Pós-eleitorais (3)


Pedro Correia,

As chamadas esquerdas quiseram medir forças nas presidenciais. Perverteram o espírito deste escrutínio, transformando-o numa segunda volta das legislativas (e em novo round das primárias do PS, no caso do confronto Nóvoa/Belém). Alegavam que só a multiplicação das candidaturas conseguiria travar o passo ao “candidato da direita”. Pura mistificação, como a linguagem das urnas demonstrou: as esquerdas multiplicadas valem hoje apenas 38,1%. Em política o aumento de parcelas costuma produzir efeitos destes: subtrair em vez de somar.

0 comentários em “Pós-eleitorais (3)”

  1. Mas parece que os socialistas aprenderam a lição. Ontem, no JN:

    “Manuel Pizarro deverá ser o único candidato à liderança da federação distrital do PS-Porto, respeitando assim a vontade do líder do PS, António Costa, que já defendeu a necessidade de haver candidaturas únicas em todas as distritais.”

    A partir de agora, só vitórias à Obiang…

  2. Perverteram o espírito deste escrutínio, transformando-o numa segunda volta das legislativas

    Onde é que o Pedro descortinou alguém a dizer tal coisa, que as presidenciais eram uma segunda volta das legislativas?

    Parece-me que esta é apenas uma interpretação muito criativa do Pedro…

  3. Caro Pedro:
    «as esquerdas multiplicadas valem hoje apenas 38,1%. »
    Cuidado com os lapsos na Matemática, arrisca-se a aparecer-lhe pela frente o Crato e depois quero ver como se safa.
    Se multiplicar o resultado do Nóvoa pelo da Marisa dá para as esquerdas ganharem 4 eleições com maioria absoluta.
    Vá lá, substitua multiplicadas por somadas.
    Há uma dimensão das análises que, curiosamente, nunca vi contemplada: o financiamento dos partidos através das eleições.
    Os das esquerdas, que não contam com a simpatia nem as bolsas dos privados que têm a massa, financiam-se através do Estado, de diversas formas, incluindo as eleições.
    O caso é evidente no bónus de 500 mil euros que o BE irá receber por estas eleições e na (lamentada) perda de 380 mil do PCP pelo mau candidato que escolheu e pela participação na geringonça (bendita geringonça se ajudar a acabar com o último dinossáurio político na Europa Ocidental).
    E o PCP financia-se ainda através das autarquias que gere, que enche de filiados (só na minha, com 903 funcionários, tem mais de 500 militantes), pois estes pagam a dízima ao partido. E através de todos os cargos que consegue em todas as estruturas do Estado, nos mais diversos acordos que faz: veja o caso da Área Metropolitana de Lisboa, cujo 1.º secretário é Demétrio Alves.
    Por isto o PCP é o mais acérrimo opositor de qualquer reforma do Estado: está sempre contra qualquer racionalização administrativa.
    A proliferação de estruturas é o sangue donde se alimenta.
    O instinto de sobrevivência deste dinossáurio, forjado na clandestinidade durante quase metade da sua longa existência (foi criado em 1921) , condiciona toda a racionalidade que que por lá possa existir.

    1. As esquerdas multiplicam-se para se somarem. Mas com isso só (se) diminuem.

      Quanto ao seu comentário ulterior, é uma reflexão com muito interesse. Vou destacá-la, como merece.

      1. Sem dúvida, tudo dito bem dito.
        Com modelo idêntico está o PS, mas ainda não cobra o dízimo aos seus. Em vez disso, opta por cobrar a todo país para agradar os seus eleitores.

        1. O conceito de dízimo faz sentido num partido como o PCP, que tem muitas semelhanças com uma congregação religiosa – com os seus hinos, a sua liturgia, os seus paramentos.

    2. Concordo: os resultados do candidato do PCP devem ser vistos como um desaire tanto político quanto financeiro. Em proporção idêntica.

  4. Quando lhe convém, a direita, distorce a realidade.
    Até já há quem tenha o descaramento de escrever (mesmo sem acreditar) que as “esquerdas” valem hoje apenas 38,1% .
    Aconselho-os a terem calma, paciência, honestidade e discernimento!

  5. Reconheço essa estratégia talvez no BE e no PCP (por terem tido bons resultados nas legislativas), mas acho forçado medir o valor “das esquerdas” por estas presidenciais, que tiveram particularidades que nenhuma outra eleição teve.

      1. Apanhou-me com essa. Mas elaboro: Marcelo encontrou um consenso nunca antes visto por entre os eleitores (que não se reflectiu nos partidos que o apoiaram) e roubou muitos votos ao PS (quero acreditar que a mais nenhum).

        O desinteresse (também inédito) do PS pelas eleições fez o resto.

