Pintores sem prazo de validade


Pedro Correia,

cruzeiro-seixas-arte-pintura-obras-moty-gq-portugaO Rapto ou o Tão Amável Intruso, óleo de Cruzeiro Seixas (1972) no Museu Gulbenkian

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O’Keeffe (que morreu aos 98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Júlio Pomar (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Manuel Cargaleiro (93 anos), João Abel Manta (92 anos), Arnulf Rainer (91 anos), Jasper Johns (90 anos) e Frank Auerbach (89 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande Cruzeiro Seixas se despediu de nós a 8 de Novembro, a menos de um mês de completar 100 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

44 comentários em “Pintores sem prazo de validade”

  1. Talvez tenha uma explicação para além dos genes, que influenciam mas não determinam.
    O pintor, tal como místico, não se deprime (causa esta, a depressão, que também origina cancro, alzheimer…) porque atingiu a maturidade do conhecimento que no cristianismo se designa pela infância espiritual e não significa a infantilidade sem infância em que o homem comum se enrola nas mais diversas birras de sua existência.

  2. Boa questão Pedro.

    Talvez o facto de puderem criar até morrer, seja uma das razões (escrever exige mais dos neurónios e há uma altura que se pára, porque já não surgem mais ideias…).

    Os pintores podem explorar sempre a cor e o traço, e esperar pelas ideias, mesmo que elas se atrasem ou resolvam não aparecer. 🙂

  3. Agora até me assustei, estava a ver o seu orbituário e pensei, queres ver que a pintura é como o coronavirus e só mata os velhos.
    Já estava a imaginar a Graça Freitas com um pincel na boca a proibir o óleo e os pasteis.
    Mas depois acabei de ler e fiquei mais descansado, não há duvida que a pintura é um bom remédio antistresss.
    Fora de brincadeiras é uma justa homenagem.

  4. Jackson Pollock morreu com 43 anos de idade.
    Amadeo de Souza Cardoso morreu com 30 anos de idade.
    Leonardo de Vinci morreu com 67 anos de idade. Rembrandt com 63.
    Guilherme de Santa-Rita tinha somente 29 anos de idade quando morreu.
    As regras estão cheias de exceções.

    1. Morrer com 67 anos em 1519, ou com 63 anos em 1669, comparando com a actual esperança de vida, é como morrer nonagenário.

      1. E o Miguel Ângelo, que consta da lista de cima, tinha 88 anos, no século XVI.
        Mas também me lembrei do Souza Cardoso e do seu amigo Modigliani, um desaparecido precocemente por causa da pneumónica, o outro por causa do álcool.

          1. “Pollock, que morreu de desastre rodoviário, não conta.”

            Conta, porque o desastre foi causado pelo alcoolismo. O desastre foi um despiste no qual o condutor estava alcoolizado.

  5. Ainda iremos a tempo de nos tornarmos pintores sem que pareça que apenas temos medo da morte? Hummm…não me parece.

  6. É realmente muito interessante, e quase todos deram-lhe bem na vida. Vincent van Gogh (aos 37) e Amedeo Modigliani (os 36) deram-lhe demais, cada um à sua maneira.

  7. Agora quando olhar para uma pintura, além da estética, da técnica, do meio, da composição e da época, vou ter em atenção também a morte do artista.
    Será que um pintor a óleo dura mais tempo que um pintor de aguarela, ou um pintor de acrílico com um pintor a pastel, ou quantos anos tinham os que pintaram as gravuras de Foz Coa. São temas interessantes mas que um pintor quando está a obrar nem lhe passa pela cabeça.

      1. Lá está, você leu depressa e não reparou. Eu escrevi os que pintaram as gravuras porque esses são fáceis de se saber a idade, se a GNR os apanhou, claro.

