Um homem, de 35 anos, ia levar o filho, bebé de nove meses, ao berçário, em Aveiro. Foi chamado de emergência para resolver um problema informático na empresa, deixou o filho durante horas dentro do carro e ele morreu. Insolação. A esta hora, o pai desnaturado deve estar a ser crucificado. E deve estar a sentir-se a pior pessoa do mundo. Não deixa de ser estranho que um pai se esqueça do filho, durante horas, dentro do carro, mesmo sabendo-se que levá-lo ao berçário não fazia parte das suas rotinas, já que era a mulher que costumava ter essa tarefa. Mas talvez o homem – que é apontado como pessoa responsável – não seja o principal culpado da tragédia. A tragédia será, porventura, consequência directa do tipo de vida que adoptámos nos tempos que correm, em que as prioridades estão alteradas pela força das circunstâncias, pela necessidade de sobreviver a cada dia e pela ambição do ter. Uma nova estrutura tomou conta das famílias, mesmo das que parecem mais normais. Enquanto isso, há crianças que morrem por descuido e outras que vivem tamanha liberdade por falta dos pais que tudo se torna uma agonia. Começa a ser tempo para parar um bocadinho e pensar. (notícia no JN)
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oanonimoanonimo,

Boa reflexão, Joaquim. Não servindo para retratar os dias que correm (a agudização da crise, etc.), acrescentar-lhe-ia que há uma angústia tipicamente portuguesa a pesar na vida agitada que levamos.
Refiro-me à nossa proverbial incapacidade para gerir o tempo, para nos aplicarmos em tarefas hierarquizadas e para cumprir horários racionais.
O dia começa invariavelmente tarde, sempre antecedido por um segundo café nas calmas e dois dedos de conversa. Quando começa, aproxima-se a hora do almoço, que é preferencialmente combinado com alguém e tende a arrastar-se até às tantas.
Claro que o fim do dia é um inferno. Quando já devíamos ter tratado de um sem-número de coisas pós-laborais e de estarmos esticados no sofá com a família à espera da hora do jantar, ainda estamos no pára-arranca a queimar litradas de gasolina e a desgastar um carro feito para não ter problemas durante dez anos e que só vai durar quatro até derreter…
O drama, mesmo, é que vivemos um tempo em que estamos todos demasiado virados para nós. A merda do sucesso, a pressão no seio dos casais pelo sucesso, as exigèncias mútuas pelo sucesso, as invejas pelos sucessos do outro, a pressão externa pelo sucesso, as invejas, a tralha toda, transfornou-nos em seres pouco recomendáveis. E pagam, por isso, os inocentes. Isto abala-me profundamente, cria-me sentimentos de culpa – mesmo quando não a tenho – e obriga-me a pensar. A ficar furioso por falhanços próprios e a tentar todos os dias relativizar os falhanços dos outros. Porque ainda tenho esperança – esperança vga, é certo – de que é possível ajudar a mudar isto.
Uma criatura que deixa o filho [ainda por cima bebé] dentro de um carro é uma besta! Se ainda por cima se esquece do filho durante horas [ou minutos que fossem] é um animal! Se matou o filho, é um criminoso; e não deveria haver palavras de indulgência para um indulgente desta espécie!
PS: Chamar os bois pelos nomes é um bom princípio para se começar a “ajudar a mudar isto”. [Fartinha de diplomacia e hipocrisia social].
Talvez a minha opinião aqui pareça demasiado dura e vá de encontro a esse “crucificar o homem”… a verdade é que como mãe me ponho de imediato no lugar dessa mãe e como cidadã sei de antemão que neste país de brandos costumes esse “tonto distraído” que se esqueceu de deixar o filho bebé numa creche a uns metros de distância de casa vai ter 427 atenuantes e há-de acabar em casa na maior das normalidades a sentir-se um coitadinho e com uma mera sentença de pena suspensa. Mas ontem, um inocente com apenas 9 meses, sem defesas e que não pediu para vir ao mundo, morreu com uma insolação ou asfixiado pelo calor após 3 horas sozinho dentro de um carro fechado…
É demasiado revoltante!
O comentário acima saiu como anónimo (chatice de não ter blog no sapo), mas acho que se percebe que é sequencial e da mesma autoria: TalvezTeEscreva.
Pois “talvez o homem não seja o principal culpado desta tragédia”, o culpado é o “sistema”.
Francamente, do mais absurdo sociologês que tenho lido. O autor deste post deveria ser fechado no carro ao sol durante 15 minutos antes de escrever o próximo post. Para “parar um bocadinho e pensar”
Deparei-me com esta notícia esta manhã. Horrível. E o que é mais horrível, se não nos armarmos em juízes, é que o comportamento do pai, por muito irresponsável, tem atenuantes. Concordo com a análise do Coutinho Ribeiro. Tenho que discordar um pouco do autor apenas porque analisa esta problemática à luz do seu patamar laboral. A maior parte das vezes, o drama não está no sucesso, nem nas rivalidades dos casais, o drama para a maior parte dos comuns mortais está na luta pela sobrevivência, por ganhar os minímos. Por isso há crianças que ficam sós, há pais que trabalham 12 horas e mais e as escolas vão parecendo depósitos. As pessoas vivem alucinadas, correm e depois páram…
O mais fácil é atirar pedras ao homem!
