Vai para aí um chinfrim tão grande por causa da formação do novo Governo que quer-me parecer que ainda há muita gente que não percebeu em que ponto estamos. Eu vou explicar.
Imaginem que os líderes dos partidos portugueses gostam de automóveis e que o melhor deles todos é o automóvel do Governo. Trata-se de uma máquina para a qual é necessário dinheiro para a ela aceder e mãozinhas para a guiarem.
De quatro em quatro anos, mais coisa menos coisa, troca-se de carro e faz-se um leilão entre os partidos políticos para ver quem fica com o novo. Este ano, como a troika se foi embora, o carro em questão é um Ferrari. O problema é que só leva o condutor e um pendura.
Em 4 de Outubro, teve lugar o leilão e os líderes dos partidos, com o alto patrocínio do PR, quiseram todos licitar o novo bólide.
O problema é que os licitantes estão todos tesos e a oferta mais alta só cobre um terço do valor do carro. Esta veio de dois licitantes que uniram esforços para levar o carro, mas que estoiraram nos últimos anos umas centenas de milhares (votos) que lhes permitiriam levar o carro sem pedir licença.
O leiloeiro só deixa o carro ir para a estrada com 50% do valor em caixa. Passos Coelho e Paulo Portas querem ficar com o Ferrari, mas para o sacarem precisam de pedir um empréstimo a António Costa, que está a pensar ele próprio ficar com o carro se conseguir financiar-se junto do BE e do PCP, embora já tenha percebido que não cabem os três naquele carro e que nem Jerónimo quer levar Catarina ao colo, nem esta está para ir ao colo do avozinho.
Passos Coelho anda a fazer o choradinho a Costa e promete-lhe umas voltas ao fim-de-semana no lugar do pendura, o que deixará Paulo Portas sem transporte para os jantares de sábado. Costa vai fazendo exigências porque também quer o Ferrari à quinta-feira, nos feriados e durante as férias.
Entretanto, os amigos de Passos Coelho querem que ele ande com o carro e estão zangados por Costa não lhe emprestar o que ele precisa para ir a Belém dizer ao PR que já pode assinar os papéis para ele levantar o Ferrari.
Neste momento, a situação é de impasse: Passos Coelho quer viver acima das suas possibilidades e comprar o Ferrari com o dinheiro que não tem; Costa não lhe empresta com receio que o tipo e o seu compincha gripem o motor ou que nos festejos metam lá dentro uma loura e se estampem todos antes do próximo leilão, que só ocorrerá daqui a quatro anos, deixando-o apeado. E porque também gosta do carro, quer guiá-lo e está disposto a tudo para poder fazê-lo.
O PR, que ficou sem gestor de conta com o caso BPN, está na dúvida e não sabe se há-de assinar a livrança pedida pelo leiloeiro para o carro ser entregue sem os 50% ou se vai deixar que continuem a aumentar os custos de armazenagem enquanto os licitantes não se entendem para saber quem vai lá buscar o carro.
Do outro lado da rua, na bomba de gasolina, está o Zé Povinho. Exasperado. De mangueira na mão à espera que o mandem atestar o Ferrari.
Este é o ponto em que estamos. Esta é a situação a que o PR nos conduziu quando marcou o leilão para Outubro e se lembrou de pedir garantias a tesos com vícios. Ou cauciona ele próprio – o que será difícil porque se sabe que é medroso – ou os custos vão começar a subir.


Tudo muito bem esgalhado, mas cinco palavrinhas borram a pintura: “marcou o leilão para Outubro”
Esta treta tem sido repetida à saciedade, até por gente que agora faz “leituras inteligentes” da CRP mas que se esqueceu de ler a porra da LEAR, especialmente o n.º 2 do artigo 19º:
“No caso de eleições para nova legislatura, essas realizam-se entre o dia 14 de
setembro e o dia 14 de outubro do ano correspondente ao termo da legislatura.”
Basicamente, o PR tinha 4 domingos para marcar eleições, 20 e 27 de Setembro, 4 e 11 de Outubro. Tudo datas que levariam este mesmíssimo impasse e a possível indigitação para o mesmíssimo Outubro em que já estamos.
