Porco machista


Diogo Novo,

O João Pedro George é uma das minhas leituras semanais imprescindíveis. No mês passado escreveu um texto intitulado “Mulheres”, culto, irónico e pouco consentâneo com o pensamento único, embora nele nada houvesse de insultuoso ou chocante. Versava sobre a importância das mulheres na vida de alguns escritores portugueses, autores de outras épocas e, por conseguinte, de sociedades diferentes daquela onde vivemos. Como se diz em Espanha, lo han puesto a parir. Entre os vários mimos repartidos por leitores indignados surgiu o proverbial “porco machista”, epíteto usado como título da crónica onde João Pedro George responde às críticas. Dessa resposta, retenho este parágrafo:

 

“As pessoas são completamente livres para lerem estas crónicas como quiserem, porém, e usando da mesma liberdade, deixem-me que vo-lo diga que algumas lêem apenas para não pensar. Todas saberão ler palavras soltas, mas nem todas as entenderão combinadas, sobretudo quando assentam em técnicas de discurso e em procedimentos retóricos como a ironia, as antífrases, os subentendidos, a sátira, em suma, quando exigem mais do que um nível de leitura ou de interpretação (além de um certo esforço de atenção). Por certo, é a capacidade ou incapacidade de identificar esses e outros efeitos textuais que distingue aqueles que sabem ler um texto e aqueles que, ignorantes das infinitas possibilidades da escrita, não conseguem ir além dos estreitos sentidos literais e das análises superficiais. Será verdade, como oiço tantas vezes dizer, que os tempos não vão para leituras atentas e meditadas, e que há cada vez mais pessoas que precisam de tudo minuciosamente explicado e óbvio, sem ironias, nem entrelinhas, nem associações ou cruzamentos entre planos da realidade”

 

De facto, quem não entende isto, azeite. Resta saber se há lagares em quantidade suficiente. 

16 comentários em “Porco machista”

  1. A diligente polícia do pensamento e a implacável brigada das novas censuras patrulham tudo, de dedo no gatilho.
    Muitas vezes disparam antes de ler. O que não admira, pois em grande parte são iletradas.

    1. Não, iletradas não, Pedro – acusam de dedo em riste mas não para assinar com impressão digital… é tique.
      Na real vida talvez alguns assinem a rogo por muitos, mas todos juntam letrinhas e teclam velozes, como todos os dias constatamos. E muitos terão lido muito e até pouco, e haverá quem conheça os nomes do Eça de Castelo Branco, do Vitorino de Mello Breyner, do Soeiro Bessa-Luís…. Pensar! Pensar é que é o óbice: sinapses ocupadas pela falta de imaginação provocam descargas de mau-humor, inibidor natural do raciocínio… é “impactante”, parece!

  2. Bom dia.
    Respeitosamente, e convicto de que o percebo, além de ter apreciado o texto citado, por favor, para essa gente o azeite NÃO, pois que o AZEITE é um “néctar” bom demais. Coitadinho do azeite.
    António Cabral

  3. É fácil e barato chamar porco machista/chauvinista a um homem. Já estamos habituados. A expressão “porca feminista” não é muito usada, podia ser neste caso. Feminazi também serve.
    Há mulheres para quem uma relação é mais guerra do que cooperação. Provavelmente a que chamou porco machista é uma das milhões de mulheres liberadas que fizeram das 50 sombras de grey um sucesso – daria um estudo sociológico interessante. Há muito tempo que algumas mulheres fazem o possível para espezinhar os homens enquanto se queixam em privado que já não há homens como dantes.
    Há décadas que luto como posso para que o estatuto de dona-de-casa seja reconhecido para efeitos de descontos e reforma. É um trabalho, e dos mais difíceis, mas a esquerda e as feministas sempre foram mais lestos a atacar quem escolhe essa opção do que a conceder-lhe os direitos devidos a qualquer trabalhador. É mais um exercício de hipocrisia, todas consideram que é imenso trabalho mas depois não o consideram legalmente como tal.
    Como single father estou particularmente à vontade para mandar postas de pescada. Cá em casa o trabalho é feito pelas senhoras minhas mãos, felizmente cada vez mais com a ajuda dos meus filhos, quando podem.
    Eu gosto de escrever, desenhar, fazer música, e realmente não tenho tempo. Diga-se de passagem quando estava casado também não tinha. Como homem-porco-machista-heteropatrialcal-opressor sempre achei indecente não partilhar as tarefas com uma mulher que trabalhava tantas horas como eu.
    A verdade é que ficar em casa não é tanto uma escolha social, é sobretudo económica. Os poucos casos que conheço nem abonam muito em favor das mulheres – basicamente vão levar os miúdos à escola, partem para o ginásio, passam por qualquer pronto-a-comer a buscar o almoço, e têm quem faça as camas, aspire, trate da roupa e deixe o jantar pronto. Talvez vão ao supermercado. Não considero isso escravidão do lar. Pudesse eu ter essa “degradante escolha” e chamava-lhe um figo. Já devia ter escrito umas quantas novelas, pintado dezenas de quadros, e composto várias sinfonias.
    Tenho muita pena de viver numa época e sociedade onde se cultiva o ódio. Mulheres contra homens, ricos contra pobres, novos contra velhos, muçulmanos contra católicos, e governos contra povos. A colaboração deu lugar ao confronto, e é o que temos. Diria que vai acabar mal, mas já está pior que mal.
    A vida é curta e complicada. Não percebo a utilidade de inventar mais complicações, e no entanto parece que se tornou profissão.

