Presidenciais (13)


Pedro Correia,

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Puro marketing político: João Ferreira tem andado a distribuir exemplares da lei fundamental portuguesa a criancinhas e jovens, martelando até ao limite a palavra “Constituição” nas suas intervenções públicas. 

Que eu tivesse reparado, nenhum dos jornalistas que acompanham a exígua caravana deste candidato se lembrou de anotar este dado factual: a Constituição tão exaltada por João Ferreira, na sua versão actual, é muito diferente do texto original de 1976 – único que o PCP aprovou no hemiciclo de São Bento. Depois disso houve sete revisões constitucionais que contaram sempre com a assumida objecção do partido da foice e do martelo. 

O texto agora celebrado pelo representante comunista nas presidenciais é, portanto, aquele a que o PCP se opôs nas sucessivas alterações. Introduzidas em 1982 (diminuição da carga ideológica da Constituição, fim do Conselho da Revolução, criação do Tribunal Constitucional), 1989 (abertura do sistema económico, fim das nacionalizações “irreversíveis”), 1992 (incorporação do Tratado de Maastricht, adesão ao euro), 1997 (reforço dos poderes do parlamento e do Tribunal Constitucional, luz verde a candidaturas independentes nas autarquias), 2001 (ratificação do Tribunal Penal Internacional), 2004 (reforço da autonomia regional, limite dos mandatos dos titulares de cargos políticos executivos) e 2005 (luz verde ao referendo do tratado constitucional europeu). Votando contra as seis primeiras e abstendo-se na mais recente.

O auto-proclamado “candidato da Constituição” apregoa, portanto, aquilo que o seu partido rejeitou. O que não deixa de ter graça, sem diminuir o mérito da sua iniciativa pedagógica: mais vale distribuir exemplares da Constituição do que exemplares do Avante!, um jornal onde nunca faltou quem escrevesse que «as políticas de Estaline terão sido as mais correctas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias» .

44 comentários em “Presidenciais (13)”

  1. O auto-proclamado “candidato da Constituição” apregoa, portanto, aquilo que o seu partido rejeitou.

    Não. O que o PCP refeitou foram as alterações à Constituição. Mas, no entender (a meu ver correto) do PCP, essas alterações foram de menor importância relativamente ao sentido inicial do texto de 1976. Texto esse que o PCP aprovou.

    1. Para ser coerente, o PCP devia distribuir exemplares dessa versão original de 1976.
      Seria muito instrutivo, mas num sentido diverso daquele que os comunistas talvez desejassem.
      Há ainda muitos por aí, em alfarrabistas.

  2. Sempre vale mais um candidato que distribui uma constituição com a qual tem divergências, do que um candidato que exige que os opositores políticos sejam assassinados, por fuzilamento ou enforcamento, na Praça do Comércio e/ou Avenida dos Aliados, e as mulheres, com 40 anos ou mais, que não tenham dado à luz 3 filhos possam ser violadas, sendo que os violadores “merecem” perdão total por as mulheres não terem cumprido o “dever de procriação”. (André Ventura, foram votados nos 2 congressos do Chega, sendo aprovados por larga maioria, depois de os jornalistas serem expulsos das salas. Na mesma parte que apresentaram 3,6 milhões de euros, que os empresários de Braga, Porto e Aveiro, vão gastar em patrocínios, para as autárquicas deste ano e a promessa de 50 milhões de euros para as próximas legislativas.)

  3. Típico. Quando alguém coloca em causa alguma coisa, a tendência da extrema esquerda é confrontar com o oposto, mesmo se isso se traduzir em contradições.
    Mas nunca se pode esquecer que, apesar de tudo, a CRP é profundamente socialista e extremamente inclinada à esquerda.
    Sendo compreensível, pelo facto de ter sido erigida após o 25 de abril, é no entanto incompreensível a blindagem que impossibilita a sua atualização, mesmo que 100% dos portugueses tenha opinião contrária em determinados pontos.
    Por isso, apesar desse facto histórico que identifica, esta CRP é bastante conveniente ao PCP.
    Sobre marketing político, deixo uma nota. No manual de filosofia do 11 ano, encontra-se uma passagem redutora e questionável, sobre um político português.
    Nada de estranhar, até percebermos que esse político se encontra vivo, activo e é um actual opositor do governo actual.
    Ora, isto não será nada menos do que doutrinação, ou se quisermos ser mais brandos, marketing político.
    Isto é passado a alunos de 16/17 anos. Alunos que nas próximas legislativas poderão exercer o direito de voto.
    É no mínimo lamentável, para não dizer anti democrata.
    O ensino nunca poderia seguir por este caminho, a distância temporal, histórica e ideológica deveria ficar à porta dos programas letivos.
    Recordo-me de estudar o estado novo de forma bastante sintética, pois a distância temporal poderia impedir o docente de ser isento e incisivo.
    Hoje é isto que acontece, num suposto estado de direito.

