Livros raramente li noutro sítio que não fosse na cama. Nisso me distingo da maioria das pessoas que conheço, que, se perguntadas, dirão que tal peça de mobiliário se destina a dormir, assegurar a propagação da espécie ou a manutenção dos aparelhos naturais a tal fim destinados, e curar doenças ou comprar passagem para o Além.
Isto é a gente a falar, que na realidade a tal maioria não lê livros em lado nenhum.
Por este dias ocupo-me com um calhamaço recente que pretende (e consegue) demonstrar que a civilização ocidental é muito mais tributária do cristianismo e da cultura clássica grega do que imaginam as pessoas, quer tenham quer não tenham convicções religiosas.
O autor é celebrado e prolixo, o que o torna às vezes pesadote porque não é um Edward Gibbon quem quer, mas aprende-se muito, o que é mais do que posso dizer de muitos ensaios históricos que se publicam por aí.
Sucede que nos livros grossos ainda mais do que nos outros a parte do texto que fica mais perto da lombada tende, porque a página nesse sítio encurva, a ser de difícil leitura, sobretudo se o corpo de letra for, como é o caso, pequeno. E isto dá como resultado que o leitor força a lombada para abrir mais o livro, danificando-a.
Há porém uma solução que, a uma cabeça privilegiada como a minha, ocorre, e que poderia obviar a este inconveniente. Exponho:
A largura das margens é a mesma dos dois lados e a esquerda da página esquerda e direita da outra é inteiramente inútil, salvo para quem tiver o hábito de fazer anotações. É porém raríssimo e, excepto no caso de um autor que a posteridade viesse a consagrar, e cujos biógrafos se deem ao trabalho de lhe escabichar os rabiscos, a prática é inútil. E depois quem sentir o apelo de escrever coisas a partir do que está lendo, e que jamais relerá, pode sempre deixar papelinhos.
De modo que a tradição de centrar o texto na página deve ser abandonada. Texto alinhado à esquerda, salvo seja, na página à esquerda, e à direita na outra, com uma estreitíssima margem, é o que se recomenda.
Gente versada nos escaninhos da impressão já me disse que não pode ser por isto e aquilo. Tretas, claro que pode, são mazé reaccionários impenitentes.
E deixo assim neste recanto obscuro esta proposta seminal que, se aprovada, viria a dar, pela via do conforto, mais incentivo à prática da leitura do que quaisquer planos nacionais feitos por pedagogos analfabetos.

> Gente versada nos escaninhos da impressão
Devia ouvi-los melhor, não me parece que o que lhe disseram tenha penetrado.
Mas se aderir ao século XXI e comprar um leitor electrónico, onde o problema desaparece, aconselho-lhe um dos maiores com botões para virar páginas, e espaço de moldura à volta para que os dedos não sonambulizem para o ecrã táctil.

a manutenção dos aparelhos naturais […] destinados [a assegurar a propagação da espécie]
O que quererá isto dizer?
José Meireles Graça,
When you become senile, you won’t know it.
ao
Querer resolver pela via da impressão um problema de encadernação não será o melhor caminho.
Se fosse o António Aleixo diria:
“Querer resolver pela impressão
Um problema de encadernação
Não é caminho, nem caminhão
É péssima solução “
Eu que não percebo nada do assunto, não concordo nem com a pessoa anónima, nem com Aleixo, tendo a concordar com José Meireles Graça.
Concordo. O problema é de encadernação e deve ser resolvido através de uma encadernação adequada.
Pode-se separar o livro em duas ou mais partes, encadernadas separadamente mas vendidas em conjunto, por exemplo dentro de uma caixa de cartão, como dantes se vendiam algumas enciclopédias.
Por acaso também adoro ler na cama …