Pode alguém não ser o que é?


Pedro Correia,

 

A propósito da prisão de uma jovem portuguesa em Espanha, por tráfico de droga, leio várias notícias na imprensa portuguesa que a identificam como “ex-actriz”. E ponho-me a pensar: o que será uma “ex-actriz”? Alguém que abandonou a profissão? Mas ser actriz, julgo eu, não é propriamente profissão – é vocação. Pode estar-se desempregado, sem actividade temporária nos palcos ou nos estúdios, e essa designação mantém-se como senha de identidade. A propósito, lembro-me de Shirley Temple. Ainda criança, na década de 30, foi uma das celebridades do cinema à escala planetária. Ao tornar-se adulta, perdeu a fotogenia e a graça inocente que a projectara para a capa de todas as revistas ilustradas. Estudou, constituiu família, envolveu-se em actividades políticas, tornou-se embaixadora de carreira com o apelido Black. Mas jamais deixou de ser a Shirley Temple do tempo dos nossos avós, a primeira e a mais inconfundível das inúmeras estrelas da 20th Century Fox. Nunca foi ex-actriz. Por mais que o destino a tivesse afastado dos plateaus cinematográficos. 

Actriz uma vez, actriz para sempre. De algum modo como um médico, que não se limita a exercer uma profissão: há nele um carácter de missão irrevogável. O mesmo se dirá de um jornalista. Ou de um escritor. Haverá “ex-escritores” ou “ex-pintores”? Julgo que não. Um poeta, por exemplo, só é “ex” quando morre. E mesmo assim as suas estrofes podem sobreviver-lhe, enternecendo gerações que nunca conheceram fisicamente quem as concebeu.

«Nunca penso na minha carreira. É uma palavra que não uso quando reflicto sobe o meu trabalho», declarou justamente, em recente entrevista ao El Mundo, Michelle Williams, galardoada com o Globo de Ouro para melhor actriz de comédia pelo seu desempenho no filme Uma Semana com Marilyn. Um actor tem como missão – muito mais do que profissão – seduzir os outros pela palavra, pelo gesto, pela entoação. Às vezes pelo silêncio, que também constitui uma poderosa arma de sedução. Podemos demitir-nos de um cargo, jamais conseguiremos demitir-nos da nossa vocação. É por isso que jamais me passaria pela cabeça chamar “ex-actriz” a alguém. Mesmo a uma jovem condenada a prisão em Espanha por tráfico de droga.

12 comentários em “Pode alguém não ser o que é?”

    1. Sou adversário tenaz dos lugares-comuns em jornalismo, compadre. Comecei a ler – e a ouvir – a expressão “ex-actriz” num órgão de informação e logo todos os outros fizeram eco da mesma expressão, propagando-a aos quatro ventos. Nunca a tinha ouvido, confesso, e estranhei ouvi-la agora de forma tão insistente.

  1. Shirley Temple foi embaixatriz. Embaixatriz é o feminino da palavra embaixador, não a mulher do embaixador…
    Dir-me-á que é para se perceber que é uma senhora a titular do cargo e não apenas a mulher do embaixador, que também é embaixatriz.
    Facilmente se tira pelo contexto… e não dizemos Catarina, Imperadora da Rússia, ou Maria Teresa imperadora da Áustria.
    O mesmo se diga da Rainha de Inglaterra, que é a Chefe de Estado enquanto a Rainha de Espanha não o é….
    Será que, para seguir o mesmo princípio de «embaixadora», se deveria dizer Isabel, Reina de Inglaterra?

  2. Muito mal, muito mal!
    Pode alguém ser quem não é?Pode!
    A piquena era mas, pode vir a não ser mais.Digo-o por experiência própria pois, já o fui e já não o sou ou voltarei a ser.Sou professôra e ex-actriz.Ficou colada à minha personagem a designação, para quem o saiba. E daí?
    Acaso não há ex jornalistas, ex políticos, ex futebolistas, etc…?
    Devemos conviver com o contraditório e nunca, quando a conversa não nos agrada – porque fomos certeiramente contestados -, “chutar para canto e assoviar para o lado.

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