Postais de Lisboa (2)


Pedro Correia,

«Queremos uma cidade de fachadas limpas e de miolo destruído? Queremos uma cidade cheia de restaurantes de péssima qualidade (basta exemplificar com quase todos os da Baixa) e lojas de souvenirs de mau gosto? Queremos uma cidade com constantes eventos no centro, precisamente a zona da cidade que menos precisa deles? Queremos uma cidade cheia de apartamentos para alugar a turistas, atirando os lisboetas para as periferias? Queremos uma cidade a abarrotar de turistas low-cost que se alimentam em supermercados e vão comendo pelas ruas (sujando-as)? Queremos que a cidade se transforme numa gigantesca Disneylândia cheia de lixo no chão?»

Tiago Guilherme, na revista Evasões (17 de Março)

0 comentários em “Postais de Lisboa (2)”

  1. restaurantes de péssima qualidade

    Vivemos num regime de liberdade económica (e ainda bem). As pessoas têm a liberdade de ter um restaurante, seja de que qualidade for, seja onde for. Ninguém tem nada que ir dificultar a existência de um restaurante lá por ele ter má qualidade ou estar mal localizado.

    uma cidade cheia de apartamentos para alugar a turistas, atirando os lisboetas para as periferias

    Não faltam apartamentos vagos em Lisboa, que poderiam ser arrendados a lisboetas. Infelizmente parece ser difícil convencer os proprietários a colocá-los no mercado. Esse facto não é certamente razão para ir impedir outros proprietários de arrendarem os seus apartamentos a turistas.

    uma cidade a abarrotar de turistas low-cost que se alimentam em supermercados e vão comendo pelas ruas (sujando-as)

    As pessoas são livres de comer na rua. Os turistas low-cost são em geral cidadãos da União Europeia, que têm todo o direito de vir a Lisboa e não podem ser proibidos disso (é ilegal proibir o movimento de pessoas dentro da União). Quem mais suja as ruas até são portugueses que não são turistas.

    1. As pessoas têm a liberdade de ter um restaurante, seja de que qualidade for, seja onde for. Ninguém tem nada que ir dificultar a existência de um restaurante lá por ele ter má qualidade ou estar mal localizado.

      Isto é “Lavoura” do melhor, neo-liberal e tudo.

  2. Os apartamentos que atualmente são alugados a turistas são, na sua imensa maioria, apartamentos que, antes disso, estavam vazios, ou seja, não estavam a ser alugados. O que acontece é que, na opinião dos proprietários desses apartamentos, não era suficientemente compensador alugá-los a lisboetas, mas é compensador alugá-los a turistas. Aparentemente há qualquer coisa nos lisboetas que dissuade os proprietários de apartamentos de lhes alugar. O preço que os lsboetas são capazes de pagar não compensa, na opinião dos proprietários, os riscos – de não conseguir despejar o inquilino, de o inquilino danificar o apartamento, etc.

    1. Foi por isso que os senhorios atrasaram obras que deveriam ser feitas (infiltrações, agravadas pelo Inverno), atrasaram a reparação/inspeção de elevadores que deveriam ser feitas, para que os velhos de lá saíssem, pelas escadas e molhados, em nome do mercado.

      1. Caro Halber Mensch, já ouviu falar em criaturas ahistóricas? Aterrou agora em Portugal!? Hibernou nos últimos 50 anos!? Nasceu ontem?

      2. Há uma diferença radical entre um inquilino que tem o direito legal de permanecer indefinidamente no apartamento arrendado, e outro que tem um contrato com termo.

        O inquilino perpétuo trata em geral bem do apartamento (porque tenciona lá ficar a viver até à morte). O inquilino com contrato a termo trata por vezes mal do apartamento, quando não mesmo o danifica propositadamente (por raiva ao senhorio).

        Conversamente, o senhorio de um inquilino perpétuo deixa degradar o apartamento, para ver se consegue expulsar o inquilino. O senhorio com contrato a termo, pelo contrário, tenta preservar o apartamento no melhor estado possível.

        1. Tá bem tá…vá falar com o meu sogro!! Até lhe chovia por cima da cama. E os elevadores, adeus…já com a renda atualizada – 600 mocas/mês….mas o inglês paga isso por semana….

          1. Só o facto do Sr. Einstu … Neubate… apelidar de ” o velho ” ao seu sogro já me dá náuseas.

          2. O problema não é o valor da renda, o problema é o contrato de arrendamento ter ou não ter termo. Os senhorios não querem ter contratos sem termo e fazem tudo o possível para expulsar os inquilinos que os tenham.
            Pague o seu avô 600 euros ou pague 100, o senhorio fará tudo o possível para o pôr fora, porque o que o senhorio quer é ter um inquilino com um contrato com termo certo.
            O que é perfeitamente compreensível, aliás.

          3. Claro que é compreensível. Até se pode matar o velho, se o serviço for bem feito. Um alivio para o senhorio e para a Caixa de Aposentações.

  3. uma cidade cheia de restaurantes de péssima qualidade (basta exemplificar com quase todos os da Baixa)

    Esta queixa recorda-me a falecida Maria José Nogueira Pinto, que em tempos também fez um plano que tinha por objetivo erradicar as “lojas de chineses”, e outras similares, da Baixa de Lisboa. Felizmente esse plano foi muito apropriadamente denunciado como racista e xenófobo e foi deitado para o cesto dos papéis.

  4. A citação tem os tropos todos do discursozinho marxista aldeão lisboa pequenina e pacatinha como os domingos dos anos 80. Quem é que define o bom-gosto das lojas de souvenirs? O Tiago Guilherme? A Catarina Martins? Os alunos da FCSH? O Presidente da Câmara? O zé que fazia falta que quer todos os toldos brancos em louvor de Alá ou o raio que o parta? Deixem as coisas acontecer. Façam como o Daniel Oliveira que diz mal mas ao menos já tem uma casa de hóspedes e agora é empresário e tudo. A questão das rendas é outro problema, porque tem que ver com a intromissão do Estado na Economia e o mau planeamento urbano e o infinito oportunismo de políticos sem vocação autárquica. A culpa não é do turismo —que é o que é— e é o que ainda vai salvando muita gente. Senão tínhamos o quê? Mais função pública, cooperativas soviéticas? Onde é que os pançudos da função pública vão buscar dinheiro para ordenados e reformas senão ao comércio e turismo? Tenham mas é juízo e tirem a pata de cima. Deixem andar. Não mexam!

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