Políticos no divã – 6


Teresa Ribeiro,

– Ele anda muito agitado, sr. doutor. Nem de noite sossega.

– Tem o sono agitado?

– Nem imagina. Ontem esteve toda a noite às voltas na cama a falar enquanto dormia.

– Conseguia perceber o que dizia?

– Dizia que a violência está à porta e mais umas coisas em francês, mas sabe como é, com aquela pronúncia que ele tem, eu não consegui perceber nada.

– Pois, estou a ver. Diga-lhe mas é para vir cá falar comigo.

– Já lhe disse, mas ele manda-me meter o Freud na gaveta e até já ameaçou defenestrar-me se insistisse na conversa.

– Defenestrá-la?!

– Sim, diz que é o que se faz aos traidores à Pátria.

– À Pátria?!

– Pois, doutor, às vezes põe-se a falar dele como se fosse a encarnação da Pátria.

– Como se fosse uma espécie de rei sol…

– Não, que esse era absolutista e o meu marido sempre foi um defensor das amplas liberdades.

– Tem razão. Em todo o caso diria que ele se vê como uma figura patriarcal?

– Sim, uma figura tutelar.

– Icónica.

– Isso.

– Por que não o convence a passar uma temporada em Nafarros, a ver se acalma?

– Não quer, diz que primeiro tem que libertar Portugal da austeridade.

– E como é que ele pretende fazer isso?

– Diz que vai agitar o povo, incendiar o país, levar o governo e o presidente à demissão.

(coça a cabeça) – Bem…

(levanta-se, abre um armário de onde retira um pacote que estende à sua interlocutora)

– Se ele piorar muito, pode usar isto.

– O que é?

– Um colete de forças.

 

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