Polónia: outra partida do destino


Pedro Correia,

 

Há uma ironia trágica na morte do Presidente polaco a bordo do avião que se despenhou em solo russo. Até parece que a História persiste em pregar contínuas partidas de mau gosto a um povo que conheceu na pele toda a dimensão do mal no século XX.

Vítima de dois totalitarismos cúmplices, que a retalharam no mapa antes de a dividirem no terreno com a brutal invasão de 1939, a Polónia tem sérias razões de ressentimento histórico. Foi o primeiro alvo sangrento dos blindados de Hitler, que concebia o solo polaco como um vasto prolongamento natural da Alemanha. E foi também vítima de Estaline, que na hora do levantamento de Varsóvia, em 1944, mandou estacionar os seus soldados a poucos quilómetros da capital polaca, deixando massacrar os resistentes que se erguiam numa luta heróica mas desigual contra os nazis já em debandada. Os resistentes suplicavam por armas, e Churchill estava disposto a enviá-las através de uma ponte aérea, mas Estaline negou autorização aos aviões de Londres para atravessarem o espaço aéreo soviético, condição essencial para concretizarem o seu objectivo: milhares de polacos desarmados foram assim condenados à morte.

Quatro anos antes, o ditador de Moscovo mandara liquidar a elite militar da Polónia num bosque cujo nome passou desde então a ser sinónimo de ignomínia: Katyn. Era para lá que pretendia dirigir-se Lech Kaczynski, selando de vez o contencioso histórico com a Rússia, no seu trágico voo em direcção à morte. Como se o destino caprichasse, uma vez mais, em pregar uma partida de mau gosto à pátria de Copérnico e Chopin. Como se um círculo macabro se fechasse, unindo de algum modo o massacre de 1940 ao brutal acidente de aviação que ontem deixou a Polónia de luto.

 

 

Publicado hoje no DN

16 comentários em “Polónia: outra partida do destino”

  1. E não esquecer que logo em 1939 a União Soviética ocupou a metade oriental da Polónia,de acordo com o negociado pouco antes entre Molotov e Ribbentrop. Katyn e a paragem do exército vermelho junto ao Vístula,esperando o esmagamento da insurreição de Varsóvia( a que Radio Moscovo apelara…) foram apenas outras peças do puzzle de ignomínia a que a Polónia foi submetida.

    1. Os crimes estalinistas, e da URSS, deviam ser todos divulgados, como o têm sido os dos alemães nazistas. Já se fizeram centenas de filmes sobre a 2ª Guerra Mundial e sobre o nazismo, mas sobre esse período negro da História do século XX soviético, e mundial, quase nada.

  2. Lembras bem. A Polónia tem sido um verdadeiro país mártir ao longo da História e este acidente horrível vem confirmar, uma vez mais, essa espécie de “destino maldito”. É impressionante.

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