Pontos nos is (13)


jmmcc,

ÓSCAR

I

Sábado, 3 de Março. O Diário de Notícias online traz um texto do seu actual provedor do leitor, Óscar Mascarenhas. É evidente que se trata de um artigo de opinião, mas com o peso acrescido de ser escrito por quem devia ter sempre presente a ética do jornalismo, muito especialmente o que respeita à identificação das fontes de informação que o autor põe em causa.

Óscar Mascarenhas reporta-se a uma notícia do DN de 21 de Fevereiro («terça-feira de Carnaval», lembra ele de modo completamente irrelevante para o efeito), que fez manchete no jornal e contra a qual se insurge. «Trabalhadores dos transportes não pagam medicamentos e recebem baixa por inteiro» era o título da notícia, que surgia a propósito da greve dos transportes, escrita e assinada pelo jornalista Francisco Almeida Leite.

II

O provedor começa então o seu artigo por dizer que foi primeiramente alertado para o teor da notícia por «um leitor “meio ensonado”» e, pelos vistos, mal disposto. «O leitor, AJF, que me escrevera “às 5 e 43” da manhã, declarava-se “incrédulo”» — diz Óscar Mascarenhas.

Além do suposto leitor AJF que a notícia, «logo por azar, tirou da modorra (…) às 5 e 43 da manhã», o provedor é inspirado ainda por um tal MH e por um MG e sente-se, por isso, obrigado a tentar explicar que os leitores citados (!) se identificaram perante ele «de modo suficiente, não podendo ser considerados anónimos».

Claro que podem e devem ser considerados anónimos, porque é assim que eles caem no artigo do provedor como mosca na sopa — artigo em que ele tanto lamenta a falta de fontes de Francisco Almeida Leite.

III

Sugiro que leiam aqui o insustentável artigo completo de Óscar Mascarenhas, que inclui a posição correcta tomada por Francisco Almeida Leite (que também invoca o inegável interesse público da matéria), a qual é ainda sustentada pelo director de serviço desse dia, o subdirector do DN Nuno Saraiva.

O que Óscar Mascarenhas no fundo contesta é outra coisa muito básica que apenas confirma a sua conhecida e longa familiaridade com uma certa esquerda enquistada, bacoca e passadista, protesto esse que se resume ao facto de o jornalista se ter baseado declaradamente num documento interno do Governo.

O provedor chama-lhe propaganda e diz que faltou procurar o contraditório nos sindicatos que ele, está bom de ver, gostaria que tivessem sido abordados. Reparem só como o título do provedor, com despropositada ironia e mau gosto, deixa precisamente este rabo de fora: «Contraditório porquê se a fonte da notícia foi alguém do Governo?» é esclarecedor o bastante.

Com isto, se houvesse um prémio destinado ao “Melhor Provedor das Fontes Anónimas e Ensonadas”, Mascarenhas venceria sem dificuldade. Mas a verdade é que ele já tem o Óscar. E eu, perante o caso, recordo-me de repente da ex-provedora dos leitores do DN Estrela Serrano e palpita-me que corro o risco de até começar a achar que fui injusto quando não gostava dela nessa altura.

36 comentários em “Pontos nos is (13)”

  1. Pois, no meio de tantos pontos nos ii João Carvalho não nos esclarece do essencial:
    (1) Se o conteúdo da “notícia” de FAL era ou não era verdadeiro.
    (2) Se é correto que FAL tenha apresentado como uma “notícia” verdadeira algo cuja veracidade ele não tinha comprovado.
    (3) Se é correto que FAL tenha apresentado como uma notícia algo que era oriundo do Governo, sem esclarecer essa proveniência.
    (4) Se é correto que FAL não tenha procurado outras fontes (sindicais ou outras) para confirmar os dados apresentados pelo Governo.

    1. 1. Como toda a gente pode perceber, não me detive aqui no conteúdo da notícia, mas no do artigo do provedor.

      2. Além do que escrevi atrás, tenho de considerar a notícia verdadeira e não sei por que é que V. lhe chama “notícia”. Talvez V. queira dizer qualquer coisa que sabe e eu não.

      3. Sendo verdade que um documento produzido pelo Governo é passível de ser notícia, não percebo a sua dúvida. E não sei se a sua proveniência tinha de ficar mais bem esclarecida do que ficou.