O problema não estava em as eleições serem entre 20 de Setembro e 11 de Outubro, embora mesmo aí se pudessem ter ganho duas semanas.
Teria sido fácil ultrapassar este imbróglio se o PR tivesse promovido um entendimento entre os partidos para as eleições terem ocorrido antes do parlamento e do Governo fecharem para as férias de Verão, aproveitando para acautelar situações futuras. Mas como estava mais preocupado com os resultados do que com a situação do país e o interesse nacional, enterrou a cabeça na areia.
Nesta altura já teríamos executivo e orçamento. Ter eleições em Outubro é uma aberração.
Teria sido tudo menos fácil.
Antes de mais nada, se os partidos achassem que ter eleições em Outubro é idiota (e é), tiveram imensas oportunidades de alterar a LEAR. Saliento apenas que a LEAR só pode ser alterada por maioria de 2/3.
Depois, o PR só pode marcar eleições antecipadas (com ou sem acordo dos partidos, é irrelevante) de uma forma: dissolvendo a assembleia. E o PR dissolve a assembleia baseado em quê, com uma maioria absoluta em plenitude de funções?
Mas vamos até admitir que o PR tinha uma sampaiada e dissolvia mesmo a assembleia. No momento do anúncio, e consequente marcação de eleições num prazo de até 60 dias, a AR e o Governo perdiam imediatamente a esmagadora maioria dos poderes legislativos. O Governo só poderia ter actos de gestão. A Comissão Permanente de AR, nem isso. Relembro que isto não acontece em processo eleitoral ordinário, como foi o caso.
Isto é, para se marcar eleições antes das férias legislativas (que começam a 15 de Junho), o PR deveria dissolver a assembleia, o mais tardar, em finais de Abril, início de Maio. E o novo governo só poderia tomar posse na primeira sessão da legislatura, depois de 15 de Setembro.
É este cenário que defende, um Governo e uma AR sem poderes alguns durante quase seis meses? E o Cavaco é que enterrou a cabeça na areia?
DANG!
serve, como ponto da situação melhor, os versos de mais uma canção, a ser cantada/gemida pelo Costa “pisca-pisca” enquanto ensaia aqueles passinhos “falua que lá vem, lá vem” com a comédia de atrelar Catarina e o Sr. Jerónimo, para ver se toma o PR por lorpa:
“I started a joke, which started the whole world crying,
but I didn’t see that the joke was on me, oh no”
Nem alguns correlegionários de partido parece estar a convencer…..
Boa noite, e boa sorte
Uma pequena e honesta declaração.
Ao acordar voltei, religiosamente, a meditar sobre o uso da mangueira. Uma vez que me chateiam as esperas e como sou contra o açambarcamento, entendi, uma vez mais, que ela deve ser usada para partilhar o combustível.
Não só sou contra o açambarcamento como também contra todo o tipo de discriminação. E sou contra na medida em que os mais elevados valores democráticos e demográficos me fazem compreender que também um Cobra merece ser respeitado e não pode estar sujeito ao clima político nacional.
À Laurinda o que é da Laurinda e a mim o que me pertence.
Com a Vossa licença, despeço-me e vou para os treinos. Há certas medidas que para serem tomadas necessitam primeiro ser agitadas. Haja respeito pelos orçamentos:
https://www.youtube.com/watch?v=pcSZzS5k Ls0
Ao fim de 4 anos, o país pode de facto começar a dar uns ares de Ferrari quando não passava de um VW. E dos fraudulentos.
O problema é que os condutores que estamparam o carro há 4 anos querem agora voltar a guiar qualquer coisa, nem que seja uma trotinete.
No caso do Costa, vai ter de pintar o tuc-tuc de vermelho (literalmente) porque não lhe exigem menos do que ao Seguro, mesmo que saibam que o carrão encarnado estacionado no Largo do Rato não passa de um… tuc-tuc… alugado.
Á primeira vista pensei que era um post das belle toujours…