Políticos no divã – 3


Teresa Ribeiro,

– Penso que você tem um complexo de Édipo mal resolvido.

– Acha, doutor? Mas em que se baseia para tirar essa conclusão?

– Esse desejo de matar o pai não me deixa margem para grandes dúvidas.

– Desejo de matar o pai? Eu?!

– Sim, essa afronta sistemática aos valores social-democratas não é mais do que uma forma encapotada de matar o fundador do partido, seu pai político.

(irritado) – Ai sim? Então já agora diga-me: se o meu pai é o fundador do partido, quem é a minha mãe?

(risinho paternalista)- Estas coisas da psique não são lineares. A figura maternal por quem, de resto, está obcecado pode até nem corresponder a uma pessoa.

– Deixe-se de insinuações.

– Eu não estou a insinuar nada.

– Julga que não percebo onde quer chegar?

– Onde é que pensa que eu quero chegar?

– Não me devolva as perguntas!

– Se quer cumprir este programa de ajustamento emocional vai ter que colaborar.

– (ameaçando sair) As teorias freudianas que se lixem! Não tenho tempo para estas pieguices.

– (pegando-lhe por um braço) Depois não me venha pedir um segundo resgate desse seu ego tão tortuoso. Vá, deite-se e fale-me dela.

– (Deitando-se) Da troika?

– Sim, da sua mãe espiritual, por quem vive obcecado. Quis ser o seu melhor aluno porquê?

– Queria impressioná-la, ir mais além. Era um desejo irreprimível que me invadia como uma onda. Uma onda não, um tsu…

(ouve-se uma porta bater com estrondo)

– (num sobressalto) O que foi isto?!

– Deve ter sido uma corrente de ar.

(crispado) – Se há coisa que me enerva é ouvir PORTAS a bater.

– Mas prossiga, estava a falar da TSU.

– TSU?! Qual TSU?! (desconfiado) Olhe que não lhe admito provocações! Ia a dizer que… Olhe, sabe que mais? Já não me interessa o que lhe ia a dizer.

(levanta-se de rompante, puxa pela carteira furibundo, sem levantar os olhos) – Passe para cá mas é a factura com o número de contribuinte, vá!

 

6 comentários em “Políticos no divã – 3”

  1. “(irritado) – … se o meu pai é o fundador do partido, quem é a minha mãe?”

    versão tragédia grega

    (sarcástico) – Quem mais poderia ser? A tua mãe é a Snu Abecassis! Um arrufo com o teu pai por causa duma meretriz a quem iam dar boleia naquele malfadado Cessna acabou por lhe salvar a vida. Em prol de uma linda história de amor, sujeitou-se a uma operação plástica complicada e adoptou a sua nova identidade……………… Paulo Portas!!!
    (peremptório) – Ora essa? O Paulo Portas é o filho da Helena…
    (viperino) – Sa ca dura Ca bral?!?
    (apavorado) – Naaaaão!!! Quer então isso dizer que…?
    (triunfante) – Que andas concubinado com a tua mãe!
    (desditoso) – Ai de mim, casado com a minha mãe e fornicando-nos a toda a hora como se não houvesse amanhã!
    (divertido) – O que não irão dizer os jornalistas, eheh! (esperançoso) E agora? Vais furar os próprios olhos?
    (maquiavélico) – Para já tenho que mandar um SMS ao Port… à minha mãe a dar-lhe conta da tragédia. (sussurrante) Vai-se suicidar com o choque!!!
    (eufórico) – Boa! Boooa!! Já está? E agora? (confiante) É agora que vais furar os próprios olhos?
    (imperturbável) – Que horror, não! Agora vou instruir o emissário Hugo Soares que forneça aos senhores jornalistas mais umas palavras do novo léxico de politiquês que os nossos jotinhas andam a fazer, para eles terem com que se entreter até à próxima bronca.

    Cai um pano pouco calibrado

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