Um dos meus sobrinhos já regressou à base e por isso fizemos um jantar de preparação para a Consoada. Está a trabalhar em Barcelona e de cada vez que regressa vem com a veia independentista mais inflamada, o que tem graça pois permite sempre que em cada regresso se pratique o saudável debate à volta de um tabuleiro de carne assada no forno e regada com um bom tinto. Ele, que anda ainda mais focado no desporto do que na visita anterior, depois de ter abandonado as colas, só bebe água. Não estive a controlar, mas acho que só bebeu água. No vinho sei bem que não tocou.
Diz que tem um amigo que lhe explicou que nos centros habitacionais à volta de Barcelona pouca gente fala castelhano e nas zonas rurais ainda menos. Depois de ter deixado de ser a língua materna no ensino oficial, as gerações mais novas deixaram mesmo cair o uso da língua de Cervantes. O castelhano é aliás a segunda língua do ensino oficial. Então, e inglês, perguntei-lhe. Respondeu-me com outra pergunta. Quem é que fala inglês em Espanha?
Acrescenta que as pessoas não se sentem espanholas e não se importam que a independência tenha custos económicos. Aceitam isso.
Perguntei-lhe qual a percentagem de catalães que não queria a independência. Disse-me que esses eram os pussy, estavam acomodados e preferiam o conforto à luta pela identidade.
Disse-lhe que a mudança do status quo ibérico tinha um enorme potencial de perturbação para o nosso país e que a União Europeia nunca iria aceitar como estado-membro algo que resultasse de uma secessão de um outro estado-membro. Insistiu em que os independentistas aceitam suportar essas perdas económicas. O custo das “futuras” forças armadas catalãs ainda foi assunto, mas já não teve seguimento.
Diz que já leu o “Homenagem à Catalunha” de Orwell, mas acabou por concluir que precisa de saber mais sobre a Guerra Civil de Espanha. Pois, disse-lhe, aí fala-se mais sobre os totalitarismos do que sobre a identidade catalã.
Combinamos pensar em mais alegações para continuarmos a conversa amanhã à noite. Já lhe tinha dito que, perante novos argumentos, adiar uma tomada de posição de modo a se poder pensar melhor no assunto, mostra, pelo menos, seriedade e mente aberta no debate.
Amanhã vou-lhe falar na “Ordem Mundial” e no “Diplomacia” de Kissinger, nas relações diplomáticas entre os estados e na norma da não aceitação de secessões como forma de manter a ordem, e ainda nos países e regimes que rejubilariam com uma Catalunha independente. Se, por entre o bacalhau e o peru, ainda tivermos tempo, vou recomendar-lhe ouvir a opinião de um catalão espanholista.
Aproveito a ocasião para desejar a todos os companheiros delituosos e a todos os leitores um Feliz Natal. Certamente, ainda voltaremos à conversa em 2023.

diga ao seu sobrinho que grande parte dos independentistas inflamados são como ele ,” catalães” emprestados , emprestados de outras regiões de espanha e de outros países. muito aborrecido para os espanhóis espanholistas de gema esta malta que mete a colher no casamento alheio.
talvez vir para cá exigir a independência do porto fosse mais apropriado.
bo nadal
Vaite logo, meu meniño
marcha agora para a camiña
Que vai vir o Apalpador
a apalparche a barriguiña
Esses habitantes na Catalunha e oriundos de outras regiões de Espanha são maioritariamente urbanos e espanholistas. Nas zonas rurais a língua castelhana é realmente residual.
“Quem é que fala inglês em Espanha?” Os espanhóis em geral, dirigem-se frequentemente
nosotros em inglês. Num inglês péssimo, diga-se. Nós costumamos responder em espanhol-castelhano, a ver se se tocam mas não, raramente chegam lá😁.
Bom Natal, Paulo.
Caso isso fosse materialmente possível, e que não é, bastaria falarem devagar o castelhano, que seriam sempre entendidos.
Feliz Natal também para si, Dulce. Obrigado.
Viva, Paulo. obre-a-catalunha-7-11175047
Quanto ao tema da Catalunha, teremos oportunidade de conversar em 2024, até porque haverá eleições autonómicas no próximo ano. Depois das galegas e das bascas.
Muito tenho escrito sobre o tema. Aqui, por exemplo:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/s
Foi já há quatro anos, mas mantém-se plenamente actual. Aliás hoje com maior recuo dos independentistas, que nas eleições gerais de Julho, somados, ficaram-se pelos 27%. nerales/2023-07-24/el-bloque-independent ista-pierde-el-46-de-apoyos-lastrado-por-e l-voto-en-clave-estatal.html
https://elpais.com/espana/elecciones-ge
Até hoje nunca os separatistas catalães obtiveram 50%+1 nas urnas, fosse em que eleições fosse. Estiveram sempre em minoria.
Sabemos que um processo de independência requer um movimento imparável, não inferior a dois terços ou três quartos dos eleitores, até pelo seu carácter irreversível. Ao contrário do Brexit, por exemplo: os britânicos separatistas venceram tangencialmente em 2017, rompendo laços com o espaço comunitário – muitos já estarão arrependidos, pois foi péssimo para o Reino Unido. Mas esse erro poderá ser corrigido com outro referendo – se nós, membros da UE, os quisermos de volta.
No separatismo estatal as coisas são diferentes.
A secessão é um caminho sem retorno. Por isso jamais poderá ocorrer apenas com uma percentagem ocasional de 50%+1 nas urnas.
Daí ficar bem claro que nunca o extremismo nacionalista da Catalunha atingirá os seus fins por via legal e pelo voto democrático. É apenas maioritário em zonas rurais dessa região autónoma espanhola e largamente minoritário nos centros urbanos, em Tarragona e na periferia de Barcelona, onde há mais eleitores, muitos oriundos de diversas outras parcelas de Espanha.
Feliz Natal.
Mais uns bons pontos para a conversa
Obrigado Pedro e votos de um Feliz Natal [<<-]
Não é para mim claro que a secessão seja um caminho sem retorno. Já houve no passado muitos casos de países que se uniram. A própria Espanha atual é o resultado da união de países que no passado foram separados. A Alemanha atual é a união (nada fácil, diga-se) de dois países. O Iémen atual, idem (embora agora esteja todo partido aos pedaços outra vez). Não é improvável que a Rússia e a Bielorrússia se venham a reunir. E assim por diante.
Da mesma forma que a Rússia e a Bielorrússia se separaram mas possivelmente se reunirão, também é possível que a Catalunha se separe do resto da Espanha e depois se volte a reunir.
Não se aceita secessões exceto aquelas que se aceita. Por exemplo, o Kosovo e o Sudão do Sul são secessões que se aceita. Já a Somalilândia ou o Chipre turco, não se aceita. É muito confuso.
Verifico que se registou nova “secessão” neste comentador: Luís Lavoura voltou a ser balio.
Boas Festas.
Boas Festas
Boas festas, Paulo
Boas Festas também, Teresa
Obrigado