Mais de cem mil hectares de terreno florestal, agrícola e urbano arderam já desde 6 de Agosto em Portugal – o equivalente à area de oito concelhos na Grande Lisboa (incluindo Cascais, Sintra, Loures, Mafra e o da capital), como ontem a SIC revelou numa boa peça jornalística que fugiu aos lugares-comuns do tema.
Matéria de emergência nacional? Nem por sombras. Suas excelências, os deputados, permanecem a banhos: o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, não achou por bem convocar uma sessãozinha parlamentar de emergência para o adormecido palácio de São Bento, encerrado para férias. Espero que ao menos alguns representantes da nação andem por esse país em chamas a ajudar a apagar fogos. Refiro-me a fogos reais, não aos habituais fogos políticos
A impropriamente chamada “época de incêndios” propicia entretanto um desfile de autarcas nas televisões. Surgem como porta-vozes de populações em desespero e exigem – como lhes compete – apoio financeiro destinado à rápida recuperação de haveres perdidos. Só lamento nunca ter ouvido até hoje um repórter perguntar a um desses autarcas quanto investiu a respectiva câmara municipal em prevenção de fogos ao longo dos meses que ficaram para trás.
Continuamos a ser um país que prefere chorar os danos do que impedi-los. Por isso esta triste história se vai repetindo ano após ano, Verão após Verão. Sem prevenção, com as matas à mercê dos incendiários e uma incalculável riqueza nacional reduzida a cinzas. E também sem perguntas incómodas dos jornalistas, não vá algum senhor autarca sentir-se incomodado e algum senhor deputado franzir o sobrolho por lhe perturbarem a bem remunerada sesta estival.
ADENDA: Fogos em Portugal já são responsáveis por 54% da área ardida em toda a União Europeia

uma incalculável riqueza nacional reduzida a cinzas
Não é verdade:
1) A maior parte daquilo que arde são terrenos incultos, de matos, que não produzem qualquer riqueza.
2) Mesmo quando arde uma plantação de árvores, muitas vezes essas árvores não ardem, apenas arde o mato na sua base. As árvores ficam mortas mas, em muitos casos, a sua madeira ainda se aproveita (ainda que fique fortemente desvalorizada no mercado, porque o proprietário fica sem poder de negociação).
Incalculáveis são, desde logo, os danos ambientais – flora e fauna devastados – provocados por cerca de trezentos incêndios diários, destruindo uma área superior a cem mil hectares em dez dias. Já não falo das mais de duas mil habitações destruídas. Nem das vidas humanas perdidas – cada uma insubstituível. Nem dos gigantescos custos financeiros num país já com tão graves problemas de tesouraria.
Questões irrelevantes, claro.
1) Os danos ambientais são mínimos. Exceto, possivelmente, quando o fogo se dá em áreas protegidas. De resto, aquilo que arde é, maioritariamente, matos e silvas. E pinheiros, eucaliptos e acácias, tudo árvores sem qualquer valor ambiental.
2) As habitações destruídas são maioritariamente (o fogo do Funchal é uma exceção) habitações mal localizadas, que não tinham nada que estar onde estão, rodeadas por árvores. Ainda bem que foram destruídas, porque assim talvez os seus proprietários aprendam a localizá-las melhor.
3) Vidas humanas perdidas diretamente no fogo, acho que não houve nenhumas, este ano.
4) Os gastos financeiros a apagar os fogos, esses sim, são muito relevantes. Esse ponto concedo.
Pedro, veja outra perspectiva menos catastrofista… e outro caminho:
http://montisacn.blogspot.pt/2016/08/o-c aminho-da-suavidade.html
Obrigado pela sugestão, Isabel. Vou recomendar este texto, que me parece muito bem fundamentado.
Não será catastrofista, nem isso se pretende, mas arrepia saber que este ano já “se bateu o record de área contínua ardida acima do Mondego”.
convocar uma sessãozinha parlamentar de emergência para o adormecido palácio de São Bento
Para quê? Para legislar o quê? Ou o Pedro quer somente que os deputados se reúnam no palácio para nele fazerem um minuto de silêncio pelas árvores falecidas?
Um parlamento não existe apenas para legislar. Existe para fiscalizar o Governo e para debater assuntos da maior relevância nacional.
Você sustenta portanto que o tema não tem suficiente relevância para justificar a convocação de uma sessão parlamentar.
Ou seja: defende que os acontecimentos devem adaptar-se às feriazinhas dos senhores deputados em vez de serem estas a adaptar-se às relevantes questões nacionais.
O tema tem relevância. (E falo com interesse próprio: as minhas maiores plantações de eucaliptos, cerca de dez hectares, arderam este ano. Perdi dezenas de milhares de euros de rendimento potencial.) Mas não relevância parlamentar. O parlamento nada pode fazer para ajudar nesta questão.
Pretende então que os deputados se reúnam para ver se os ministros são bons bombeiros.
Todos os anos há fogos, se isto fosse lá com reuniões já estava resolvido há muito.
Se as comissões parlamentares nem sequer conseguem explicar o que acontece nos gabinetes dos bancos intervencionados pelo Estado, devem dar um resultado espantoso na análise de um problema que não se passa à secretária.
Estou a ver daqui: Oposição censura o Governo porque há fogo, Governo diz que não sabia que recebeu um país combustível da Oposição.
Todos os anos há fogos?
Você varre assim a questão para debaixo do tapete, como se fosse banal?
Você faz tábua rasa do facto de nunca ter havido em Portugal tanta superfície incinerada a norte do rio Mondego como este ano? omia/detalhe/fogos_em_portugal_ja_sao_re sponsaveis_por_54_da_area_ardida_em_toda _a_ue.html
Você faz tábua rasa do facto de os fogos em Portugal, este ano, representarem já 54% da área ardida em toda a União Europeia?
http://www.jornaldenegocios.pt/econ
Acha bem que enquanto isto acontece os senhores deputados estejam a banhos?
Que falta de exigência, com franqueza…
Óh Pedro Correia não se mace com os deputados, nem os mace, a Geringonça vai durar 4 anos segundo disse o Drº Passos Coelho, haverá tempo, digo eu…
Como dizia o outro: deixa arder que o meu pai é bombeiro.
Perdoe-me Jesus Cristo….
Que arda a (s) propriedade (s) do Lavoura. Este individuo é asqueroso!
Pedro Correia,
A questão relevante que se impõe é a acção no teatro dos acontecimentos. Parlamentares reunidos para discutir o assunto é perturbar o funcionamento de quem tem de agir no imediato. Só serve para perturbar.
Depois da casa ardida há então que fiscalizar. Mas está tudo feito. É só cumprir e pôr em prática. E rever o que está mal planeado. Mas não precisamos dos deputados que disso nada percebem. Basta ir procurar tudo aquilo que o arqº Ribeiro Teles escreveu e anda a dizer há tanto tempo. Mas o homem é um visionário, o homem é um poeta, os deputados é quem sabem. É fiscalizar porque não se cumpre. Só isso. A começar pelas Infraestruturas de Portugal (rodoviária e ferroviária), as Câmaras que não multam (e não limpam o que é delas, tal como o Estado) a legislação que não se cumpre. Os privados que não fazem o seu dever. Reunir deputados no meio da época de incêndios é uma medida incendiária. Ide ver porque razão as Finanças não actualizam o valor dos prédios rústicos, por exemplo, o que daria um bom aumento no IMI. Deixem os fogos para quem sabe apaga-los e preocupem-se com o que devem preocupar-se. Cadastrar, avaliar, limpar, colectar, multar, ordenar. Isso faz-se melhor no inverno.
Caro Xico, há vários aspectos a considerar, de âmbitos muito variados, que vão do ambiental e agrícola ao criminal. Passando pela incúria do Estado – o maior proprietário florestal do País – na limpeza das matas nacionais. E, como bem assinala, pela questão tributária. Sem descurar a sangria financeira que o combate aos fogos implica num país já tão depauperado de recursos próprios para fazer face a despesas extraordinárias.
Diz, e em tese está correcto, que estas questões devem ser debatidas menos a quente. O problema é que a partir de 1 de Setembro ninguém mais falará em incêndios. Até tudo recomeçar, como se partíssemos do zero, na chamada “época dos fogos” do próximo ano. Ou há debate “a quente” ou não há debate algum.
a partir de 1 de Setembro ninguém mais falará em incêndios
Errado. Todos os proprietários florestais como eu falam regularmente em incêndios. Discutem a sua probabilidade de ocorrência, procuram mais ou menos defender-se deles, limpam nalguns casos as suas matas. E a GNR também age, e as Câmaras Municipais, que frequentemente obrigam, sob pena de pesadas multas, os proprietários a limpar terrenos que ficam perto de habitações (e eu que o diga, que já fui forçado a gastar imenso dinheiro a limpar um terreno só porque a Câmara Municipal da zona decidiu autorizar a construção de vivendas num terreno vizinho).
Não pense o Pedro que a gente somos todos estúpidos que passamos o ano sem pensar naquilo que o verão poderá trazer. Os portugueses estão hoje muitíssimo bem consicencializados dos perigos dos incêndios, e agem em função deles.
Não penso que “a gente somos todos estúpidos”. Só alguns.
O que “a gente somos”, não sei. Suponho que nem o AO90 chegou a esse ponto, sendo certo que é de há muito coisa mais que vulgarizada (a forma correcta, essa sim, é que parece ser tique de minoria presunçosa) e sinal – mais um – do nível de instrução deste povo. Mas o Lavoura fará o favor, peço-lhe, zeloso áulico que é dessa aberração de, sendo o caso, me corrigir.
