Postal de Natal II


Teresa Ribeiro,

No supermercado, secção de chocolates:

– Ajuda-me lá a escolher.

– Olha, estes são óptimos.

– Ah, nem pensar! São muito caros. 

– E estes?

– Está melhor, mas mesmo assim não quero gastar tanto.

– Ehehe! Forreta!

– Ouve, afinal qual é a relação que eu tenho com os filhos do Jaime? Nenhuma! Os miúdos não querem saber de mim para nada. Vejo-os só no Natal! Para que hei-de então gastar dinheiro com eles? Levo um chocolate para cada um, só porque parece mal não lhes dar nada! 

16 comentários em “Postal de Natal II”

  1. Faz ela muito bem.
    Deve-se fazer assim mesmo, dar coisas baratas somente para não parecer mal não dar nada.
    No poupar é que está o ganho.
    Faz-me impressão saber que há muitas pessoas que a seguir ao Natal poupam no essencial (por exemplo, em tratamentos de saúde) porque no Natal gastaram demasiado no supérfluo (a dar presentes).

  2. Todas as pessoas são diferentes… existem até algumas
    que lhes parece mal receberem chocolates.
    Não estão habituados a receber têm receio que lhes peçam
    algo em troca. São muito sensíveis, gostam de poesia e etc e tal.
    Essa sensibilidade serve para desconfiar dos outros.
    Festas Felizes Teresa Ribeiro . 🎄🍿🍰🥂

  3. que espírito tão pequenino. Qualquer criança merece atenção e carinho sobretudo nesta quadra que é do nascimento de um Deus que se fez homem. Se todos gostamos de nos sentir especiais por que não levar os outros a sentir o mesmo? Isso é que era.

    1. Muito bem visto, Bea. Uma criança se receber um chocolate que custe 10 euros sente-se especial mas de receber um que custe 5 euros sente-se só meia especial.

      1. Não é apenas nem sobretudo uma questão de preço nas prendas, a sagacidade das crianças capta sentimentos, elas sabem quando eles não existem ou são forçados. Não que meçam o amor pela verba dispendida, factor a que são geralmente alheias, mas, digamos, sentem o desamor como ninguém.
        Ou com a atitude do “qualquer coisa serve porque não os vejo senão de ano a ano” pensa o senhor que haja atenção e interesse?! Dar produz um bem tão agradável no doador que nem entendo como podem as pessoas protelar prazer tão genuíno. Talvez não tenham aprendido o gosto da dádiva. Mas é sempre tempo de aprender.

        1. Descrever assim o acto de dar caracteriza-o como algo egoísta que se faz para prazer próprio. Dar para nos sentirmos bem connosco, com a nossa consciência. Não considero errado que nos sintamos bem a fazer o bem, só quando dar se torna uma tentativa de encobrir algo errado dentro de nós.
          E dar tornou-se complicado. Como já aqui foi notado, há quem não goste de receber porque não está em condições de retibuír. E há uma contabilidade natalícia – há quem escrutine quem deu o quê a quem e retire daí as conclusões mais absurdas.
          Das experiências mais parvas que já tive, um pai ia dar um iPad ao filho, a versão básica com pouca memória, e propus-lhe contribuír para uma versão mais acima, o que nem era caro. Seria a minha prenda. Seria mas não foi, foi quase uma ofensa. Ganhou o orgulho de pai, perdeu o filho, e eu não percebo essa lógica.
          Por causa de tanta mesquinhice não aprecio esta quadra. Tornou-se um estúpido barómetro para medir quem gosta mais de quem, baseado no preço do que se dá.

          1. Vivo noutro planeta. Lá no meu sítio as pessoas gostam de dar e também gostam de receber. Não contabilizam preços, mas apreciam que os outros se preocupem com o que são os seus gostos ou necessidades pessoais. Na verdade, só conheço uma pessoa que julgo não necessitar de nada (materialmente falando) e não é do meu sítio. Entre gosto e necessidades é fácil acertar.

            Mas que ideia é essa de darmos prendas para nos sentirmos bem?! É um Kantiano? Ou julga que eu o sou. Mas, nesse aspecto, não. Oferecer algo a alguém que precisa ou de quem gostamos, dá prazer sim, e nem o fim é egoísta, o fim é o bem estar da outra pessoa e não o bem estar subjectivo; ainda que o mesmo decorra do outro se sentir agradado. É uma alegria.

          2. Confesso que essa noção também me pareceu estranha, mas lá que é sólida é. Talvez Bill Gates seja tão filantropo para não se sentir mal com o facto de todos os anos refazer a sua praia privativa perto de Nova Iorque com areia do caribe. De qualquer modo muitos milhares recebem educação e vacinas à conta dele.
            Tiro-lhe o chapéu se nunca teve uma má experiência com o acto de dar. Acredite, também as há. E acredite, são bem amargas.

          3. Acredito que dar e ser mal recebido não seja uma experiência gratificante mas julgo que não a tive, não me lembro de tal. Se a tivera, procuraria esquecê-la, por morrer uma andorinha não acaba a primavera. Há muitas outras situações em que dar é gesto natural e que provoca agrado mútuo, sobretudo se movido a sentimentos e laços que ligam as pessoas envolvidas. Prefiro guardar essas e as outras, as mais altruístas.
            Haverá sempre quem tem mais e quem tem menos. Parece-me normal que os que têm mais se preocupem com quem foi, naturalmente, menos beneficiado. O motivo porque Gates o faz, só ele sabe; mas que os efeitos dos seus gestos altruístas salvam muita gente, é indubitável. E que dá lições ao mundo, é um facto. Ele nunca o saberá, mas sou-lhe grata pelo espírito humanitário.
            Talvez eu mesma tenha sobrevivido por caridade alheia; sem ela, não sei quem seria hoje ou sequer se seria alguma coisa.
            Bom Natal:)

      1. Não viu a pub? O Verdadeiro Espírito de Natal está na Worten. E na FNAC. E no El Corte Ingles. E no Continente. E na NOS. E no MEO. E na CocaCola. E na Dior. E no BCP. E no Rei dos Pneus. E na Amazon. E na Wish.
        Está por todo o lado. Pelo menos é o que a pub diz, e é melhor não contrariar, ou ainda levo com algum processo por difamação. Feliz Natal.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *