou assiste, tudo lhe sai de um jeito fluido e natural, sem gritos, sem olhos arregalados (adorei esta …), sem dicção gongórica nem afectação e, qualidade suprema, nem aí para rasteirar ou desrespeitar o interlocutor. De sobra, é mulher, mãe, bonita, educada. Um bálsamo, na paisagem política feminina. Decididamente, o Bloco, não a merecia.
    Eu, como mulher, e não obstante o seu posicionamento político, que não é o meu, não tenho dúvida de que, no xadrês político, ela me representa. PR? Não sei se será o perfil ou até a vocação dela … eu acho que não.

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