  8. Mais umas poucas exceções: Kahlo. Cézanne, Gauguin, Rafael, Caravaggio, Velasquez, Manet, Vermeer, van Dyck, Courbet, Klimt, Seurat, Modigliani, …

    E que regra existe para estes (todos eles anteriores ao século XX):
    Antes de Cristo:
    Eratóstenes (80 anos); Arquimedes (75); Pitágoras (75); Apolónio de Perga (70?); Aristarco de Samos (70); Hiparco (70); Tales de Mileto (77); Diofanto (84?)
    [séc.VI]: Brahmagupta (70);
    [séc.VIII]: Al-Khwarizmi (70?);
    [séc.XI]: Khayyam (83);
    [séc.XII]: Fibonacci (72?)
    [séc XV]: Copérnico (71);
    [séc XVI]: Galileu (78); Pedro Nunes (76); Cardano (75);
    [séc XVII]:de Moivre (77); Wallis (87); Leibnitz (70); Halley (86); Johann Bernouilli (81); Newton (84);
    [séc XVIII]: Poncelet (79); Monge (72); Lagrange(77); Euler (76); Gauss (78); Laplace (78); Bolyai (81); Babbage (80);
    [séc XIX]: Kelvin (83); Weierstass (82); Pólya (98); Russell (98); Hilbert (81); Dedekind (85); Peano (74); Einstein (76); …

      1. Não quero teorizar sobre o que não conheço. Só quis comentar esta passagem: “Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos.” Numa das minhas área de interesse (a matemática) também aparecem “teorias” dos seus benefícios para a longevidade e para o atraso no envelhecimento. Daí a enumeração de muitos cientistas que viveram em épocas de baixa esperança média de vida. Mas poderia enumerar outros tantos que morreram com menos de 70 anos e não lhes chamaria “exceções”. Iguais listas se podem fazer para pintores, músicos, arquitetos, escritores …

        Os estudos que existem não são conclusivos, a não ser na forte correlação com o sexo (as mulheres vivem mais tempo), o não fumar e o não alcoolismo.

        1. Pois, eu falo concretamente de escritores e músicos, por contraponto aos pintores, com conhecimento de causa. São áreas que conheço bem e consigo, portanto estabelecer entre elas uma tendência comparativa.
          Parece-me menos relevante a comparação com matemáticos pois estamos noutro domínio do saber. Escritores, pintores e músicos são artistas. Lidam, portanto, com ideias que não são apenas pensadas mas sentidas. Trabalhando quase sempre no limiar da solidão.

          1. Não que me interesse entrar em polémicas, mas parece-me que para estabelecer tendências comparativas entre as longevidades por meio artístico seria necessário fazer um estudo com amostras significativas.
            Numa googlagem rápida de compositores de música clássica (que viveram em épocas de menor esperança média de vida) reparei que com mais de 70 anos tivemos:
            (séc. XVI): Monteverdi
            (séc. XVII): Handel,
            (XVIII): GlucK; Haydn, Rossini, Meyerbeer
            (XIX): Toscanini, Saint-Saens, Lizt, Stravinski, Rachmaninoff, Verdi, Ives, Wagner, R. Strauss, Schonberg

            Claro que, outros tantos (?) viveram menos de 70 anos.

    1. Quem tem dinheiro trata-se melhor: eis uma verdade intemporal.
      – The rich are different from us.
      – Yes, they live longer.

      (até porque de uma maneira ou de outra os génios de longo curso, em contraponto aos que se consomem em ruido e fúria, acabam por acostar em uma vida regrada; é isto uma tautologia?, fica a questão).

    2. Muitos desses como Gauguin, Caravaggio, Van Gogh, etc morreram de causas não naturais. Caravaggio, que era um marginal, foi talvez o que morreu mais espectacularmente — assassinado à facada ou lá o que foi

  9. Esta coisa aqui ainda é para se comentar acerca de cronicas? E isto é considerada uma cronica das que se gosta de ler?
    É que se for eu digo-vos os nomes de quem ainda escreve assim. Mesmo a preceito – muito depuradas e bem podadinhas- OS TAIS JORNALISTAS DERIVADOS DE POETAS…

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