Lamento que o jornalismo abdique cada vez com mais frequência de um olhar autónomo sobre os protagonistas da cena política portuguesa. Isto tem vindo a ser patente nesta campanha eleitoral. Reparem em boa parte das peças televisivas sobre os candidatos no terreno: parecem ser feitas no mesmo molde. Tanto faz o candidato ter em torno de si cem ou dez ou cinco pessoas, o registo não foge da mais estrita banalidade: um plano fechado, com o candidato no centro e dois ou três rostos anónimos a espreitarem-lhe por cima do ombro, e o registo de inócuas declarações do visado sobre um tema qualquer em foco nas manchetes desse dia. Mesmo que esse tema nada tenha a ver com os poderes do Presidente da República definidos na Constituição.
Estas peças produzem efeitos miméticos: contagiam outras, acabando por tornar-se todas semelhantes, configurando um jornalismo preguiçoso e reverente, que abdica de um olhar crítico sobre os agentes políticos e a mensagem – tantas vezes desprovida de conteúdo – que estes pretendem passar.
Raras vezes assistimos ao desassombro que se impõe no discurso de um repórter: “Este candidato não atraiu ninguém”; “passou totalmente despercebido”, “só havia escassos membros da máquina partidária nesta acção de campanha”; “apenas esteve no terreno enquanto havia câmaras de televisão e microfones da rádio em seu redor.”
Raras vezes existe sequer um plano mudo, mostrando uma plateia vazia ou uma rua despovoada porque ninguém acorreu afinal ao encontro dos candidatos, que pretendem usar as câmara de televisão como mero veículo de propaganda.
Tanto se fala sobre a crise do jornalismo. Há muitos factores a explicá-la. Mas o primeiro acontece logo aqui.

Insurgente
Cândido Ferreira desafia Nóvoa a esclarecer percurso académico
Falando na Universidade de Aveiro, onde hoje foi recebido pelo respetivo reitor, Manuel Assunção, Cândido Ferreira disse não estar a fazer acusações, mas sim perguntas, a que o candidato Sampaio da Nóvoa deve responder para que “não fique a suspeita de qualquer mácula sobre o seu currículo académico”
“Faço perguntas, baseado em rumores que têm vindo a surgir desde há dois meses, que não foram respondidos, e perante as dúvidas que suscita o livro que o próprio candidato assinou”, declarou referindo-se ao autobiográfico de Sampaio da Nóvoa intitulado “Política de Vida”.
Hoje mesmo a candidatura de Cândido Ferreira lançou uma “Nova carta aberta a Sampaio da Nóvoa”, em que o confronta com dúvidas sobre a sua carreira, alegando que o curso “Formação de Professores de Educação pela Arte”, que Nóvoa terá frequentado na Escola Superior de Teatro e Cinema, “não confere licenciatura” e que o certificado obtido “apenas o credenciou enquanto professor primário”.
Pergunta ainda como é que, “aparentemente sem qualquer outra licenciatura, terá conseguido obter as equivalências na Suíça, que lhe permitiram frequentar um curso pós-graduado e ascender na carreira universitária”, sendo que “terá tido acesso à cátedra, sem que a sua tese estivesse reconhecida por qualquer universidade”.
É lamentável que esse candidato tenha recusado confrontar Nóvoa olhos nos olhos quando teve oportunidade para o fazer num debate televisivo em que recusou participar.
O desemprego não é muito conducente ao desassombro.
A falta de desassombro não poupa ninguém ao desemprego, Isabel. Quem pensar o contrário engana-se redondamente.
Antes da crítica ao jornalismo, estão as críticas aos candidatos. Que merece um Marcelo Rebelo de Sousa que se diga, quando o próprio faz uma campanha cheia de nada, sem conteúdo e vazia de palavras dignas dum futuro presidente? O jornalismo não pode fazer do nada, tudo, quando alguns dos candidatos, não dão nada. Aqueles que dão, o jornalismo tem mostrado o que de bom têm para mostrar.
O meu texto é sobre jornalismo, não é sobre propaganda política. Pelo contrário, é um texto que sublinha a necessidade de separação rigorosa de águas entre jornalismo e propaganda.