      4. Já entendemos todos que a notícia era de interesse público imediato e se centrava num documento interno do Governo. Ficou completa, porquanto não especulou sobre outras posições que não foram consultadas e muito menos confirmadas, já que ficaram à margem da notícia.

      5. V. continua a dar trabalho a mais para alguém que depois nunca regressa com uma simples palavra de apreço. Ando cheio de vontade de começar a ignorá-lo. Tome nota disto que lhe digo, porque não é a primeira vez.

      1. Por que é que eu hei-de lhe mostrar apreço? Você está aqui a defender as suas opiniões, eu estou a defender as minhas. Estamos na mesma posição, de igualdade e de liberdade. Eu hei-de mostrar apreço pelas suas opiniões? Por quê?
        Já agora, eu também tenho um blogue e você nunca por lá apareceu a mostrar apreço por aquilo que lá escrevo.

          1. Não, não compreendo.
            Você responde às minhas questões porque quer, ninguém a isso o obriga. E quer responder para defender os seus pontos de vista. Da mesma forma que eu defendo os meus. Portanto, estamos em igualdade de circunstâncias, e tanta obrigação (ou seja: nenhuma) tenho eu de lhe mostrar apreço pelo que você escreve como você de me mostrar apreço pelo que eu escrevo.

    2. Luís Lavoura:

      Numa leitura muito por alto, percebi que o Luís não deve de todo ter lido a notícia em causa.

      1) O jornalista Francisco Almeida Leite diz que a notícia é feita com base num documento interno do Governo, portanto oficial. E diz ao provedor que reafirma a veracidade da mesma.
      2) O FAL diz que comprovou a veracidade da mesma e acrescenta que o que escreve consta dos acordos de empresa.
      3) O jornalista diz na notícia, de alto a baixo, que o documento é oriundo do Governo, está nas mãos da tutela e até que é usado como “argumentário” de resposta à greve. Por quem? Pelo Governo. Esta ‘sinceridade’ a mais do jornalista até leva o provedor a cair-lhe em cima por a notícia ter tido origem num suposto documento interno.
      4) Não sei se o FAL procurou ou não outras fontes, se bem que pela leitura da notícia pelo menos dê a entender que consultou os acordos de empresa e terá tido fontes do lado das mesmas. Já a parte de ouvir “fontes sindicais” é alinhar no que diz o provedor! E porque não ouviu ele as administrações das empresas? Os directores de comunicação? Parece-me simples: tinha em mãos uma “bomba” e quis proteger a informação, ou ‘cacha’.

      Da próxima veja se anda mais atento. Eu, repito, só li a coisa por alto.

      Com estima e consideração,

      Guido

  2. Neste caso e reconhecendo o meu desconhecimento pelo passado jornalístico do Provedor do DN (que poderá ser de importância)..tenho que -infelizmente- concordar com o comentário supra.
    Faltou efectivamente o contraditório neste caso, que se exigia, contextualizada em tempo, sustentando a notícia em frontpage.
    Fique bem.

    1. Nem todas as notícias têm de ter contraditório. O texto fala no documento, ao qual o Fal teve acesso. Se tinha o documento e consultou os acordos de empresa, como diz Guido, para quê o contraditório? Só quem nunca foi jornalista pode dizer uma coisa destas.

      1. Caro Hot spot,
        Não careço de experiência na prática jornalistíca para ter uma opinião muito concreta sobre a deontologia inerente à prática dessas funções – profissão que me é muito cara por sinal.

        Para quÊ o contraditório neste caso?
        Porque foi colocada uma notícia em primeira página, na data em que foi, divulgando os benefícios e previlégios dos trabalhadores dos transportes públicos (no seu geral), que se teve conhecimento de contraditório…meu caro, esse contraditório foi ocultado ou a generalização dos funcionários foi empolgada.

        Tenho conhecimento de diversos funcionários das empresas envolvidas neste artigo que não beneficiam dos “luxos” divulgados. Em que ficamos então?

        À margem: Não obstante este meu comentário, discordo das greves feitas e por fazer, dos trabalhadores de transportes públicos (CPs, Carris e afins) mas esse já será outro tema.

