“Por vezes, ficar calado equivale a mentir”


Pedro Correia,

 

Falei ontem, evocando-o a propósito da passagem do 50º aniversário, daquele que considero o segundo melhor discurso proferido no século XX. Hoje quero falar do melhor de todos – muito menos comentado, muito menos mediatizado, sem a repercussão universal que teve o de Martin Luther King. Mas que constituiu um dos melhores exemplos de coragem cívica, inteireza moral e ética política de que há memória.

Ocorreu na fase inicial da guerra civil de Espanha, na cidade de Salamanca, no dia 12 de Outubro de 1936. Foi proferido de improviso, na universidade desta urbe castelhana, pelo reitor vitalício do secular estabelecimento de ensino, o basco Miguel de Unamuno, figura cimeira da cultura espanhola.

Unamuno, um intelectual ferozmente independente, tecera fortes críticas ao rumo descontrolado do regime republicano que vigorou em Espanha entre 1931 e 1936, tendo acolhido com palavras de simpatia o alzamiento em Julho de 1936. Durou pouco a sua adesão ao golpe liderado pelo general Franco: os morticínios das primeiras semanas de guerra revelaram-lhe a verdadeira natureza da rebelião, nacional só de rótulo. No início de Outubro, reuniu-se com Franco para lhe pedir clemência por diversos amigos de esquerda que tinham sido detidos em território controlado pelos falangistas. Esforço inútil: acabaram quase todos fuzilados.

Nesse dia 12, perante o governador civil de Salamanca, o bispo da diocese e a esposa de Franco, o general Millán Astray – inválido da guerra em Marrocos – proferiu uma diatribe contra o País Basco e a Catalunha, considerando-os “cancros do corpo da nação”, terminando a sua arenga com a frase que criara para divisa da Legião Espanhola: “Viva a morte!” enquanto os braços se erguiam na saudação fascista.

 

Unamuno, já então um senhor de 72 anos, poderia ter-se remetido a uma atitude de cómoda indiferença. Mas não foi capaz. Levantou-se dignamente e pronunciou estas palavras de modo pausado mas firme:

“Esperais as minhas palavras. Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes, ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser confundido com concordância. Quero fazer alguns comentários ao discurso – para chamar-lhe assim – do general Millán Astray, que se encontra entre nós. Deixando de lado a ofensa pessoal que pressupõe a sua repentina explosão contra vascos e catalães. Eu próprio, como sabeis, nasci em Bilbau. O bispo [apontando para o prelado], queira ou não queira, é catalão de Barcelona.”

Fez uma pausa. E prosseguiu:

“Mas acabo de escutar o insensato e necrófilo grito ‘Viva a morte!’ E eu, que passei a vida a cultivar paradoxos que irritavam alguns incapazes de entendê-los, tenho de dizer-vos, como especialista na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. O general Millán Astray é um inválido. Não é necessário dizermos isto em voz baixa. Ele é um inválido de guerra. Também Cervantes o foi. Mas, por desgraça, há hoje em Espanha demasiados mutilados. E, se Deus não nos ajudar, em breve haverá muitíssimos mais. Atormenta-me pensar que o general Millán Astray pudesse ditar as normas da psicologia das multidões. De um mutilado a quem falte a grandeza espiritual de um Cervantes é de esperar que encontre um terrível alívio ao ver como se multiplicam os mutilados em seu redor.”

 

O general, acometido de fúria perante estas palavras, começou então a gritar: “Abaixo a inteligência! Viva a morte!” Provocando a entusiástica adesão dos falangistas ali presentes, que gritaram em uníssono com ele.

Mas Unamuno ainda não tinha terminado. E concluiu assim:

“Este é o templo da inteligência. E eu sou o seu sumo-sacerdote. Estais profanando o seu recinto sagrado. Vencereis porque tendes, de sobra, a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na vossa luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha. Tenho dito.”

 

Palavras que soaram como denúncia da fanática brutalidade dos esbirros de Franco. Palavras que custaram o cargo e a vida a Unamuno: de imediato destituído das funções de reitor, confinado a prisão domiciliária, o filósofo basco viria a morrer dois meses mais tarde, no último dia desse ano tão trágico.