Já o que a gente é, como povo e como governantes, isso não me autoriza qualquer optimismo fundamentado. Não decerto em matéria de ordenamento do território, prevenção e combate de fogos florestais. Sobre este aspecto, aliás, basta a saga dos “meios aéreos” que recorrentemente e de há tantos anos tanta gente excita, invocando-se milhões de contos, primeiro, de euros, depois, virtudes de contratos com privados e vantagens da opção militar ou mais latamente pública, negócios e negociatas, responsáveis e impunidades. Tudo no fim ficando basicamente na mesma (mais recentemente, contudo, com a curiosíssima e portuguesíssima variante de apontar, em mal escondido despeito, o dedo aos outros por não nos ajudarem tanto e tão prontamente quanto, achamos nós, seria sua obrigação).
Mesmo que, e curvo-me perante eles e perante si (ainda que seja afinal apenas uma sua obrigação; mas acredito que tão mais penosa quanto se verá, por todo o lado, tanto e tão impune incumprimento; do estado, desde logo), alguns ou mesmo muitos proprietários florestais – particulares, está visto (afinal nem tudo o que é privado é mau e nem tudo o que é publico está ungido) – cuidem dos seus terrenos.
Costa
Sim, caro Pedro, concordo genericamente com aquilo que escreve.
Igualmente me admiro é o facto da líder do CDS-PP (Assunção Cristas), tão rápida – não vou questionar o mérito ou demérito das afirmações proferidas – a falar sobre as viagens dos secretários-de-estado a França, sobre esta temática – os incêndios florestais – esteja muda e calada, ou seja em férias.
Em férias, quando provavelmente os bombeiros apagavam fogos em áreas que terão liberalizadas, por ela própria, para o eucalipto.
Acho que isto seria, provavelmente, uma outra boa peça jornalística!
Talvez seja, António. De qualquer modo, nesta fase julgo que não é útil partidarizamos a questão. Para além da minha perplexidade – que muitos não partilham – de ver o Parlamento alheado do assunto e de considerar obrigatório perguntar aos autarcas das zonas mais afectadas o que fizeram eles para prevenir os fogos.
Mas a sua sugestão também é pertinente em termos jornalísticos, não tenho dúvida.
Concordo inteiramente consigo, caro Pedro e subscrevo a sua critica feita ao Parlamento nesta temática.
Igualmente não acho que se deva partidarizar a questão dos incêndios que tanto drama, dantesco até, causou em muitas populações deste país. A minha critica vai toda, e unicamente, para a falta de coerência de alguns actores políticos. Se para alguns assuntos são tão lestos a falar, por ventura com telhados de vidro, por que razão neste assunto permanecem ruidosamente calados?
Ouviu a ministra da agricultura do anterior governo, com responsabilidades na área florestal até Novembro último, falar o que quer que seja sobre o inferno dos incêndios?
Sim, claro, tem direito a férias!
Com o país a arder, os ministros da Administração Interna, Agricultura e Ambiente não podem ir de férias.
Não é necessário vir em nenhum código de conduta. Basta aplicar a mais elementar regra do bom senso. Infelizmente este é um bem escasso.
Em férias, quando provavelmente os bombeiros apagavam fogos em áreas que terão liberalizadas, por ela própria, para o eucalipto.
1) Em áreas que tão recentemente foram liberalizadas os eucaliptos ainda serão muito jovens (dois ou três anos de idade). Terras com plantações tão recentes nunca ardem. O ciclo do fogo é da ordem dos doze anos – as propriedades tendem a arder doze anos após a última lavra. Nunca dois ou três anos após terem sido lavradas e plantadas.
2) Se os eucaliptos arderem isso é primariamente problema dos seus proprietários. Se um proprietário decide plantar eucaliptos, já sabe que corre o grave risco de, quando esses eucaliptos estiverem bons para ser cortados, arderem e o proprietário perder o dinheiro todo. A generalidade dos proprietários são seres racionais e tomam em conta nas suas decisões de investimento o risco dos incêndios. Não tem que ser o Estado a proibi-los de plantar eucaliptos: eles sabem perfeitamente que há riscos em fazê-lo.
Não têm mesmo a noção dos custos e dos danos à natureza que implica a expressão:
“prevenção de fogos”
Não têm, pelo que já se percebeu. Sem necessidade de sairmos desta caixa de comentários.
A peça jornalística foi tão boa, tão boa… que a SIC decidiu hoje pegar fogo a si mesma.
Não tem nada uma coisa a ver com outra. Mas o seu comentário não deixa de ser uma boa amostra de humor negro. Ou pelo menos enfarruscado.
Acordem São Bento para quê? Que vão fazer eles, de um momento para o outro? Seria muito mais acertado se dissesse acordem a justiça. Sim, a justiça que não age, a justiça que tem mãos leves. Seria muito mais acertado se dissesse mexam na justiça quando entrarem em Setembro. Enquanto a justiça, estiver como está, nada feito.
À justiça o que é da justiça, à politica o que é da política. Ver os deputados em férias enquanto o País arde é um espectáculo indecoroso.