Pintores sem prazo de validade


Pedro Correia,

 

Querubim_Lapa_Costureiras_1949[2].jpg

Costureiras, quadro de Querubim Lapa (1949)

 

“Leva muito tempo tornarmo-nos jovens”

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O’Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (95 anos), Albert Bertelsen (94 anos), Júlio Pomar (90 anos), Leon Kossoff (89 anos), Manuel Cargaleiro (89 anos), João Abel Manta (87 anos), Arnulf Rainer (86 anos), Jasper Johns (86 anos), Nikias Skapinakis (85 anos) e Frank Auerbach (85 anos).

 

Lembrei-me disto há dias, ao saber que o grande Querubim Lapa se despediu de nós, com 90 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

0 comentários em “Pintores sem prazo de validade”

  1. a longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos

    Eu o que tenho constatado (sem um estudo exaustivo sobre o assunto) é que os futebolistas têm uma esperança de vida bastante inferior à do comum dos mortais. A maior parte deles não chega aos 80, muitos acabam bem antes disso.

    1. Isso era dantes. Não se cuidavam, assim que largavam o futebol muitos faziam uma vida sedentária, bebiam e fumavam e engordavam como se não houvesse amanhã. Eusébio e Cruyff são exemplos desses. E o Maradona também. E o George Best. E o Garrincha.
      Mas o Pelé aí está, de boa saúde, com 75 anos. E o Bobby Charlton, com 78. E o Beckenbauer, com 70. O Di Stéfano morreu em 2014, com 88 anos.
      Nas próximas gerações será ainda mais diferente. Porque os atletas hoje cuidam-se muito mais, dentro e fora dos campos.

  2. Interessante.

    Não sei se alguma vez viu este filme fascinante do Renoir a pintar. Renoir esse que passou as suas últimas quase 3 décadas com uma artrite reumatóide horrorosa (que, segundo ele, teve a grande qualidade de não lhe permitir fazer mais nada senão pintar):

    https://www.youtube.com/watch?v=_V62aT_K8Zw

      1. Este é o propriamente dito no estúdio (filme muito bem restaurado). O filho conta uma história espantosa na biografia que fez dele: os amigos arranjaram-lhe um médico XPTO que o tratou e, a certa altura, anunciou que ele já estava capaz de andar outra vez; ele deu uma volta ao cavalete para grande excitação da família toda, voltou a sentar-se e disse: “muito bem, mas isto ia exigir a minha energia toda mas eu preciso dela para pintar”. E nunca mais se levantou.

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