– Ele anda muito agitado, sr. doutor. Nem de noite sossega.
– Tem o sono agitado?
– Nem imagina. Ontem esteve toda a noite às voltas na cama a falar enquanto dormia.
– Conseguia perceber o que dizia?
– Dizia que a violência está à porta e mais umas coisas em francês, mas sabe como é, com aquela pronúncia que ele tem, eu não consegui perceber nada.
– Pois, estou a ver. Diga-lhe mas é para vir cá falar comigo.
– Já lhe disse, mas ele manda-me meter o Freud na gaveta e até já ameaçou defenestrar-me se insistisse na conversa.
– Defenestrá-la?!
– Sim, diz que é o que se faz aos traidores à Pátria.
– À Pátria?!
– Pois, doutor, às vezes põe-se a falar dele como se fosse a encarnação da Pátria.
– Como se fosse uma espécie de rei sol…
– Não, que esse era absolutista e o meu marido sempre foi um defensor das amplas liberdades.
– Tem razão. Em todo o caso diria que ele se vê como uma figura patriarcal?
– Sim, uma figura tutelar.
– Icónica.
– Isso.
– Por que não o convence a passar uma temporada em Nafarros, a ver se acalma?
– Não quer, diz que primeiro tem que libertar Portugal da austeridade.
– E como é que ele pretende fazer isso?
– Diz que vai agitar o povo, incendiar o país, levar o governo e o presidente à demissão.
(coça a cabeça) – Bem…
(levanta-se, abre um armário de onde retira um pacote que estende à sua interlocutora)
– Se ele piorar muito, pode usar isto.
– O que é?
– Um colete de forças.


escreva mais.Excelente!!
Teresa, tu continua e fazemos um livro! É muito, muito bom! beijos
Cada vez melhor, esta tua série. Continuo à espera de mais.