Mas o eco das suas palavras, fruto de uma vontade indómita, prolongou-se muito para além dos horrores daquela guerra. Como admirável exemplo de resistência contra a barbárie – tenha a cor que tiver, seja em que época for.

 

Imagem: Unamuno (ao centro, de barbas) abandonando a Universidade de Salamanca a 12 de Outubro de 1936, acossado por falangistas espanhóis

22 comentários em ““Por vezes, ficar calado equivale a mentir””

      1. Um extraordinário e quase desconhecido discurso. Também estava presente Carmen Polo Franco, que acabou por ser de grande utilidade para Unamuno, dado que o encaminhou para o seu carro, o da foto.

        Dois anos depois, outro desiludido, Manuel Azaña disse isto : “… y que ahora,abrigados en la tierra materna ya no tienen odio, ya no tienen rencor, y nos envían, con los destellos de su luz, tranquila y remota como la de una estrella, el mensaje de la patria eterna que dice a todos sus hijos: Paz, Piedad y Perdón. …”

        1. Foi um discurso vibrante e comovente. De alguém cujas convicções eram mais fortes do que o instinto de sobrevivência. De um David contra um imenso Golias. Naquele dia, valeu de facto a Unamuno a presença de Carmen Polo, que o acompanhou até ao carro. Mas esta foi a última lição do grande filósofo, que não voltaria a pisar a universidade.
          Nunca deixo de me impressionar com ela, Fernando. E também com essas sentidas palavras de Azaña, malogrado dirigente republicano. Paz, piedade e perdão: tantas décadas demorou Espanha a assimilar esta sábia linha de rumo. E ainda há hoje quem queira ressuscitar a todo o momento os fantasmas de uma guerra que ceifou mais de 600 mil vidas.

  1. Porque não devemos ficar calados, faço minhas as palavras da Isabel:
    – Muito obrigado, Pedro.
    No momento em que está a ser criado um enredo lunático, para uma escalada da morte, a pretexto da vida, agradeço a reflexão.
    A Síria está longe, a Espanha foi aqui bem perto.

    1. Lamentavelmente, continua a haver muita gente por todo o lado a gritar “Viva a morte”. Com estas ou outras palavras. Até nas redes sociais, onde não faltam bravatas de supostos guerreiros de sofá.

  2. Cheio de grandeza e inteligência, até pela amarga ironia que ele próprio se permitiu, a propósito do “repelente paradoxo”…

    1. Isto aconteceu a 12 de Outubro, Unamuno morre a 31 de Dezembro com uma fulminante síncope cardíaca. Literalmente detido na própria casa. Foi também, de algum modo, uma vítima da guerra civil – desse “repelente paradoxo” que continua a ter cultores nos nossos dias.

  3. Obrigado por proporcionar aos que por aqui passam, desconhecendo este importantíssimo pensamento de D. Unamuno (é o meu caso), a oportunidade de o lerem.
    Não deixa de ser estranho (digamos assim), que seja dada maior visibilidade a figuras como Hitler, Franco, Salazar e outros, enquanto que “os Unamunos” são esquecidos quando não escondidos.
    Continuam havendo no mundo (não somente em Espanha) demasiados mutilados sendo os físicos em menor número do que os outros.

    Cumprimentos.

    1. Tem razão. Já escrevi aqui sobre esse tema. A memória de alguns dos maiores assassinos de toda a história – de Átila a Hitler, é perpetuada mesmo sob forma crítica, enquanto a memória de sábios e heróis é muito mais rapidamente esquecida.

  4. Admirável também a sua frase final, com a qual me identifico absolutamente. Belo discurso e belo post. E subscrevo os comentários. Tempos de morte – infindáveis, infelizmente – carecem desta coragem.

    1. Lamento muito que este discurso não tenha a notoriedade e a divulgação de tantos outros – por exemplo, o de Luther King em Washington, há meio século. Mesmo muitos espanhóis o ignoram. Como se nunca tivesse existido.

  5. Estou de volta. E entro com o pé direito, com este teu excelente post. Grande e intemporal lição de Unamuno, que infelizmente é pouco conhecida e ainda menos seguida. Mas algum eco sempre fica, o importante é passar a mensagem: coragem, coluna e humanidade nunca são de mais.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *