Política de ódio


Diogo Novo,

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Miguel de Unamuno

 

O problema catalão é antigo. Não me refiro às origens de uma alegada singularidade histórica que, se bem adubada, justificará a independência. Refiro-me ao que Miguel de Unamuno topou em 1906:

 

“La especial megalomanía colectiva o social de que está enferma Barcelona les lleva a la obligada consecuencia de la megalomanía a um delírio de persecuciones (…). Y asi hablan de odio a Cataluña, y se empeñan en ver en buena parte de los restantes españoles una ojeriza hacia ellos, hacia los catalanes (…). Y tal odio no existe. No existe odio a Cataluña, ni a Barcelona, ni existe la envidia tampoco. Lo que hay es que los españoles de las demás regiones han estado constantemente ponderando y exaltando la laboriosidad e industrializacion de los catalanes (…) y con esto les ha recalentado y excitado esa nativa vanidad que con tanta fuerza arriaga y cresce bajo el sol del Mediterráneo. Y esa vanidad, esa petulante jactancia y jactanciosa petulancia que se masca en el aire de Barcelona, hace que las gentes sencillas y modestas (…) al encontrarse en aquel ambiente de agressiva petulancia, se sientan heridas y molestas”.

 

Embora desnecessário, recorde-se que Unamuno foi tudo menos um simpatizante franquista, como demonstra o célebre episódio no Paraninfo da Universidade de Salamanca, uma mostra notável de coragem física e intelectual que o Pedro Correia homenageou aqui no DELITO há não muito tempo. Recorde-se também que Unamuno nunca se moveu por anti-catalanismos. Louvava a sensibilidade cultural catalã – por oposição à apatia de Madrid. Dizia que era através dos catalães que se relacionava com o mundo da cultura externa, palavras escritas ao pintor Santiago Rusiñol, agora compiladas num maravilhoso epistolário que acaba de ser publicado.

 

De facto, é de “agressiva petulancia” e de politização do ódio que se faz o chamado procés. Como assinala Javier Marías num artigo em defesa dos catalães, o independentismo que assaltou o Estado de Direito assenta em mentiras e deturpações, num carácter totalitário e quase racista, um sequestro da maioria por parte de uma minoria. “Os independentistas precisam de acreditar que o seu país é tão odiado como odiado é por eles o resto da nação. Não é nem nunca foi o caso”. Se descontarmos o teatro e a radicalização, é tão-somente isto que está em causa.

11 comentários em “Política de ódio”

  1. A (des)propósito : curioso que, por estas bandas,Roures nunca seja mencionado…Roures e os seus “associados de outras partes”…

  2. “… é tão-somente isto que está em causa.”

    Não me parece, sinceramente.
    O que me parece é que o independentismo é uma tendência que se aprofundará e alargará a partir de agora.
    Os estados tenderão naturalmente a replicar os indivíduos e as famílias.
    E há muito que o movimento independentista vai chegando aos indivíduos e às famílias.
    Felizmente!
    João de brito

  3. “Não é nem nunca foi o caso”. Basta ler os jornais espanhóis, ver as redes sociais, e ouvir nas manifestações os gritos de “Puigdemont al paredón”. E já agora convém olhar também para a prisão dos independentistas catalães por uma juíza de Madrid, comparada, por exemplo, com a decisão de outro juiz em Bruxelas. Tudo manifestações de um profundo amor e carinho que todos os espanhóis nutrem pelos independentistas catalães.

    1. Uno-me ao J. Marías: dos muitos espanhóis que conheço, de amigos a vizinhos e passado por colegas, ninguém usa a expressão “al paredón” ou coisa parecida. Quanto à decisão do tribunal, como se dizia na insuspeita La Sexta esta manhã, um Puigdemont auto-exilado e com medo de regressar tem zero risco de fuga da Bélgica.

    2. O caro Luís Menezes Leitão perdoar-me-á a frontalidade, mas o senhor deveria ser proposto, a existir ele, para o Prémio Nobel da Demagogia.
      Os seus apontamentos trazem neles tudo o que nele traz o radical e furibundo nacionalismo catalão: o entorse sistemático da realidade, o sistemático tomar da parte pelo todo e o profundo ódio a tudo o que possa dizer ou fazer um espanhol só pelo facto de o dito ou o feito o ter sido por um espanhol. Lamentável.

    3. Deve ter percebido mal , os manifestantes têm dito ” puigdemont a prisión ” , um bocadinho diferente. E é curioso , porque à parte 4 gatos pingados a cortar estradas , impedindo ditatorialmente as pessoas de fazerem as suas vidas , e uma pobre iniciativa de colagem de cartazes ( sempre quero ver quem limpa) , protestos inflamados na rua por terem enviado os tipos a prisión por enquanto não há.

  4. Eu a esse “quase racista”, caro Diogo Noivo, retiraria o “quase”: o excelente senhor Oriol Junqueras, por quem não poucos dos nossos concidadãos choram baba e ranho, lamentando a sua “prisão política”, teve a inteligência de, num escrito seu, considerar os catalães geneticamente mais próximos de franceses, italianos e (pasme-se) suiços, enquanto considerava os “espanhóis” como similares genéticos de norte-africanos e… portugueses. E a sabedoria desse senhor está muito longe de ser caso único no furibundo nacionalismo catalão.

  5. Além da deturpação das ideias que defendem a independência catalã, é importante rectificar as simpatias deste grande escritor. Ele ao princípio apoiou o levantamento franquista, portanto foi simpatizante. E sim é verdade que renegou esse apoio e a demonstração desse facto é o episódio na Universidade de Salamanca.

    Rui Mateus.

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