
[Filipe Duarte e Maria João Bastos, adaptação televisiva de Equador, 2008]
O que é que possui alguns profissionais da escrita portugueses que os leva a conceber recorrentemente personagens femininas como, por exemplo, Ann Jameson (vide Equador, Miguel Sousa Tavares) ou Clarissa Warren (vide Linhas de Wellington, Carlos Saboga)? De onde vêm estas jovens, sempre britânicas e de boas famílias, que em pleno séc. XIX se dão bíblica e alegremente a protagonistas nacionais, entre vários outros personagens (para desgosto dos anteriores), como se estivessem a passar o Verão de 1982 na Praia da Rocha?

[Marcello Urgeghe e Victória Guerra, Linhas de Wellington, 2012]

Fetiche?
Sebastianismo dos Descobrimentos?
Auto elogio?
Critica à mulher portuguesa?
Se tivesse meeesmo de apostar, arriscaria a alínea a), Lucky…
Talvez porque já tenham experimentado homens das etnias delas e concluído que não prestam.
Eu também já me perguntei algumas vezes o que leva tantas alemãs a andarem com negros. A única resposta que consigo encontrar é que já experimentaram homens alemães e não gostaram.
Eh lá, Luís Lavoura, isso é que é levar a sério a psicologia/antropologia das personagens! Eu estava mais a referir-me aos seus autores…
Boa pergunta!
Deve ser nostalgia dos autores pelo verão de 1982 no Algarve, se calhar tiveram um namoro de praia inesquecível por volta dessa época, com uma turista inglesa, as portuguesas então eram, em média, mais recatadas…
Eu ando, cheia de esperança, à procura de uma explicação mais sofisticada…
O JJ Amarante roubou-me a resposta. Muito provavelmente é pura nostalgia, sim. Do Algarve, de Benidorm ou de Torremolinos… 🙂
Pois, Ana, se calhar a explicação é simples, o anacronismo é afectivo, celebratório.
O que não diriam J. Austen ou as irmãs Brönte a estas raparigas do seu tempo, eh eh.
Provavelmente são descendentes da Georgina, do Garrett.
…’quitadas’, Bruno, que ao contrário da ‘parenta’ Georgina, parecem totalmente libertas das convenções sociais do seu tempo, e conformação ou medos não estão c’o elas….
Já dizia o Almada:
“Ó santa virgindade a garantir a falta de lindeza…
Se ao menos isto tudo se passasse numa terra de mulheres bonitas! Mas as mulheres portuguesas são a minha impotência!”
Eu não sou como o Almada, mas se me lembrei dele tenho desculpa porque vim há pouco do Minho…
Felizmente existe o Alentejo!
Oh, não são as minhotas louçãs e pespinetas q.b.? Temos um críptico entre nós!
É bastante simples. Se consultarmos o Top 10 dos filmes com mais bilhetes vendidos em Portugal, só 3, com o Amália em destaque, é que não têm como tema principal ou à mistura.
Filme português sem sexo não vende. Geralmente porque são umas baboseiras experimentais, financiadas pelos contribuintes, e isso não é coisa que venda bilhete, nem sequer a preço de segunda-feira.
Mas e os livros, Aniceto?
Porque lhes dás tanta dor? Porque padecem assim?
eheheh
Esta série promete. Venham mais perguntinhas “inocentes” como esta… 🙂
E à vista de hoje, as respostas também!
Tento dar uma achega ao debate, aliás duas, com um par de citações do delicioso livro que ando a ler – ‘Gabriela, Cravo e Canela’, do grande Jorge Amado.
P. 147: «Ah!, esse clube onde aos sábados e domingos moças e rapazes, mulheres casadas, iam rebolar-se… Esse tal de Clube Progresso, que melhor se chamaria Clube da Esfregação… Nele o pudor e o recato desapareciam… Qual mariposa, Osmundo namorara, em seus oito meses de Ilhéus, meia dúzia das mais belas moças solteiras, pulando de uma em uma, leviano coração. Porque moças casadoiras não lhe interessavam, queria era mulher casada, banquetear-se gratuitamente em mesa alheia.»
P. 153: «Abriu-se o rosto de Tonico num sorriso, puxou uma cadeira, aquela fama de conquistador, de irresistível, era sua razão de viver. Enquanto o irmão Alfredo, médico e deputado, examinava crianças em seu consultório em Ilhéus, fazia discurso na Câmara, na Baía, ele trocava pernas pelas ruas, metendo-se com raparigas, corneando os fazendeiros nos leitos das concubinas. Mulher nova, desembarcada na cidade, sendo bonita, logo encontrava Tonico Bastos rondando em torno de sua saia, dizendo-lhe galanteios, gentil e ousado.»
Olha, fiquei com vontade de o ler também.
Mas sempre são cem anos mais tarde (anos 20/30 de XX, não?), e digamos que o pós-Grande Guerra mudou alguma coisa : até na Baía se falava (baixinho) do voto feminino, e coisas assim 🙂
Estado da Baía, 1925. Em comparação com os padrões europeus, muito mais avançados nessa época, a data do romance equivaleria a cerca de meio século antes. Bem sei que há praia em Ilhéus, o que já então ajudava à dissolução (ou pelo menos à ‘dissalação’, de sal) dos costumes…
Acho que é mais desejo ou fantasia dos próprio autores, que imaginam assim balzaquianas louras e com um toque aristocrático subitamente a “darem-se” a homens que são genuinamente apanhados de surpresa.
Uma mutação histórico-geográfica do estereótipo “loira-sueca”, eheh
Sim, eu também acho que é a fantasia dos próprios autores, ligada, aliás, a algum machismo, ou seja, uma mulher apetecível, com aspeto de inatingível (isto é importante), “dá-se” ao rapaz, que se vê sem hipóteses de recusar (isto também é importante, porque, para os machos latinos, o pressuposto de “a carne é fraca” deixa-os mais fortes – julgam eles).
Uma segunda explicação será o síndrome queirosiano: sempre que um escritor português se quer “dar ares”, tem de arranjar uma “Maria Eduarda” (que, por acaso, era portuguesa, mas era loura e tinha uma cadelinha escocesa 😉
Cristina, quem se lembra de pormenores como o da ‘cadelinha escocesa’ tem de pôr uma memória assim no seguro, parabéns 🙂
Isto não é uma pergunta, é um estilete… É como aqueles que ressuscitam um personagem morto porque não sabem como acabar a história.
Ora, Zé, é só uma pergunta