Vir aqui fazer campanha a favor ou contra qualquer candidato, como você faz, é algo que nada tem a ver com o que escrevi.
A adjectivação em jornalismo é por vezes perigosa.
Dizer que um candidato não atraiu ninguém é um juízo de valor. Tal como contar os presentes em encontros. Quantos vinham ver a estrela da televisão e quantos vinham ver o candidato?
O candidato atraiu alguém, ou foram as máquinas partidárias e as publicitárias pagas que atraíram pessoas?
Diz-se que a campanha politicamente é fraca, o que diríamos se fosse um contar de cabeças num comício?
Claro que há muita gente que preferia uma campanha que dependesse a 100% da capacidade de mobilização, que depende sobretudo dos partidos e do dinheiro gasto em campanha.
Isto de ter rascas que ousam apresentar-se ao eleitorado e deixar que seja a votação a decidir é um precedente perigoso num país de Doutores e Engenheiros.
1. A adjectivação é “perigosa” em jornalismo? Desde quando? É “perigosa” só para os próprios jornalistas. Em regimes totalitários e sistemas ditatoriais. O adjectivo, ao contrário do que você sustenta, é uma ferramenta essencial da matéria-prima jornalística: a comunicação. Não basta dizer que existe o céu. Faz toda a diferença dizer se está cinzento ou está azul.
2. Dizer que “não apareceu praticamente ninguém” num comício é um “juízo de valor”? Não: é um facto. E o jornalismo existe para relatar factos, não para encobri-los. E se fosse um juízo de valor qual seria o problema? Desde quando é proibido os jornalistas emitirem juízos de valor? Só em ditaduras.
3. Não entendi o seu último parágrafo. Talvez pretendesse ser irónico. Admito que não atingi a ironia.
Não venho nem faço aqui, campanha contra ou a favor de candidatos. Constato factos que são tão evidentes que só não vê quem não quer. São factos reais e não ilusões de óptica.
Você chama-se Jô ou é afinal outra pessoa? Trocando por miúdos, onde quer chegar com essas alusões aos “factos reais” (que factos?) e às “ilusões de óptica” (que ilusões?)?
São demasiadas entrelinhas para mim.
Escrevo sempre com o mesmo nome.
O adjetivo no jornalismo é necessário. O abuso transforma as coisas:
Kim Jong IL é o “Querido Líder”
Mao foi “o grande timoneiro”
Stalin o “Pai dos Povos”
Salazar o “Sr. Dr.,”
Marcelo Rebelo de Sousa é o “Professor Marcelo”.
Aqueles que os crismaram assim vêm sempre a oposição como “minúscula”, “vendida”, “irrelevante”, “equivocada”, etc..
Claro que falamos de graus diferentes propaganda, mas o principio é o mesmo.
Quanto ao último parágrafo
Mais confuso fiquei.
Perguntei ao anónimo e responde-me você dizendo que assina sempre.
Ora se assina sempre não precisa de dizer que não é anónimo.
Aguardo portanto a resposta do visado. Presumindo que tem existência real e não apenas virtual.
Kim, Mao, Salazar e Marcelo: tudo junto no mesmo saco. Que quer que lhe responda a isto?
Só me ocorre sublinhar que o fanatismo cega.
Não sou o Jo e sabe perfeitamente que não o sou. Penso que o Pedro é um jornalista suficientemente inteligente, para saber interpretar palavras, frases, comentários, textos, tudo. Também sei que quando não lhe interessa, gosta de dizer que não entende.
Você insiste em aparecer aqui como anónimo/a. Como quer que eu saiba quem é ou não o/a confunda com qualquer outro anónimo/a?
A propaganda sobre os candidatos )como sabe) é combinada entre a entourage o jornalista de serviço. Neste cenário não há campo para criticas ou analises jornalísticas; há uma peça que tem que sair, sem suscitar muita celeuma com os próprios e com os adversários; ponto.
A vida é injusta, mas é assim
Tentarei mencionar aqui bons exemplos, que destoam da tendência geral que referi no texto. Julgo que merecem ser enaltecidos.