    1. Tem toda a razão, a colaboração deu lugar ao confronto.

      Escrever “a esquerda e as feministas” é uma boa expressão para se afirmar do lado dos que buscam o confronto, e que fazem o contrário daquilo que afirmam querer.

      Sou feminista e de esquerda, e da mesma maneira que não entendo que se silencie ou se invective quem pensa de forma diferente porque pensa diferente, também não percebo o que subjaz às generalizações – talvez ambas fruto do preconceito, mas se em pessoas intolerantes compreendo os vários padrões, o único padrão que vejo em quem se indigna porque “os outros” não se preocupam é algo entre o da hipocrisia e o da não ponderação. Este último apenas porque dou o benefício da dúvida; mas tristemente duvido.

      1. Teria sempre de ser a esquerda e as feministas, e isto não por um preconceito ou vontade de confronto. Acontece que não há direita a governar em Portugal desde 1974, e a questão do reconhecimento legal do trabalho doméstico diz respeito sobretudo às mulheres. Como, ou porque deveria escrever a frase de forma diferente?
        Quanto ao preconceito, você assume-se como feminista de esquerda, e eu acho que é redundante, justamente por pré-conceito – conhece alguma feminista de direita?

      2. Vou fazer-lhe um pedido.
        Haverá em princípio uma resposta minha ao seu comentário. Ignore-a, por favor.
        Mas não é esse o pedido. O meu pedido para si é que nunca mais comente seja o que for que eu escreva neste blog. Não sei se reparou, mas a partir dum certo ponto eu deixei de comentar os seus posts. Respondi a este, foi um erro. Não torno a repetir e agradecia o tratamento recíproco. Obrigado.

        1. Respondo a ambos os seus comentários; chamemos-lhe encerramento de ciclo.

          Conheço várias feministas de Direita, várias delas filiadas no CDS/PP – partido que esteve várias vezes no poder desde 1974 e que se assume como de Direita. Não sou eu que o afirmo; mas talvez não tenha reparado.

          https://www.google.pt/amp/s/observador.pt/2018/06/30/cds-quer-ser-a-primeira-escolha-da-direita-portuguesa/amp/

          https://www.google.pt/amp/s/www.dn.pt/portugal/interior/amp/de-estagiaria-da-politica-a-lider-as-paixoes-de-cristas-4982876.html

          Efectivamente, não tinha notado que não comentava os meus comentários (não coloco postais neste blogue) porque, além de ter estado algum tempo afastada, não lhe vejo há algum tempo comentários noutros postais, tenha eu comentado ou não – ou, se vi, não terei nem concordado nem discordado.

          Não se pronunciar sobre comentários meus é um direito seu, tal como apoiar ou exercer contraditório aos seus comentários é um direito meu. Não aguardarei resposta sua, até porque tenho a certeza de que nos seus comentários não buscará diálogo comigo; mas terei de declinar desde já o pedido que me endereçou – reservo-me o direito, conquistado pelos muitos feministas que me antecederam, de ler e comentar tudo o que, sendo público, me despertar a atenção. E não o hipotecarei nem mesmo perante tão enfática solicitação.

          Mas é interessante, esse seu pedido. Costumo responder aos comentadores que descarto algo no estilo “compreenderá que não lhe responda; não tenho interesse em dialogar consigo” porque sou eu que me imponho o limite, que me afasto; esse jeito de, mesmo que educadamente, dizer aos outros o que podem comentar e a quem se podem ou não podem dirigir não se coaduna com os meus valores.

          Nada a agradecer.

