Acontecia mais quando se telefonava menos mas, ainda assim, há um instante de tensão quando ligamos a alguém e a chamada é atendida mas ninguém fala. Por um lado, nunca estamos certos de que, na outra extremidade (e como esta formulação é reminiscente do tempo em que os fios eram obrigatórios), está quem desejamos que esteja e todo o desconhecido (e por maioria de razões um a quem nem sequer vemos a cara) constitui uma potencial ameaça. Por outro, falarem é concederem-nos uma hipótese. Seja qual for a nossa intenção, só a poderemos expor se nos responderem. Atenderem a chamada mas recusarem-se a quebrar o silêncio (em O Corpo Enquanto Arte, DeLillo usou a expressão «imobilidade das moléculas intrigadas» para descrever o instante) é uma declaração de que não somos importantes. De que não existe vontade de falar connosco. Da mesma forma, permanecer em silêncio quando nos ligam é permitirmo-nos um acto maldoso mas razoavelmente inofensivo, com o qual castigamos quem nos incomoda.
No fundo, a sensação não será muito diferente da experimentada pelo blogger que vê um post em que depositou imensas esperanças ficar com a caixa de comentários vazia.
Sim? Está lá? Está aí alguém?

Alô. Eu estou aqui. Tudo bem? Ciao.
Foi bom falar contigo, Pedro. Temos que fazer isto mais vezes. Ciao.
de nada jaa, foi um prazer!!!
Olha, um usurpador.
Vê-se logo que não és tu, Pedro. Falta-lhe o toque de cor e o traço distintivo. Mas se em vez de escrever tivesse telefonado…
que não seja por isso, queres que ligue agora?
Já chega, ok? Quando repetidas muitas vezes, as piadas perdem a graça.
Eu jamais utilizaria três pontos de exclamação.
Ailó, ailó! Senhora Rosa chegou a sua filha! LOOOOL
(ai que eu hoje estou uma comentadeira…
D. Rosa é para aí a Fernanda Câncio, fatima! Não eu.

(Por acaso prefiro um bocadinho a cena de “O Pai Tirano” em que o velho mordomo – a fingir, claro – gritava qualquer coisa como “O menino voltou! Alvíssaras! Alvíssaras!”)
Também há a sensação daquele que faz um comentário, educado, e depois espera e espera, e ele nunca aparece….o que faz com que passe a dar algum gozo ver esses post´s ficarem vazios…
Tem razão, Eu. E eu percebo bem a sensação, até porque, graças ao deputado Galamba (diabos, duas referências ao jugular no mesmo post), também já a senti. No que me diz respeito, Eu, eu (caramba, Eu, da próxima vez opte por tu ou por você de modo a tornar a resposta mais legível) nunca recusei um comentário. É verdade que às vezes demoro a aprová-los mas porque nem sempre estou em frente ao computador. E, sendo a política do blogue que cada um aprove os comentários aos seus próprios posts, evito mexer nos que não me dizem respeito.
quem espera sempre alcança!!
Pelo menos, a morte.
Este anónimo é redundante.
Em grande!
…mas vai-lhe custar umas quantas “tuitadas”…
ah, como eu adoro comentadeiras, malandrecas….
Com a crise actual, depositar seja o que fôr (até esperanças) não tem garantia de retorno!
Deve ser por isso.
Cumprimentos!
De facto, “depositar” talvez não seja o verbo mais correcto, Adérito. Podia alterar a frase de modo a usar “acreditar” mas como o crédito também não está fácil…
Mas alguém ainda deposita esperanças em posts, Jaa?? Como diria o Herman, os posts são como os interruptores: umas vezes para baixo, outras para cima.

(não resisti aos bonecos…)
Então não deposita, Ana? Imagina lá que os teus testes de “O Sexo da Escrita” tinham ficado sem comentários…
Sugiro já que a próxima série seja ‘A Escrita do Sexo”.
Pedro, ora aí está uma boa ideia! Essa série promete muitos comentários, está visto. eheheheh
E a inevitável menção ao inegável talento do inefável José Rodrigues dos Santos.
Nada disso! Nessa especialidade o MST é inultrapassável jaa. Muito treino? 😉
Ambos são primorosos nessas descrições. Um mimo.
Eu teria pena, claro, porque gosto desta interacção aqui no blogue. Mas não seria caso para suicídio…
😉
Ah…. que saudades tenho desta comentadeira, sempre a escrever, sempre a escrever, coitadinha sempre a trabalhar, até já deve ter calos nas pontas dos dedos das mãos de tanto teclar!! Bendita!!
Olá, jaa! Estou aqui 🙂
Não ligues a isso. O comentadores têm o direito a ficar silenciosos, assim um bocadinho à americana.
Olá, Leonor. Ainda bem que estás. E eu não me preocupo assim tanto. Mas tinha escrito o texto acerca dos telefonemas e depois apercebi-me de uma certa similitude com os blogues e não resisti a fechar o post desta forma. No fundo, a culpa (pelo menos de o post aparecer agora) foi do nosso leitor Hugo: 69416.html#comentarios
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/34
🙂
Gostei muito do teu post e fechaste muito bem. O ‘não te preocupes’ não era tanto para ser levado a sério. O nosso comentador Hugo é sempre oportuno.
Errr , podem parar de falar como se eu não estivesse aqui??
Uma pessoa não se pode ausentar deste blog um dia que é logo isto! Bem me parecia que aquele post do Rui sobre a culpa passar a casar ia dar mal resultado. E aí está: lá me enfiaram a aliança no dedo. E logo a mim ainda tão novinho! 🙂
Vá, enquanto a minha culpa for a de fazer o José publicar coisas destas ainda não vai a coisa mal…
Aliança no dedo, não, que eu não estabeleço compromissos desse género com homens, pelo menos sem antes ver uma fotografia deles. (Só se foi a Leonor.) Mas mais importante: esteve um dia inteiro (vinte e quatro horas ou mil quatrocentos e quarenta minutos ou oitenta e seis mil e quatrocentos segundos ou a duração normal de uma ressaca de alguns ex-treinadores e ex-dirigentes do Benfica) sem aqui vir? Não tem vergonha?
Err, considerando a sua queda para a matemática (visível, entre outros, no seu post do dia 14), espero não me ter enganado nas contas…
Oh José, oh José! Vamos lá ver se nos entendemos que não quero cá confusões! Casaram-me com a culpa, não foi consigo, claro está!! (Não desfazendo que até acredito que seja moço bem parecido)
Pois sabe que isso dos dias é relativo. A rotação terrestre é inconstante e os dias não têm todos exactamente a mesma duração, havendo diferenças de alguns segundos…
Vergonha? Eu ter até tenho alguma, mas já era tempo de adoptar esse preceito da “portugalidade”: A vergonha, a mim, é cena que não me assiste.