          1. Mais dúvidas? Já fiquei esclarecido pela afectividade partidária do Provedor do DN (infelizmente parte dos jornalistas encontra-se comprometida dessa forma e exerce a sua função em conformidade com essa afectividade) e essas dúvidas foram dissipadas.
            Mantêm-se as certezas no que concerne à substância/conteúdo da notícia transcrita na frontpage (bem como no corpo da notícia que não separa o trigo do joio)…onde se toma/adjectiva o Todo pela Parte..uma imprecisão que não é admissível, na minha opinião, pela sua injustiça/inverdade para com a realidade de Parte dos trabalhadores que não auferem tais luxos..somente isto.

            Fique bem.

            DBF

          2. Não vejo por que se queixa de uma parte dos jornalistas se encontrar comprometida por isto e por aquilo. Afinal, isso é humano e encontra-se em todas as profissões, não é?

          3. Não me queixo apesar de porventura lamentar/desabafar ocasionalmente esse compromisso/afectividade quando compromete a prática da função exercida.

            É humano certamente João Carvalho, humano e indubitável realmente em todas – suponho eu – as profissões, na minha inclusive sem qualquer dúvida.
            Não obstante, se o compromisso existente se encontrar em conflito com a honorabilidade da assinatura prestada pelo profissional, salvo melhor opinião (e duvido que a haja), indubitavelmente deverá prevalecer a consciência deontológica inerente ao exercício da função..sem compromissos, afectividades, interesses ou “amizades”.(e não pretendo particularizar ou excluir nem o jornalista nem o provedor).

            São coisas simples em mim, os meus pontos nos is…como serão, penso eu pela leitura dos seus posts, em si.

            DBF

          4. Pois. Ética e deontologia parece que ganham relevo especial em certas profissões. Mas… os jornalistas? E os missionários? E os médicos? E os soldados, os guardas, os polícias, os enfermeiros, os farmacêuticos, os grandes empregadores, etc., etc., etc.?

          5. Já lhe respondi no comentário supra.
            Coisas simples e transversais a todas as profissões. Valores transmitidos por ascendentes e que são tão só imutáveis.

      1. Errado em parte João Carvalho… e reconheço não ter lido o seu comentário (numerário) anterior.
        Não obstante a consequência e o embrulho posterior à divulgação da notícia, essa mesma notícia, nos moldes em que foi colocada, ou seja em conteúdo, encontra-se incorrecta pela generalização que faz dos trabalhadores dos sectores em apreço.
        Fique bem.

  3. Como eu lamento que o velho Diário de Notícias, que foi, durante tantos anos, o meu jornal diário, tenha descido tanto em qualidade, mas, sobretudo, em ética jornalística e, claro, que lhe tenham posto, como Provedor do Leitor, o comuna Mascarenhas , com o seu ódio figadal a tudo que não seja o ‘seu’ partido e uma certa esquerda radical. Uma mais das tristes realidades deste país falido e triste.

  4. Tal como o Beirão, também eu sei dessas cumplicidades do camarada Óscar.

    Só mesmo um jornal em decadência absoluta iria buscar um homem destes para provedor dos leitores. Nunca se viu!

    O homem nunca escreveu uma notícia com cabeça, tronco e membros e vem dar lições de jornalismo a editores, etc!? O que é isto?

    Não fez nada no DN, na Lusa e agora volta para ser um bolchevique na perseguição aos que dele discordam? Miséria. O tal FAL fez muito bem em denunciá-lo como um provedor que dá atenção a cartas anónimas! Para mim essa é a pedra de toque disto tudo, força FAL.

  5. Não sei se Jc é jornalista, ou pediu informações ao PC para este post, mas devia saber que um jornalista não pode dar notícias falsas como fez FAL.
    Principalmente se essa notícia é para fazer um frete ao governo
    É curioso que se ataque o Provedor – que defende o rigor e o direito dos leitores à informação e se omita a fraude da notícia elaborada por um jornalista que trabalha à jorna para um partido político.
    Finalmente, é falso que os leitores sejam anónimos. Basta ler a coluna do Provedor para se perceber issso.

  6. Chego decerto um pouco atrasado e pra recuperar uma imagem de há muito tempo. Das melhores coisas que o Independente uma vez fez foi dar o “Óscar Mascarenhas” (como uma das estatuetas de Hollywood) a Óscar Mascarenhas. Lindo!

    Na altura era presidente do Conselho Deontológico dos Jornalistas. Insurgiu-se contra uma notícia mas nunca foi falar ao jornal em causa, foi prestar vassalagem ao alegadamente ofendido.

    Se há gente de quem suspeito sempre, nunca tendo conhecido, este é desse tipo.

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