          1. Típico.
            Enfim, pedir não custa. Só não me volte a insultar, esse direito não tem.

          2. Vejamos:

            Há uns tempos foi o António que reiteradamente me instou a responder-lhe a uma questão, na sequência de um meu comentário a outro comentador.

            Nunca havia interpelado o António, nem recordo de o ter feito a não ser neste postal.

            Neste postal interpelei-o porque o António resolveu insultar a esquerda e as feministas para defender um seu ponto de vista. Apontei-lhe que fazia exactamente o contrário do que dizia pretender: evitar confronto e promover diálogo.
            Primeiro respondeu-me, e 12h depois, sem qualquer atitude minha, resolveu retirar a resposta e dizer-me para não lhe voltar a dirigir a palavra.
            Tendo-lhe respondido que me reservo o direito de comentar o que entender comentar, e que quando não se quer diálogo basta não responder ou dizer que não se pretende diálogo em vez de tentar impor limites aos outros, volta a dirigir-se-me, desta vez solicitando que eu não lhe faça aquilo que fez a todos os que se consideram feministas ou de esquerda.

            Típico, efectivamente, de quem não prima pela coerência nem pela compreensão daquilo que um diálogo.

            Por falar em diálogo, este é um que, de todo, não me interessa. Caso continue, saiba que será em monólogo.

            E ainda assim me reservo o direito de comentar o que entender, seu ou de outra pessoa.

    2. Como o mundo é diferente. As mulheres que conheço como donas de casa confeccionam a horas todas as refeições de todos os dias, limpam a casa, vão às compras e gerem com grande ginástica o orçamento doméstico, cosem, lavam (a máquina ajuda muito) e passam a ferro. Levam os garotos à escola e a restantes actividades e dão uma ajuda nos tpc (deles). Havendo quintais ou afins são elas que tratam, animais também lhes pertencem excepto se os consortes se perdem de amores por algum e aí eles assumem. Não sei se estas mulheres gostam de ler, mas com tanto afazer julgo que acumulem cansaço e pouco lhes apeteça. Por descanso e pausa falam umas com as outras via facebook ou outra rede social e vão mostrando imagens do que têm de melhor – ou supõem – tanta vez sem pudor ou sentido de intimidade. Ou massacram o telemóvel com sms e ligações intermináveis e sem sumo. Penso que as mulheres que conheço não são felizes (há excepções), mas grande parte delas não dá por isso e tão pouco é assunto. Vive para outras coisas, o que aliás, acho salutar.
      Sou 100% a favor da sua remuneração.

      1. A remuneração é uma questão muito complexa. Acredite que apesar de tudo ser muito difícil, o começo tem de ser pela parte do enquadramento legal desse trabalho e do direito à reforma. Doutro modo assusta o ministro das finanças.

        1. Bem sei. Tudo que às mulheres pertença e seja devido, se não tiver enquadramento legal, não é nada e nem chega a ser. Porque falar é fácil, não belisca os trâmites do conforto instalado que tal legislação agita e desconstrói. Mas não será nos tempos mais próximos que tal lei entra em vigor. No entanto, considero o facto de se pensar nela um pequeno avanço. Pode que lá cheguemos um dia. Basta haver um ministro das finanças que o reconheça e tenha verba suficiente para, conjugação de factores que, para já, não penso viável. As mulheres, em bloco, não fazem greve. O que é uma pena.

  4. Como alguém aqui disse, azeite não!

    Não conhecia o texto; e garanto que li atentamente, tentando encontrar uma frase que tecesse loas ao modelo fada-do-lar ou, pelo menos, onde luzisse uma centelha de saudosismo.
    Sinto-me defraudada! Apenas uma homenagem às mulheres que escolheram trabalhar fora de casa tendo a casa aos ombros por amor aos homens que amavam a escrita, e talvez uma quase-centelha de pena por aqueles que não tiveram tal sorte com quem partilham os dias – muito também porque os dias hoje são mais exigentes (nos tempos de antanho uma relação não precisava de muito para se construir; hoje ele é licença de obras, seguro de responsabilidade civil, projecto de arquitectura e de especialidades, termos de responsabilidade, segurança no trabalho… e tudo isto antes de se poder habitar uma relação!!! Ficou mais simples mas é muito mais complicado…)

    Diogo Noivo, obrigada por trazer este tema e este caso aos olhos de quem tem andado semi-meio-bsstante afastada do que se vai passando por aí.
    Sugestão: Etiqueta “iliteracia funcional” também ia bem… “escrita” é só uma parte da questão, e “redes sociais” é caldeirada onde navegam tanto carapaus como tubarões. Em honra dos porcos.

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