Gostei muito desta reflexão, Joaquim. Até porque me levou a pensar duas vezes sobre aquele pai que – confesso – não hesitei em classificar de desnaturado quando ouvi a notícia. Mas de facto quem não negligenciou já os filhos por valores que não são nada altos, mas que se alevantam, que atire a primeira pedra. Felizmente que só raras vezes essa negligência redunda em tragédia. Valha-nos isso!
Sem querer personalizar a questão, Teresa – mas lamentando desde já a tal desculpabilização que ainda há-de fazer da besta um pai bestial – não posso deixar de responder ao seu desafio e dizer-lhe que respondo já por mim, e que como mãe há treze anos me ponho já em pé e atiro a 1a, a 2a, a 3a pedra. Sem hesitação!
Sou mãe há 17 e não me apetece atirar pedras nenhumas… A situação é tão triste… Para quem morreu, para quem ficou, para todos nós que assistimos a estes tempos.
Talvez te escreva: Pois eu, este princípio bíblico, gosto de respeitar e a experiência tem-me dito que faço bem. Mas assim como digo uma coisa, digo outra: no lugar daquela mãe eu estaria com vontade de fazer o pai às tiras. Também não duvido que no lugar do pai eu estaria à beira da loucura. Com a cabeça fria só posso dizer que tudo o que o Coutinho Ribeiro afirmou é verdade. Que essa demência é um sinal dos tempos. Não nos desculpa, claro. Também não exclui ninguém. O inferno somos todos nós. Às vezes…
Ah! O sistema, claro. A culpa é do sistema. E do défice. E da crise. E da Comunidade Europeia. E da Opel. E dos ovos moles de Aveiro. E de existirem computadores. E de o pai do bebé ser informático. E de trabalhar. Que triste, coitado, que agora até vai ter de viver com a culpa. Que tristeza tão grande os tempos em que vivemos. Ora, porra! Um irresponsável de um pai matou um bebé de nove meses por indesculpável negligência!!
Compreendo o seu ponto de vista e concordo com ele parcialmente, Joaquim, mas não entendo como é que alguém se esquece do próprio filho três horas dentro do carro.
É crime na forma negligente, sim. E desconfio que o pai aceitaria de bom grado ir uns anos para a cadeia se isso lhe trouxesse o filho de volta. Mas como não traz, deixo ao promotor o dever de pedir a pena e ao juiz a análise do caso e a sentença, tendo em conta que o maior castigo já ocorreu. É assim que funciona e não adianta quererem ser vocês os juízes. Nem é legítimo.
Para mim, a importância do que escreveu não está na possibilidade de estar totalmente certo ou errado, ou mesmo de eu concordar ou não com o que diz. A importância está no facto de acrescentar mais um olhar para olhar para o que se passou.
Neste caso tão grave, não se tratará de alijar ninguém das suas responsabilidades. E as consequências devem ser plenamente atribuídas e assumidas.
Mas, também será útil tentar perceber o que pode levar um pai a ser/ficar tão negligente.
Dói muito isto tudo!
Tenho 2 filhos e fiquei chocadíssimo com a notícia! Eu próprio, há alguns dias, ia buscar a minha filha à EB 2/3 de São João da Madeira, cidade onde vivo, e dei por mim num local completamente diferente e distante!!! Concordo com a leitura aqui feita e discordo de todos os comentários radicais aqui deixados! Alguns dos comentários, aliás, chocaram-me tanto ou mais do que a notícia! O casal está desfeito e o Pai já está condenado, não precisa de mais pedras, muito menos na praça pública.
Agradou-me a lucidez da análise que fez acerca desta notícia trágica e forma tolerante como tratou o assunto. É curioso, aliás, ver como se extremaram tanto, os comentários feitos acerca dele. Há os que dizem mata, esfola e queima e, ao contrário, há os que, sem deixarem de considerar negligente a atitude do pai da criança, não deixam de pensar na sua condição humana e, como tal sujeita falhas. Eu, que também sou há muitos anos um pai atento e dedicado e que, fruto disso, tenho a graça de ser adorado pelos meus filhos, insiro-me neste último grupo. Sem querer estar a desculpabilizar uma atitude, no mínimo, negligente, não me sinto, contudo, autorizado a fazer um linchamento prévio deste homem na praça pública. Estou certo que a justiça compreenderá esta tragédia fortuita e julgá-lo-á com as atenuantes atendíveis ás circunstâncias em que ela ocorreu.
Porque (como já alguém antes comentou, e bem,) o maior castigo, a pior sentença que lhe poderia ser aplicada, já ele a teve: a dor insuportável de ter contribuído para a morte de um filho que já nada fará voltar à vida, durante todo o resto da sua existência.
Pesadíssimo fardo, sem dúvida, meus amigos…
Peço desculpa por não responder aos comentários individualmente, o que tento fazer sempre.
Mas, creio, que com tantas e tão diversas opiniões ficou tudo dito. Pela minha parte, mantenho tudo o que disse, sem a pretensão de ter feito uma análise sociológica. Só que, por força da profissão, aprendi a tentra ver todos os lados das questões. Mesmo destas – das que parece que só têm um.