(muito risonha, a fazer charme) – Vá lá, doutor, não lhe custa nada patrocinar um dos cravos da Joana Vasconcelos.
(constrangido, a caminhar para o cadeirão onde se costuma sentar) – Desculpe, mas não concordo nada com essa ideia.
(insistente) – Já pensou no que representa para si de potencial de negócio 230 deputados, todos a precisar de tratamento? Só lhe digo! Ia ter um retorno fabuloso!
(senta-se e com um gesto convida-a a instalar-se no divã. Com um suspiro ela obedece, vencida)
– Na última sessão falou-me longamente dos seus medos. Gostaria de aprofundar essa questão explorando memórias do seu passado que podem explicar o que sente agora. Lembra-se de algum episódio na infância que a tenha traumatizado?
(de olhos no tecto) – Na verdade, se avançar no plano abstracto, pois só no plano abstracto eu poderei avançar descrevendo o movimento inverso ao do fluxo temporal, recordo-me de um fim de tarde em que a Ritinha, minha condiscípula, fez subir de forma descontrolada os meus níveis frustracionais.
– O quê?
(ignorando-o) – Estávamos num espaço de energia criativa…
– (impaciente) Onde?!
(olha o interlocutor como se só nesse momento tivesse tomado consciência da sua presença) – No recreio.
– Ah!
– E no exacto momento em que me preparava para projectar o meu soft power sagrado por todo aquele perímetro inter-comunicacional…
– Desculpe mas está a falar de quê?
– Do golo decisivo que eu me preparava para marcar no final do campeonato de andebol inter-turmas!
– Hum…
– Ela lançou-se, como um carrasco, num movimento de proximidade dinâmica e rasteira-me. Nunca o sentido do outro esteve tão presente como no momento em que desse golpe caí por terra e comigo caiu também a minha esperança silenciosa e triste (olha o terapeuta emocionada).
(Perplexo, ele faz-lhe sinal para continuar)
(À beira das lágrimas) Acho que esse incidente vive até hoje na minha memória como uma metáfora. A metáfora do meu perpétuo inconseguimento!!!


a beira das lagrimas é o que V. me provoca; não deixe de escrever por amor de nós.
Obrigada, Cristof.
Nesta chuva que nos põe à bica da depressão este teu texto levou-me às lágrimas de riso. Cada post é melhor que o anterior. Divinal humor!
Rir à custa de quem nos leva à depressão alivia-me muito, Helena. É terapêutico 🙂