Pós-eleitorais (5)


Pedro Correia,

O PCP parece viver numa realidade paralela, como bem demonstra a mais recente edição do jornal oficial dos comunistas. Analisando o escrutínio presidencial de 24 de Janeiro, o impagável Avante! conclui o seguinte: «Não há resultados eleitorais capazes de apagar o carácter ímpar da candidatura de Edgar Silva e do colectivo imenso a que deu expressão; o projecto que corporizou é, também ele, inapagável, pois radica nas aspirações mais profundas dos trabalhadores e do povo.» Dir-se-ia a celebração de uma vitória. Mas não: trata-se afinal da leitura que os comunistas fazem do descalabro oficial do seu candidato – o pior resultado de sempre do PCP nas urnas. Por mais pesada que seja a derrota, o partido da foice e do martelo transforma-a sempre numa radiosa tomada do Palácio de Inverno. Com esta lógica discursiva, os amanhãs jamais cessarão de cantar.

0 comentários em “Pós-eleitorais (5)”

  1. Uma coisa é certa e é má notícia: o insucesso financeiro da campanha requer mais quotas, o que significa mais empregos públicos.

  2. O PCP é isto. Sempre foi isto. E se deixar de ser isto deixa de ser o PCP.

    O Plano quinquenal não deu os resultados que a teoria indicava. Não faz mal muda-se a realidade no papel e nas palavras.

    1. Neste caso não foi o plano quinquenal: foi o plano trimestral que fracassou. Um verdadeiro naufrágio entre a candidatura comunista às legislativas de Outubro (8,2%) e a candidatura comunista às presidenciais de Janeiro (3,9%).

  3. E então? Isso fazem todos os partidos.

    Ainda aqui há poucos meses existia uma coligação que dizia que tinha ganho as eleições, apesar de não conseguir formar governo.

    A mesma coligação que diz que os adversários são uma geringonça e se desfez, deixando os partidos que a constituíam de votar em conjunto num parlamento.

    1. Eheheh. Você, se fosse árbitro, chamava-se Cosme Machado. E validava golos irregulares, do tamanho da Sé de Braga.
      Maquilhar uma pesadíssima derrota por 3,9% com expressões ditirâmbicas (“o carácter ímpar da candidatura”; “o colectivo imenso a que deu expressão”; “o projecto que corporizou é inapagável”) é algo que decorre de uma visão delirante.
      Comparar os 3,9% obtidos pelo “padre” Edgar em 24 de Janeiro com os 38,5% alcançados pela coligação PSD/CDS a 4 de Outubro é outro delírio – aliás a hipótese menos má. A pior hipótese seria que tal confusão redundasse de mera desonestidade intelectual.

      1. Se pensasse que a política era o mesmo que o futebol, também andava por aqui a falar de vitórias morais e com o chapelinho do Calimero a dizer “que injustiça”.

  4. A leitura que o PCP e os outros partidos fazem dos resultados eleitorais interessa-lhes, mas pouco interessa ao País.
    Já não digo o mesmo relativamente ao aumento de 150% dos vencimentos de certos gestores públicos que, por acaso, se bem entendi, teriam uma palavra a dizer acerca da privatização da TAP.
    Tudo feito muito à pressa, antes que fosse tarde, pelo anterior Governo.
    Isto, sim, preocupa e penaliza direta e imediatamente o País.
    Mas parece não preocupar quem, todos os dias, por aqui, apoia os partidos da Direita e reclama menos estado e melhor estado.
    E estas contradições também penalizam, e muito.
    Muito mais que a análise, pelos partido, dos resultados eleitorais, próprios ou alheios.

    1. A questão dos salários astronómicos dos gestores públicos – que não é nova, mas recorrente – devia preocupar sobretudo todos aqueles que defendem mais empresas públicas, mais despesa pública. Devia preocupar sobretudo todos quantos batem no peito em defesa da “reversão de todas as privatizações”. Devia preocupar sobretudo aqueles que sonham com um país hiper-estatizado.

      1. Os salários em causa ora são milionários ora são justas e naturais remunerações, pagas a profissionais altamente qualificados e conhecedores – única forma aliás de cativar para o universo público essas tão essenciais pessoas -, em função da filiação (formal ou informal) do visado e da cor política no poder.

        Os mesmos que hoje se escandalizam sonoramente com aumentos dessa ordem são largamente os mesmos, fosse isso produto de decisões da sua gente, a benefício da sua gente, que tudo achariam perfeitamente explicável e explicado.

