Postais de um Fotógrafo de Bairro (XIII)


Bandeira,

José Bandeira

 

O que há num lenço? Depende. No do senhor Cerqueira, por exemplo, há um buraco. Foi ele mesmo quem hoje o abriu, sem querer, com um cigarro. O senhor Cerqueira tem oitenta e quatro anos mas isso não o impede de respeitar o hábito, como o meu pai fez até morrer. Às vezes dá-se até ao privilégio de puxar umas passas no interior da tasquinha (como ao Lobo Antunes deixaram que fizesse na TV, deixaram é como quem diz, ou o deixavam fumar no estúdio ou ele não ia e pronto). De qualquer modo, a avenida Ivens é tão comprida e direita que dá para ver chegar os fiscais com semanas de antecedência. Pergunto ao senhor Cerqueira por que motivo atou o lenço à grade. Ele repete, como se isso explicasse alguma coisa, que “tem um buraco de cigarro”. Só um pouco mais tarde, olhando pelo visor da câmara, percebo que atara o lenço à grade na esperança de que alguém o visse e levasse. Que se deixasse seduzir por ele, apesar do buraco de cigarro, do defeito. Imagino que uma pessoa com outra vida, com posses (de bairro mais afortunado, enfim), teria dito qualquer coisa desagradável, sacudido a cinza do casaco e atirado o lenço para o lixo. Não assim o senhor Cerqueira, os conceitos de desperdício e de utilidade são neste bairro contidos por margens bem mais estreitas.

Vinte minutos depois de eu chegar, ninguém deitou ainda a mão ao lenço. Nem seria de esperar que o fizessem, com o senhor Cerqueira ali sentado a olhar para ele. Por fim levanta-se e, sem uma palavra, vai para casa. Nunca o tinha visto tão tristonho. Percebe-se-lhe bem o abatimento, ninguém levou o lenço e ele assim não fica descansado. Entretenho-me um pouco na conversa com o senhor Marinho, que é bem mais novo do que o parceiro de jogo mas tem mais mazelas do que ele: o senhor Cerqueira, que cala mais do que diz, apenas se queixa de não ter apetite, ao passo que o senhor Marinho tem as viagens de ida e volta ao quarto andar sem elevador para lhe dar cabo das pernas e da paciência. Volto a olhar na direcção da porta e não reprimo um estremecimento: o lenço já ali não está. Teria quem o levou vergonha de o soltar com o antigo dono a ver? Tal e qual as partículas quânticas que alteram o seu comportamento quando se olha para elas, achei graça quando li sobre isso, parecem mesmo pessoas, as partículas quânticas.

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