    1. No manual de filosofia do 11 ano, encontra-se uma passagem

      Em qual manual? Que eu saiba, há diferentes manuais para cada disciplina.
      Diga por favor que manual é (quais os autores), e em que página e linha se encontra essa passagem.

      1. É do 10 ano, peço desculpa pelo lapso.
        CLUBE DAS IDEIAS. Da editora Areal e autoria de Catarina Pires e Carlos Amorim.
        A Areal é editora privilegiada do ministério da educação. Coincidências.

          1. Engraçado!!! Eu consigo-me rir de mim próprio, no heart feelings!!!

  4. Serviço público e didáctico no DO.
    Os jornalistas que acompanham as campanhas estão mais entretidos a enredar-se em irrelevâncias ou a dizer gracinhas.

    1. Os jornalistas mais competentes (e que ainda não foram alvo de despedimentos colectivos nas diversas empresas de comunicação social, substituídos por robôs com pernas) estão, em larga medida, confinados. Efeitos da Covid que também afectam jornais, rádios e televisões.

    2. Ou a tentar fazer um oficial da PSP dizer que choveram bastonadas e não pedras.
      Mas o cúmulo é dizerem que foram atirados pacotes de pastilhas, em vez de pedras… ou melhor… pacotes de chiclas, para ilustre portuense.
      E sim, isto consta de notícia de órgão, outrora credível, como a Visão.

  5. Distribuir exemplares da Constituição em estado de emergência é a mesma coisa que distribuir a programação dos canais da MEO ou da NOS a quem só tem a TDT.

      1. O PCP também é do tempo das listas dos “gajos” da PIDE, que desapareceram milagrosamente depois do 25 de Abril.

  6. Não.
    Apesar de todas as revisões, esta continua a ser uma Constituição proto-comunista.
    Que tem sido, e continuará a ser por muitos e bons anos, interpretada por um Tribunal Constitucional hiper-socialista.

    1. Os meus parabéns pela sua honestidade: não precisou do privilégio de poder escrever 286 palavras para “justificar” porque raio o PCP, apesar de todas as amputações, ainda continua a defender o que resta da Constituição de 1976.

  7. Um post muito instrutivo, Pedro.

    Coincidência: tinha acabado de ler este teu texto quando ouvi na televisão o João Ferreira a dizer que não devia haver maior consenso do que a Constituição.

  8. Excelente observação a juntar à cedilha de “força”. Sinceramente não percebo os conselheiros dos candidatos da extrema esquerda (Ana Gomes incluída), além de disputarem o mesmo segmento eleitoral deveriam concentrar energias nos eleitores de Marcelo (este sim, um digno representante da esquerda democrática), bramar contra André Ventura é um erro crasso: quem pensa ou vai votar no candidato do Chega não vai mudar o seu sentido de voto nem que utilizem a mesma táctica de Madonna aquando da campanha de Hillary Clinton: prometer sexo oral aos eleitores. Beiços pintados de encarnado ( eu não sou um posidónio, sigo os conselhos de José Castel Branco) e pedradas a Ventura (ou caixas de chicletes, tanto faz) acrescentam milhares de votos a Ventura. Todas as peças jornalísticas referentes a está campanha deveriam ser procedidas do genérico de uma saudosa rubrica da RTP: “Silêncio, vamos rir”. Tudo isto teria graça se não vivêssemos tempos pandémicos.

    1. Em tempos pandémicos, confesso, com mais de mil óbitos por semana só de Covid-19, poucas coisas me fazem rir.
      Abro uma excepção, todas as noites, para os episódios que vou revendo da magnífica série “All in the Family” (Uma Família às Direitas), na RTP Memória.

  9. Sempre é melhor este que cata-vento, que jurou respeitar a constituição, e desde Março, rasgou semter mostrado aos portugueses a razão do estado de emergência pública, os documentos e a evidência científica para as medidas tomadas contra essa mesma constituição. O cata-vento mostra bem como um ditador pode vir a controlar o país se quiser, basta declarar estado de emergência por dá cá aquela palha e seguir critérios bastante latos para as medidas a aplicar

    1. É de bom-tom, quando se insulta um Presidente da República, assinar por baixo.
      Para assumir todas as consequências desse acto, até no plano criminal.
      Fica o aviso, para futuros opinadores deste espaço, em textos por mim editados.

  10. Ó Leopedro.
    Então ‘….exígua caravana..’, ‘distribuir exemplares…. a criancinhas e jovens’ é o que pode arranjar para este Presidências (13).
    Sim senhor, nas extensas caravanas dos outros candidatos nem dá para ver o que é distribuído a adolescentes e velhinhos.