        1. Mário Soares encontrou um “consenso” muito maior que esse na eleição presidencial de 1991. Já tinha acontecido o mesmo com Eanes na eleição de 1976.
          Marcelo, se beneficiou disso, foi por mérito próprio – não por imposição partidária de qualquer espécie. Daí iniciar com uma legitimidade muito própria e muito grande o seu mandato em Belém.
          O “desinteresse” do PS resultou, desde logo, da deserção dos chamados candidatos naturais do partido – com António Guterres, Jaime Gama e António Vitorino à cabeça. E para isso, não duvido, Marcelo contribuiu também.

      1. Era o Tino?! Não goze que fica-lhe mal, tão mal que utiliza o nome de alguém, para gozo puro. A direita nem sequer teve candidato porque aquele em quem apostaram disse-lhes, redondamente não. Outra coisa muito interessante são as contas de que a esquerda vale X e a direita vale Y. Que se saiba, estas foram eleições à presidência, em que o s presidentes não podem ter cor política e não às legislativas, mas o que interessa, não é construir é destruir e isso, aqui, é o pão nosso de cada dia.

        1. Os candidatos não podem ter cor política?!
          De que planeta desembarcou você?
          Repare no que disse o camarada Jerónimo, referindo-se ao PCP: «Podíamos arranjar uma candidata engraçadinha.»
          O secretário-geral disse tudo nesta frase: foi o partido que “arranjou” o candidato, membro do Comité Central. Uma tarefa partidária, como qualquer outra.

          1. Sabe muito bem o que quero dizer, mas como de costume interpreta à sua maneira e destorce como bem quer e isso não é sério, para quem se quer pôr no topo do jornalismo. Assim, meu caro Pedro não vai lá. Não continue a bater no Jerónimo que ele já viu que errou. Os partidos podem apoiar um candidato, mas o candidato, tem de ser presidente de todos os portugueses de igual maneira, coisa que não se viu no actual presidente. Isto é o B, A, BA, da política e o Pedro sabe muito bem, mas depois vem com comentários que parece que desconhece tudo isto, o que o deixa definitivamente mal.

          2. Os presidentes podem ter apoios de partidos, mas não podem ter cor política. Um Presidente é presidente de todos os portugueses, sejam eles rosa, vermelhos, laranjas, azuis, amarelos e tem de olhar para todos e se diz que têm cor política, está a induzir os outros no erro. Se olhar só para aqueles que lhe deram apoio, então não é presidente de todos os portugueses e isso é muito mau. Ainda temos um presidente que mostrou aos portugueses e ao mundo que foi tudo, menos presidente de todos os portugueses, mas foi presidente daqueles que o apoiaram. Também lhe garanto que ficará na história como o pior dos presidentes.

          3. ” mas não podem ter cor política.” Não podem mas têm.
            “Um Presidente é presidente de todos os portugueses” Isso é o que eles dizem.
            “e se diz que têm cor política, está a induzir os outros no erro.” Não induz em erro, está só a falar verdade.

        2. É é. Até à semana passada o Prf.Marcelo era um cata-ventos; uma segunda versão de Cavaco; um inquerente em constante contradição; um populista, etc etc.
          Esta semana já é um amigalhaço, um gajo porreiro…

  6. Ainda bem que, aqui, também se fala, e muito, de literatura.
    É que já cansa a guerra esquerda-direita-um-dois-três…
    É assim há muito tempo.
    Mas não me lembro de, pelo menos a nível das elites, haver tal azedume, tal espírito de negação primário e sistemático, como o que vai acontecendo por parte da direita.
    Definitivamente, tarda a fazer o luto.
    E isso é muito perigoso para a sanidade mental.

  7. Esqueço-me sempre, porque normalmente não é necessário:
    – o, provavelmente anónimo, que acaba de comentar sou eu:
    – João de Brito

      1. Para além de culto, Vossa Excelência revela intuição.
        É que é mesmo nome próprio.
        Não me imaginaria, a mim próprio, fazendo questão de assinar João DE Brito, sendo Brito um apelido.
        Por isso é que, julgando os outros (outros?!) por mim, às vezes,
        imprudentemente, aconchego-me em afetos e intimidades proibidos…
        Peço desculpa!

        1. Não percebi. Eu tenho um DE no nome mas não o posso tirar do bilhete de identidade. Quem me registou percebia pouco de escrita e o escrivão também era (suponho) semi-analfabeto pelo que inventou o DE.

  8. 1 – Marisa Matias alcançou votos de eleitores que nas legislativas votaram: LIVRE, PS, CDU e BE. Foi uma candidatura abrangente e o BE não deveria torná – la sua.
    2 – Parte do BE e da CDU estiveram com Sampaio da Nóvoa.

    Não se deve deduzir: Marisa/BE.

    1. Pois, José Manuel. Alcançaram objectivos opostos: Marisa alargou o espectro de votantes do BE, Edgar estreitou o do PCP.
      Um jornal publicou esta semana um estudo sobre transferências de votos das legislativas para as presidenciais. Marisa Matias conseguiu votos de todas as áreas políticas, incluindo do PSD/CDS. Os votos de Edgar Silva vieram quase só da CDU, além de franjas muito residuais do BE.

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