Pequenas maldades


escafandro,

Acontecia mais quando se telefonava menos mas, ainda assim, há um instante de tensão quando ligamos a alguém e a chamada é atendida mas ninguém fala. Por um lado, nunca estamos certos de que, na outra extremidade (e como esta formulação é reminiscente do tempo em que os fios eram obrigatórios), está quem desejamos que esteja e todo o desconhecido (e por maioria de razões um a quem nem sequer vemos a cara) constitui uma potencial ameaça. Por outro, falarem é concederem-nos uma hipótese. Seja qual for a nossa intenção, só a poderemos expor se nos responderem. Atenderem a chamada mas recusarem-se a quebrar o silêncio (em O Corpo Enquanto Arte, DeLillo usou a expressão «imobilidade das moléculas intrigadas» para descrever o instante) é uma declaração de que não somos importantes. De que não existe vontade de falar connosco. Da mesma forma, permanecer em silêncio quando nos ligam é permitirmo-nos um acto maldoso mas razoavelmente inofensivo, com o qual castigamos quem nos incomoda.

 

No fundo, a sensação não será muito diferente da experimentada pelo blogger que vê um post em que depositou imensas esperanças ficar com a caixa de comentários vazia.

 

Sim? Está lá? Está aí alguém?

36 comentários em “Pequenas maldades”

    1. D. Rosa é para aí a Fernanda Câncio, fatima! Não eu.

      (Por acaso prefiro um bocadinho a cena de “O Pai Tirano” em que o velho mordomo – a fingir, claro – gritava qualquer coisa como “O menino voltou! Alvíssaras! Alvíssaras!”)

      1. Também há a sensação daquele que faz um comentário, educado, e depois espera e espera, e ele nunca aparece….o que faz com que passe a dar algum gozo ver esses post´s ficarem vazios…

        1. Tem razão, Eu. E eu percebo bem a sensação, até porque, graças ao deputado Galamba (diabos, duas referências ao jugular no mesmo post), também já a senti. No que me diz respeito, Eu, eu (caramba, Eu, da próxima vez opte por tu ou por você de modo a tornar a resposta mais legível) nunca recusei um comentário. É verdade que às vezes demoro a aprová-los mas porque nem sempre estou em frente ao computador. E, sendo a política do blogue que cada um aprove os comentários aos seus próprios posts, evito mexer nos que não me dizem respeito.

  1. Com a crise actual, depositar seja o que fôr (até esperanças) não tem garantia de retorno!
    Deve ser por isso.

    Cumprimentos!

  2. Mas alguém ainda deposita esperanças em posts, Jaa?? Como diria o Herman, os posts são como os interruptores: umas vezes para baixo, outras para cima.
    (não resisti aos bonecos…)

        1. Ah…. que saudades tenho desta comentadeira, sempre a escrever, sempre a escrever, coitadinha sempre a trabalhar, até já deve ter calos nas pontas dos dedos das mãos de tanto teclar!! Bendita!!

      1. Uma pessoa não se pode ausentar deste blog um dia que é logo isto! Bem me parecia que aquele post do Rui sobre a culpa passar a casar ia dar mal resultado. E aí está: lá me enfiaram a aliança no dedo. E logo a mim ainda tão novinho! 🙂

        Vá, enquanto a minha culpa for a de fazer o José publicar coisas destas ainda não vai a coisa mal…

        1. Aliança no dedo, não, que eu não estabeleço compromissos desse género com homens, pelo menos sem antes ver uma fotografia deles. (Só se foi a Leonor.) Mas mais importante: esteve um dia inteiro (vinte e quatro horas ou mil quatrocentos e quarenta minutos ou oitenta e seis mil e quatrocentos segundos ou a duração normal de uma ressaca de alguns ex-treinadores e ex-dirigentes do Benfica) sem aqui vir? Não tem vergonha?

          1. Oh José, oh José! Vamos lá ver se nos entendemos que não quero cá confusões! Casaram-me com a culpa, não foi consigo, claro está!! (Não desfazendo que até acredito que seja moço bem parecido)

            Pois sabe que isso dos dias é relativo. A rotação terrestre é inconstante e os dias não têm todos exactamente a mesma duração, havendo diferenças de alguns segundos…

            Vergonha? Eu ter até tenho alguma, mas já era tempo de adoptar esse preceito da “portugalidade”: A vergonha, a mim, é cena que não me assiste.

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