      1. Mas se todas as caravanas eram exíguas, ou nem caravanas eram, qual a necessidade de pormenorizar esta? E saiu-me a ironia comparativa.
        Mas, cá pra nós que ninguém nos ouve: não ele mostrar o livrinho é ele dizer o que está escrito na Constituição. Afinal, o PR tem que zelar pelo cumprimento da Constituição e as eleições são para Presidente da República.

        1. Porque aqui estou a falar deste candidato. E não de nenhum outro.
          Se a caravana é exígua, qual o problema de eu escrever isso mesmo?
          Já Lenine ensinava, camarada: os factos são teimosos.

          1. É isso, camarada. Se continuar a ler o “Avante!”, como tu, passarei depressa do Lenine para o Estaline e terei feito a aprendizagem toda.

          2. Ó Leopedro, agora tás armado em Karamba e atiras a bola pra canto.
            Tá bem que respondas como bem entenderes, mas utilizares a cartilha/cassete já é de pouca imaginação. Pq haveria de ler o ‘Avante’?. Já tu temos a certeza, pra saberes sobre isso também tens que o ler.
            Quando tiveres tempo lembra-te do CDS ter feito parte de vários governos e ter votado contra a Constituição de 1976, mas a grande chatice é um candidato à PR falar sobre a Constituição, que deve ser esse o programa para estas Eleições, ter votado contra certas emendas à Constituição de 1976. E o rapaz tem cara de puto e assim não vai longe, o que não seria de cassetes coreia/cuba/alameda/festa do avante e tal e coisa tivesse ele outro aspecto.

          3. E o Estaline, camarada? Não esqueças esse gigantesco “construtor do socialismo” que fez o sol brilhar para todos nós.
            Avante, camarada, avante.

          4. Isso é música de disco riscado, e mesmo assim ficas com a taça, com a Taça da Liga evidentemente. Este ano é que vai ser

  11. Viva, Pedro
    A propósito da Constituição, julguei ser oportuno fazer um reparo. Não sei quem convida os escribas que escrevem neste blogue, como também não sei quais as condições prévias estabelecidas. O que eu sei de outiva e por experiência própria, é que o delito de opinião não é coisa que se pratique neste espaço de expressão livre e plural, apesar do nome – mera ironia que pretende significar precisamente o seu contrário.
    Quem me conhece deste espaço sabe que eu nunca ofendi, caluniei ou usei linguagem imprópria que merecesse algum reparo. Por isso, manifesto a minha estranheza pelo facto de ver um comentário meu na rubrica “Pensamento da Semana” ser censurado pelo senhor Belo Moraes. Mesmo depois de invectivado sobre as razões de tal acto, a única ‘resposta’ que obtive foi silêncio. Silêncio e nada mais.
    Fica aqui expressa a minha perplexidade e o mal-estar que a pusilânimidade sempre provoca.
    Grato por me aturar
    Cumprimentos

    1. Meu caro: neste blogue não há “censura”.

      Censura é uma prática usada nas ditaduras, de direita e de esquerda, quando o Estado se intromete de tesoura em riste nos conteúdos informativos ou opinativos dos meios de comunicação.
      Aqui o Estado não entra.
      Estamos em nossa casa, decidimos pelo nosso próprio critério o que merece ser publicado e o que não merece.

      Mais: cada autor é soberano nesta matéria.
      O equivalente aos responsáveis de um jornal quando decidem se publicam ou não uma carta ao director.
      Chamar “censura” a isto é branquear as práticas censórias exercidas – repito – pelo Estado nos conteúdos informativos ou opinativos das ditaduras de esquerda e de direita.

      De resto, muito poucos blogues haverá como o DELITO, que sempre deu voz à livre expressão de milhares de leitores, das mais diversas correntes de opinião.
      Com números que falam por si: no momento em que escrevo estas linhas, já foram aqui publicados 366.406 comentários.
      Repito, por extenso: trezentos e sessenta e seis mil quatrocentos e seis.

      A caminho acelerado do meio milhão.

      Cumprimentos.

      1. Claro que não é censura. Deveria ter colocado aspas.
        Estou esclarecido. Na minha casa também só entra quem eu quero.
        Cumprimentos

      2. “Censura é uma prática usada nas ditaduras, de direita e de esquerda, quando o Estado se intromete de tesoura em riste nos conteúdos informativos ou opinativos dos meios de comunicação.”
        Parece-me uma boa definição do que se deve entender por Censura. Penso que corre por aí uma noção de censura que é errada. É como a noção de fascista parece que para muita gente fascista é, em linguagem comum, um gajo muita bera. Banalizam-se estas designações. Seria útil uma discussãoim sobre estes temas: que é Censura, que significa ser fascista? Etc.

        1. Há expressões que, à força de serem banalizadas, acabam por perder o significado original, dissolvendo-se numa nebulosa indistinta.
          Hei-de escrever com mais vagar sobre isso aqui.

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