        É assim, suponho que todos o sabemos. De modo que a questão permanecerá recorrente. Aliás é uma sempre vistosa arma de arremesso – sofregamente ansiada pelas tropas de cada lado, mas incapaz de provocar verdadeiros danos – e que, diria, as partes, em prévio acordo de “cavalheiros”, já de décadas, aceitam partilhar entre si. Um entretenimento, enfim.

        E, arrisco dizer, é coisa perfeitamente compatível com (estará na essência, mesmo), um país hiper-estatizado. Cuja concretização se manifesta usualmente numa população universalmente empobrecida, garantida – se estiver… – a sua sobrevivência, mas nem um passo além disso, largamente não qualificada ou obsoleta nas suas capacidades profissionais, dependente em absoluto do emprego público, e um grupo dirigente, entre as direcções política e técnica (quando não são uma e a mesma coisa), vivendo uma vida de luxo.

        Suponho que a generalidade dos opinantes que acham isso tudo muito bem se imagina integrando esse grupo dirigente. Cuidado: vivem muito bem, mas consta que se defenestram e “purgam” impiedosamente.

        Costa

        1. O mais espantoso, para mim, é verificar como os adeptos do estatismo se insurgem contra os salários dos gestores públicos. São os mesmos que defendem a proliferação de empresas públicas em Portugal: se pudessem, o País inteiro seria propriedade do Estado tentacular.

  5. Se bem me pareceu o jornal classifica o carácter de Edgar Silva e aí, quem é o Pedro ou todos nós, para o avaliarmos. Eles não celebraram vitória e não continue a deturpar as coisas. Eles sabem que não ganharam nada, mas nós também sabemos que eles andaram a fazer campanha política, embora o Pedro insista na sua tecla. Não se preocupe com Edgar nem com o PCP que eles continuarão por aí. O seu eleitorado não foge e estas eleições não mostraram nada de nada, do eleitorado do PCP e de outros. Nestas eleições votou-se em candidatos e sobretudo em Marcelo Rebelo de Sousa pessoa afável, simpático, sociável, cordato e sobejamente conhecido de todos, ao longo dos anos nas televisões e não se votou em partidos. Esta é a realidade quer queira quer não. Os factos falam por si.

  6. Dou-lhe uma sugestão dum comentário que este já cheira a mofo. Que tal falar dos aumentos astronómicos dos gestores da aviação civil, feita pelo anterior governo e que esteve no segredo até agora.

          1. Não disse nada e disse tudo porque para bom entendedor meia palavra basta. Não falou do esbanjamento do PSD/CDS porque sabe que fizeram mal. Quando o assunto não lhe interessa porque não pode ir contra os seus interesses, tem afirmações destas, medíocres. O seu mal é que vê, mas faz-se de ingénuo porque tem de ser assim, para não ferir aqueles que tanto defende, os medíocres ao serviço de grandes interesses.

  7. Esta postura do PCP perante uma derrota eleitoral, é apenas a demonstração do que eleições livres significam para os comunistas: nada, zero! É por isso que apesar das copiosas derrotas que o PCP tem sofrido desde as primeiras eleições em 1975, eles dizem sempre que tiveram uma vitória em nome de um povo que não vota neles.
    Lembro-me bem da “azia” do Cunhal na noite das eleições para a Constituinte, onde o PCP teve apenas teve apenas 12,5% dos votos. Em 1976 o PCP conquistou 14,5% dos votos, mas o MDP/CDE que tinha tido 4,5% nas constituintes, já não concorreu. Depois destas eleições o PCP nunca mais se apresentou a eleições com o seu próprio nome, nem com a sua bandeira vermelha com a foice e o martelo a amarelo. Foi FEPU, foi APU, e agora é CDU. Sempre derrotado!

  8. O PCP é tão redondo, mas tão redondinho que faz dos portugueses aquela imagem cinzenta e certinha e imutável que tínhamos no Estado Novo.

    Agarradinhos ao passado…!

  9. Não esqueçamos que segundo o mesmo editorial MRS ganhou as eleições por “escassa maioria”. Palavras para quê? Trata-se demais um exemplo do (ir)realismo socialista que lhes permite ir de vitória em vitória até…sabe-se lá quando.

      1. Fala tanto da vitória do Marcelo como se o Marcelo lhe pedisse auxílio ou o quisesse. Ele não quis auxílio de ninguém porque sabia que se o tivesse lhe seria muito mais difícil.

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